Tortura

narcDevo dizer que não é muito fácil para nós narcisistas – daquela espécie que se considera, além de belo e magnânimo, uma profícua fonte de inspiração para toda a humanidade -, revelar, sem o mais leve traço de constrangimento, as verdadeiras fontes do nosso insípido saber, de nossas parcas habilidades; problemas constrangedores que procuramos encobrir deliberadamente com uma aura de autenticidade. Assim, dissimulando heroicamente o que é de fato mera reprodução, procuramos impressionar os de espírito influenciável ou então, pelo menos, intelectos mais modestos. Dentre as pessoas que elegemos como vítimas, há sempre aquelas que nos contrariam, quando não se deixam iludir por nossas qualidades fabricadas, por nosso assédio eloquente, formatado num discurso sofisticado e numa considerável dose de auto suficiência; faculdade indispensável aos que dispõem do comportamento narcisístico como recurso para amenizar suas enormes dificuldades no campo afetivo. O narcisismo, após proporcionar os primeiros prazeres a quem o pratica eficientemente, entranha-se de maneira indelével até as camadas mais profundas do aparato psíquico e ali se instala em caráter permanente. Nesse estado, as frustrações deixam de ser fenômenos típicos da vida humana e se tornam ameaças de um mundo hostil, arquitetado para destruir esta estrutura ímpar e maravilhosa que é o ego narcisista. Essa sensível intolerância aos dissabores que rotineiramente assolam as pessoas, aliada a uma pungente necessidade de aprovação, torna a vida do narcisista, na maioria das vezes, um constante desafio, uma batalha ininterrupta. Assim, para nós, a arte de viver significa, em última instância, guerrear: nesse combate, nossos melhores aliados são aqueles que nos admiram, que acreditam em nossos disparates; nossos piores oponentes são justamente outros narcisistas. Sim, pensando e agindo apenas em causa própria, é impossível aos narcisistas estruturarem-se em qualquer espécie de comunidade, uma vez que o fundamental num agrupamento uno de seres humanos, onde impera a colaboração, é o reconhecimento do outro como uma entidade dotada de valor intrínseco, liberdade e autonomia. Em nossa visão distorcida, esse outro divide-se em dois tipos apenas: os que nos adulam e os que nos ofendem; em outras palavras, todo aquele que não está a meu favor, está contra mim; se não é meu amigo, é meu inimigo. Conviver, então, transforma-se em algo bastante extenuante ou, em termos mais modernos, estressante: se estamos numa guerra, se a qualquer momento iremos encontrar a figura de um adversário ou a de um aliado, precisamos estar constantemente preparados para defender e atacar; algo que exige um nível mínimo de adrenalina na corrente sanguínea, um mínimo de tensão no sistema nervoso. Imersos nesse ambiente adverso, perturbados por esse estado de alerta, alguns narcisistas sucumbem; em particular, aqueles psicologicamente mais frágeis, para os quais a perene atmosfera de conflito e a profunda ansiedade que os acomete significam tortura. Para esses derrotados, a grave crise que os assaltou, que os derrubou, é uma excelente oportunidade para lançar um novo olhar para si mesmo, agora com olhos menos fantasiosos, mais sinceros, buscando o autoconhecimento, a auto responsabilidade, a tolerância para consigo.  A esses prisioneiros da vida ficcional que fabricaram resta tomar ciência – com ajuda profissional, se preciso for – da realidade, das idiossincrasias genuínas da natureza humana.

2 comentários sobre “Tortura

  1. André Luiz Vianna 29 de julho de 2014 / 09:16

    Somos menos que um grão de areia no Universo, mas que estrago podemos fazer…

    • Extrato do Miolo 29 de julho de 2014 / 14:30

      É verdade, Dr! E só se adquire essa clarividência após enormes tropeços.

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