Zico

flamengo1982Minha formação futebolística está intimamente ligada ao campeonato carioca, cujos jogos eram transmitidos ao nosso tubo televisivo todo domingo à tarde, religiosamente, pela também carioca Rede Globo. Num período onde as paixões são mais intensas, a adolescência, tive a grata oportunidade de não precisar escolher para meu time do coração entre Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Portuguesa e outras superfluidades paulistanas do gênero. Havia, à minha disposição, equipes de técnica mais refinada como o Vasco de Roberto Dinamite, o Fluminense de Cláudio Adão e Paulo Vítor, sem falar no Flamengo de Zico, Júnior, Leandro, Andrade, Adílio, Marinho, Nunes, Tita e Raul.
O meu primo, poucos anos mais velho e expectador do rudimentar futebol paulista, vítima de uma doença debilitante do intelecto chamada Corinthians, opunha-se, de maneira sistemática e contundente, ao Clube de Regatas do Flamengo, time que melhor definia o futebol arte daqueles tempos, tanto no âmbito carioca quanto, por falta de adversários à altura, no nacional.

Devo confessar que a relação com esse meu primo nunca foi das mais harmônicas e não era incomum nos engalfinharmos por alguma desavença. Cultivávamos o hábito pouco saudável de provocar um ao outro com brincadeirinhas pouco ortodoxas. Certa vez, acordei repentinamente de uma sesta maravilhosa com um palito de fósforo aceso encravado entre dois dedos do pé. O revide à essa afronta imperdoável ocorreu dias depois, numa bela manhã de sábado, quando ele ingeriu apressadamente, antes de sair para o encontro habitual com a namoradinha, uma generosa chávena do seu leite matinal no qual haviam sido dissolvidas três drágeas do inexpugnável Dulcolax.
Por conta dessas e outras diabruras de parte a parte, fica evidente minha escolha pelo Flamengo, algo que se deu tão logo percebi a contundente implicância de meu primo corinthiano com a esquadra rubro-negra e seu futebol invejável. Já plenamente convencido dessa minha opção, ele radicalizou ainda mais sua oposição, que atingiria seu ápice num domingo pitoresco. Na tarde do dia 18 de abril de 1982, deu-se a primeira final do campeonato brasileiro: Flamengo x Grêmio. Era preciso que o time carioca garantisse um bom resultado em casa, porque o segundo jogo ocorreria no Estádio Olímpico. Sobre o sofá lá de casa, em frente à TV, estavam eu, meu primo e um ilustre convidado seu: um asqueroso gremista serelepe. Aos 38 minutos minutos do segundo tempo, o meia-armador Tonho Gil marca um gol para o Grêmio, na única oportunidade criada pelo tricolor gaúcho. 
Enquanto os dois pulavam, gritavam e se cumprimentavam efusivamente, eu chorava copiosamente. Àquela altura da partida, julgava quase impossível uma recuperação do meu Flamengo: não havíamos conseguido vencer a retranca do adversário durante 83 minutos; não seria então nos 7 minutos restantes que isso ocorreria. Constrangido com aquelas lágrimas por conta da presença do convidado gremista, retirei-me da sala e corri para o quarto. Ali, pensei: “Vou parar de chorar. Preciso ajudar o Mengão contra esses dois filhos da puta. Vai ser o Zico lá no Maracanã e eu aqui”.
Três minutos após minha saída, retornei recomposto ao sofá e foram necessários outros três até que Júnior, na ponta esquerda, conseguisse cruzar a bola na área para que Zico, antecipando-se ao zagueiro, ficasse cara a cara com o goleiro Leão. Numa situação como essa, até um modesto conhecedor de futebol daquela época, torcedor de qualquer time do mundo, já saberia do resultado. Quando recobrei a consciência, eu estava sambando em cima da mesa da sala, a mesma sala da qual havia fugido, aos prantos, seis minutos antes. Na partida seguinte, o Flamengo sagrou-se campeão brasileiro de 1982.

4 comentários sobre “Zico

  1. André 24 de fevereiro de 2015 / 08:25

    Muito bom, Extrato! Falar de futebol é bem mais saudável que de política!

  2. Extrato do Miolo 24 de fevereiro de 2015 / 08:44

    Obrigado, Dr! Concordo que comentar futebol é muito mais prazeroso que política, embora ela esteja cada vez mais influente também no esporte. Abraços!!

  3. Rodrigo Dias 10 de março de 2015 / 13:50

    Ainda quero saber quem é o canalha que tirou a final do futebol brasileiro.

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