Sol Morrente

Sol MorrenteO senhor faz favor de mangar de mim não. Só porque tenho essa mania, cria do destemor com a vontade, de mostrar pra Ele que eu posso? Não é pra me desculpar, só pra explicar: sucede que o viver meu depende de arremedar um vivente ou não-vivente valoroso, desses que Deus fez com capricho. Se fala, arremedo. Se canta, arremedo. Se dança, arremedo. Se faz música, arremedo. Se toca instrumento, arremedo. Se aprende, arremedo. Se ensina, arremedo. Se lê, arremedo. Se conta história, arremedo. Arremedo até as manias: mania de arremedar manias. Faço isso desde muito menino. Juro pro senhor: não é fruto do meu querer, que até se acanha disso. Quando acontece, já aconteceu, e o depois… bão, o depois eu termino depois, que a vergonha é doída por demais. Mas, azarento que sou, outra vontade-sem-medo nasce, e a vergonha do antes descansa, pra’tormentar o depois. O senhor escute: dia desses tive um sonho, que eu tinha raízes nos pés, que essas raízes eram longas, que essas longas fincavam em tronco grosso de árvore, que essa árvore que eu sugava vivia numa vereda, que essa vereda tinha um rio, que esse rio era o Urucuia, e o resto… cerrado. Meu avô, pai de mamãe, que Deus o tenha, também criava manias: livros, a dele. O senhor sabe do poente desta nossa terra, não sabe? Bonito que só ele. Pois foi justo mirando nosso sol morrente quando me veio um estalo, desses que dá arrepio no espinhaço: o tal sonho vinha de um livro da pobre estante de meu avô, livro que li as primeiras linhas, preguiçoso que eu era; livro escrito por não-vivente valoroso. Ora essa! Pois agora eu arremedava até em sonho, entrando na história do contador, grudado numa árvore sua. Nasceu daí uma nova vontade-sem-medo, feito um corisco; vontade de me aproveitar da história, de brincar com ela, de fazer ela minha, só um pouquinho… Deus me perdoe, Deus me perdoe, mas nessas horas fico muito cheio de mim, que até me basto, que de uma planta parasita me transformo num ramo, da mesma árvore. Fico tão cheio de mim, mas tão cheio de mim, que consigo olhar pro céu, pro céu deste cerrado sem-fim, e gritar: “Tá vendo! Esse teu desvaloroso filho vivente também pode, também pode!”.

– Nonada. Tiros que o senhor ouviu foram de briga de homem não, Deus esteja. Alvejei mira em árvores no quintal, no baixo do córrego. Por meu acerto. Todo dia isso faço, gosto; desde mal em minha mocidade. Daí, vieram me chamar. Causa dum bezerro: um bezerro branco, erroso, os olhos de nem ser – se viu –; e com máscara de cachorro. Me disseram; eu não quis avistar. Mesmo que, por defeito como nasceu, arrebitado de beiços, esse figurava rindo feito pessoa. Cara de gente, cara de cão: determinaram – era o demo. Povo prascóvio. Mataram. Dono dele nem sei quem for. Vieram emprestar minhas armas, cedi. Não tenho abusões. O senhor ri certas risadas… Olhe: quando é tiro de verdade, primeiro a cachorrada pega a latir, instantaneamente – depois, então, se vai ver se deu mortos. O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja: que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro, eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucuia. Toleima. Para os de Corinto e do Curvelo, então, o aqui não é dito sertão? Ah, que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fechos; onde um pode torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho de autoridade. O Urucuia vem dos montões oestes. Mas, hoje, que na beira dele, tudo dá – fazendões de fazendas, almargem de vargens de bom render, as vazantes; culturas que vão de mata em mata, madeiras de grossura, até ainda virgens dessas lá há. O gerais corre em volta. Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o senhor sabe: pão ou pães, é questão de opiniães… O sertão está em toda a parte.. (“Grande Sertão: Veredas”, João Guimarães Rosa)

’Tisnothing. Shots you heard came not from men fighting, no. God forbid. I aimed at trees in the backyard, by the brook’s lowest part. Just to hit the target. Everyday I do this, I enjoy it; since tender youth. Then, they came to call me. ‘Cause of a calf: a white calf, deformed, eyes that are not – never seen -; and with the muzzle of a dog. They told me; didn’t sight it myself. Born flawed, despite its swollen lips, it seemed smiling like a person. Face of human, face of dog: it was the devil – they determined so. Stupid folk. They killed it. I don’t know who its owner was. They came to borrow my guns, I lent. I am not delirious. You sir, laughing those laughters… Look: when it’s a real shot, first the dogs start barking, immediately – after then, we see if there are any corpses. Be patient sir, this is the sertão. Some people do not want it to be: the sertão is located across the inner meadows, they say, end of course, high lands, and beyond Urucuia River. Bullshit. So, to Corinto and Curvelo, is this very here not called sertão? Ah, it is bigger! This is sertão: it’s the place where the grazing grass has no end; where someone travels thirty, forty-five miles, without meeting a single resident’s house; and where de criminal carries his own cross, far away from the authorities’ burden. The Urucuia comes from the west mounts. But today, on its both sides, everything grows – wealthy big farms, profitable pasture herbs, the river’s ebbs; plantations crossing forests, trees with a thick trunk, even virgin ones can be found there. The state of Minas Gerais runs around; and its fields are interminable. But, in the end, everyone believes in what they want to, as you know: tomayto or tomahto, is just a matter of choice… The sertão is everywhere. (“Backwoods”, Eu)

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