Inocência

– Assisti ao filme. – disse ela.cinema2
– Ao “50 tons de cinza”? – perguntou ele.
– Exatamente.
– Qual seu veredicto?
– Constrangedor, tal qual o livro.
– Pela ousadia?
– Não, pela inocência.
– Inocência?? Esperava então pornografia?
– No mínimo!
– Muitas gostaram das cenas com a protagonista vendada.
– Puro clichê.
– Nada de aproveitável então?
– Apenas uma coisa.
– Qual?
– O filme está para sair de cartaz.
– Concordo. Eis um grande benefício.
– Não é isso. A sala do cinema estava vazia.
– Não entendi.
– Amanhã você vai comigo.
– Quer assistir novamente?
– Tecnicamente não.
– Por quê?
– Vamos eu de minissaia e você de jeans stretch.
– Quer atentar contra o pudor?
– E também contra a inocência.

Helicoide

Golpe militarHá 51 anos, no dia 13 de março do conturbado ano de 1964, foi realizado um comício na estação ferroviária Central do Brasil, no Rio de Janeiro, cidade onde se localizava a capital dos outrora Estados Unidos do Brasil. Ali discursaram animadamente o governador eleito do Rio Grande do Sul Leonel Brizola e o então Presidente João Goulart para uma empolgada plateia composta por cerca de 150.000 pessoas. No evento, conhecido como Comício da Central, Goulart, eleito vice na chapa do presidente Jânio Quadros com 6 milhões de votos e alçado à presidência por conta da renúncia do titular, anunciou aos presentes aquilo que chamou de reformas de base; estratégia que, segundo ele, iria resolver as dificuldades econômicas pelas quais o país atravessava, entre elas a tão pavorosa inflação. O pacote de medidas, arquitetado pelo eminente Ministro do Planejamento Celso Furtado e outros célebres da época, incluía, dentre diversas medidas, o seguinte: reforma agrária, que promoveria a democratização da terra, expropriando áreas rurais inexploradas ou contrárias à função social da propriedade; reforma educacional, que aplicaria o Método Paulo Freire nas escolas; reforma Fiscal, que limitaria a remessa de lucros ao exterior por empresas multinacionais e criaria o imposto sobre grandes fortunas; reforma eleitoral, que promoveria a liberdade política, medida que legalizaria o Partido Comunista Brasileiro; reforma urbana, que racionalizaria o uso das áreas urbanas; reforma bancária, que ampliaria o crédito aos produtores rurais; reforma energética, que colocaria sob controle do estado as principais refinarias de petróleo do país. Seis dias após esse anúncio, no dia 19 de março, a Campanha da Mulher pela Democracia, a União Cívica Feminina, a Sociedade Rural Brasileira, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais, a Igreja Católica, setores da imprensa e políticos tradicionalistas organizaram na cidade de São Paulo, com o apoio do então governador Ademar de Barros, uma manifestação intitulada “Marcha da Família com Deus pela Liberdade”, cujo principal objetivo era rechaçar as medidas divulgadas pelo governo federal sob o argumento de que atentavam contra à moral, aos bons costumes e principalmente contra à propriedade privada; ideia que esses ímpares representantes da burguesia paulistana, porta-voz da brasileira, logo qualificaram como ameaça comunista. Segundo as estatísticas oficiais do governo estadual que apoiava o movimento, o evento reuniu cerca de 800.000 pessoas das classes média e alta, entre elas celebridades como a faceira Hebe Camargo. Contra a tal ameaça comunista, que a plutocracia paulista logo conseguiu personificar na pessoa do presidente João Goulart, discursaram nervosamente diversos políticos de direta, incluindo o patético deputado federal Plínio Salgado, nosso Hitler tupiniquim. No dia 31 de março, Goulart é deposto por um golpe militar que há muito vinha amadurecendo dentro dos quartéis, mas que, até aquele momento, não se concretizara por falta de apoio civil. Naquele ambiente de descontentamento, as camadas mais abastadas da sociedade propiciaram o vigoroso apoio que os generais amotinados precisavam; algo que constituiu o principal sustentáculo para o sucesso do golpe e da futura ditadura militar. No dia 2 de abril, novamente na cidade do Rio de Janeiro, a Assembleia de Deus, a Associação Cristã de Moços, a Associação de Pais e Mestres, a Campanha da Mulher pela Democracia, a Congregação de Belém, a Cruz Vermelha Brasileira, a Falange Patriótica, o Grupo de Ex-Combatentes da FEB, a Sociedade Cristo Redentor, a Imprensa, celebridades e outros reacionários congêneres organizaram uma nova Marcha da Família com Deus pela Liberdade, apelidada naquele dia de “Marcha da Vitória”, com o evidente objetivo de comemorar o triunfo do bem sobre o mal, o êxito da revolta militar sobre a ameaça vermelha à sacrossanta propriedade privada. A esses setores que apoiaram integralmente o golpe, pouco importava a ditadura que já mostrava seus claros contornos; era tempo de celebrar, de louvar a Deus, a retirada de Goulart e sua gangue, a limpeza feita no governo, maculado por essa gonorreia juvenil – segundo denominação do soturno Roberto Campos – chamada comunismo. Anos mais tarde, no dia 15 de março de 2015, setores ligados a imprensa, grupos de jovens de classes mais abastadas como o Movimento Brasil Livre, partidos políticos neoliberais, entidades de extrema direita, empresários, artistas globais, socialites, celebridades, entre outras coletividades do gênero organizaram manifestações simultâneas – em tempos de Internet, isso é fácil de fazer – em várias cidades do país. Na ruidosa pauta de suas reclamações, os hipócritas gritavam palavras de ordem contra a corrupção e o comunismo, os mais sinceros pediam o impeachment da presidenta Dilma Roussef, reeleita democraticamente seis meses atrás por 54 milhões de eleitores, e a saída do seu Partido dos Trabalhadores dos escalões mais altos do governo. Em diversas capitais, manifestaram-se livremente grupos organizados pró-intervencionismo militar; pessoas convencidas de que os problemas do país ainda poderão resolvidos sob a tutela da “inteligência” de generais. O que é isso afinal? Repetição pura e simples? Respondo: não, para mim isso é o ciclo histórico. A História não se repete, mas seus temas fundamentais permanecem e se apresentam, de tempos em tempos, diferentes, expandidos, intensificados. Por isso, o movimento cíclico da História não é circular, mas helicoidal. Sua trajetória temporal de eventos ascende em intensidade e amplia-se em extensão. No caso das manifestações atuais, por conta da falta de provas para justificar um impeachment da presidenta Dilma e da impossibilidade legal de se retirar um partido inteiro do poder, concluo que pouco interessa à elite manifestante e às pobres almas que ela doutrinou para fazer o devido volume nas ruas, como também pouco interessava aos retos manifestantes das marchas de 1964, qualquer tipo de estabilidade democrática; o importante é expurgar, detergir, desinfectar o governo, por algum meio, democrático ou não, de qualquer grupo que atente contra seus interesses particulares, que diminua seus privilégios, que tome o seu lugar na prática da corrupção intervencaoMilitar que assola todos os níveis do governo brasileiro há pelo menos um século. As marchas de 1964 e as que se iniciaram ontem, dia 15 de março, são manifestações do incômodo alijamento político percebido por setores que detêm o poder econômico, para os quais monarquia, democracia, ditadura ou qualquer outro regime político são válidos desde que não comprometam seus intentos velados de concentrar riqueza e poder.

