1 x 7

alemanha Certa vez alguém muito importante me disse que o psicanalista francês Jacques Lacan interrompia imediatamente a sessão quando seu paciente, de alguma forma, alcançava o tão almejado insight; espécie de clarividência que o indivíduo logra por si só, não com total autonomia, pois esse momento de lucidez repentina é também influenciado pelas circunstâncias externas, seja por um bom trabalho psicológico ou algum evento singular, que não se dá necessariamente no consultório de um analista. Assim, o fenômeno do insight não é privilégio de analisandos, mas de todo aquele que, num dado instante, se percebe desvelado. No caso de seus pacientes, Lacan pedia a eles que voltassem para casa a fim de ruminar, de refletir sobre o fato recém descoberto, avaliando sua importância na busca do tão almejado autoconhecimento. Não é de se esperar que tais tipos de revelações sejam sempre prazerosas; algumas delas podem ensejar na pessoa manifestações de rejeição, ansiedade, ódio, medo, entre outras. No dia de ontem, 8 de julho de 2014, milhões de brasileiros assistiram estupefatos a um insight coletivo da jovem seleção brasileira de futebol, e também de seu treinador (não tão jovem assim), manifestado num contundente ataque de pânico; evento que provoca as mais diferentes reações extremadas: entre elas, a paralisia. Aos vinte e três minutos do primeiro tempo da semifinal Brasil e Alemanha pela Copa do Mundo de futebol, quando os excelentes futebolistas germânicos marcaram seu segundo gol, o time brasileiro ficou entorpecido ao conseguir enxergar, ao constatar de forma inequívoca sua enorme debilidade técnica; debilidade essa que os resultados positivos conseguidos aos trancos e barrancos ao longo da competição haviam ajudado a acobertar, a esconder do público menos observador e também da própria equipe. Os três gols alemães que se sucederam, dos vinte e quatro aos vinte e nove minutos, demonstraram o caráter traumático que assumiu a tal paralisia, pois até mesmo a fraca estrutura tática que apresentara nos outros jogos o time perdeu. E perdeu porque também ficou evidente para todos, até para o mais distraído dos espectadores, a absoluta fragilidade emocional de nossos púberes jogadores que, como tais, passaram a apresentar um autêntico futebol de juvenis: ingênuo e canhestro. Derrotada de forma surpreendente e vexatória (Brasil 1 x Alemanha 7), num verdadeiro jogo-treino para seu adversário, esta bisonha seleção brasileira conseguiu algo que parecia impossível: finalmente, a sempre rancorosa torcida brasileira deixará em paz os agora valorosos vice-campeões de 1950. Segundo o Dr. Sigmund Freud, quando um evento traumático não afeta o que se denomina estrutura nuclear do carácter, há chances reais de que o trauma seja superado, supondo-se um paciente adequadamente orientado. Diante dessa hipótese – eu diria, animadora, por conta das trágicas circunstâncias -, acredito, sem muita convicção, que ainda reste algum fiapo de esperança à esta traumatizada seleção brasileira de futebol na sua dificílima busca por um insípido terceiro lugar, seja qual for o adversário; tal busca será muito difícil pois a equipe precisará superar a si própria.

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