Interpretação

pevearO laureado tradutor norte-americano Richard Pevear, célebre por verter para o inglês clássicos da literatura russa em parceira com sua dedicada esposa Larissa Volokhonsky, também russa, disse certa vez que traduzir é fundamentalmente interpretar. Tal qual o ofício de ator, o tradutor elabora a partir do texto original o seu entendimento particular, a sua visão da obra e os transcreve ao seu público-leitor. Nesse ato de interpretação, o tradutor deve buscar aquilo que acredita ser a versão mais próxima possível de um obra imaginária, escrita pelo próprio autor na língua-destino. Na prática, o casal Pevear & Volokhonsky, ao assimilarem um texto de Dostoiévski, por exemplo, procuram reproduzir em palavras tudo aquilo que absorveram, como se Dostoiévski fossem, um Dostoiévski tão fluente na língua inglesa quanto na russa. Por mais interessante e criativa que se considere essa abordagem do trabalho de tradução, devo dizer que discordo respeitosamente do eminente tradutor quando ele reduz traduzir a interpretar, quando considera que a instância final da tradução é a interpretação. Acredito que a segunda seja condição necessária, mas não suficiente para a primeira, pois junto com o interpretar, deve estar presente, com o mesmo nível de importância, o analisar: a incorporação imaginária de um autor não deve se sobrepor à capacidade analítica da pessoa do tradutor, do seu senso de realidade. Quero dizer que, no ato de verter, existe o autor interpretado, ficcional, obra do inconsciente mas há também o tradutor real, sua consciência, apta a raciocinar, a tomar decisões e inibir, se for necessário, eventuais impropriedades geradas no imaginário. Neste ponto, a similaridade com a dinâmica psíquica apregoada pela Psicanálise é evidente, mas devo confessar que não foi essa minha intenção, pelo menos a consciente. De qualquer forma, eu entendo as coisas assim: uma vez apreendido o seu contexto, não há muita margem interpretativa para verter para o português, por exemplo, uma frase como “I’m hungry!”; e não é a simplicidade dessa exclamação que reduz as possibilidades para a tal interpretação, mas sua proximidade estrutural com o português “Estou faminto!”. Em circunstâncias mais complexas que esse exemplo simplório, essa proximidade precisa ser avaliada pela faculdade analítica do tradutor, utilizando todo o seu vocabulário da língua destino. Por causa disso, considero um bom tradutor aquele que conhece bem a língua origem e muitíssimo bem a língua destino, pois é justamente essa última que ele pode manipular. Em termos genéricos, eu acredito que a utilização da capacidade interpretativa cresce, sem prejuízo de outros fatores, com as diferenças estruturais das línguas origem e destino: entre o russo e o inglês, por exemplo, as distâncias são grandes, bem maiores que as distâncias existentes entre o inglês e as línguas latinas. Eis por que o nosso felizardo tradutor Richard Pevear – residente em Paris, casado com uma Mystery_of_Marie_Rogetliterata russa, bem pago e premiado por suas traduções (que puta inveja a minha!) – considera tão intensamente o ato da interpretação. Para conferir qualidade ao seu trabalho, ele, com razão, precisa interpretar os autores das obras russas que traduz; muito mais do que este blogueiro metido a sabichão – bisonho tradutor brasileiro, ignorado pelas editoras – ao verter para o português textos como os do grande Edgar Allan Poe. Por falar nisso, após um esforço hercúleo das minhas pífia capacidade interpretativa e razoável capacidade analítica, disponibilizei no menu “Trabalhos/Tradução”, submenu Edgar Allan Poe, a versão para o português de mais um conto, o segundo, da chamada trilogia Dupin, intitulado O Mistério de Marie Rogêt; agora, só falta um para completar Os Três Contos do Cavalheiro Auguste Dupin!! Como é peculiar aqui no Extrato, seu autor não é nada modesto e anuncia, desde já, que conseguiu produzir a melhor tradução desse conto para a língua portuguesa.