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Willendorf

visualArtsNa minha opinião, nem sempre modesta, todo o agrupamento de pessoas passível de ser qualificado família deveria possuir em seu rol de bens comuns uma enciclopédia sobre Arte, tão cuidadosa e não menos volumosa que uma obra histórica ou o tradicional livro religioso, item essencial para os crentes, como a tal Bíblia da Família, por exemplo. Digo isso porque diferente da História e da Religião, a Arte proporciona uma visão única do ser humano; através dela, é possível assistir à transformação desta necessidade intrínseca ao homem de harmonizar sons, formas, cores e texturas. Conhecer tal necessidade é, em última instância, desvendar muito do espírito humano, uma vez que ela é uma das expressões mais honestas daquilo que o constitui: o amálgama do meio que circunda o homem com seus caracteres inerentes. Assim e por não acreditar na obsolescência dos livros e enciclopédias, ainda que completamente imerso na era da Internet, resolvi dispor em minha estante pretensiosa, ao lado da Bíblia de Jerusalém, a obra The Visual Arts: A History, dos autores Hugh Honour e John Fleming, em sua sétima edição. A abordagem do livro é realmente enciclopédica, pois cobre a Arte desde o período paleolítico até o final do século XX, dedicando alguns capítulos para as artes oriental e americana; tudo isso apresentado num volume único, de mil páginas, tamanho 30 cm x 23 cm, cujo conteúdo possui nível introdutório, mais descritivo que analítico. Animado com a chegada dessa obra robusta, iniciei uma incursão despretensiosa por suas páginas grafadas com letras miúdas, justamente pelo tal período pré-histórico da Arte, quando lá pelas tantas, uma certa figura muito me chamou a atenção. Tratava-se da escultura de uma deusa mãe, conhecida por Vênus de Willendorf, onde são perfeitamente discerníveis, até para o mais desatento observador, os seios generosos e os glúteos protuberantes. Em menor escala, pode-se perceber também os grandes lábios vaginais e sua inconfundível separação. Por alguma razão, o artista preferiu não esculpir o rosto, cobrindo-o com cabelos. O texto explica que tais imagens não eram incomuns naquela época primitiva e sua adoração objetivava atrair a fertilidade, em sua mais ampla concepção: a capacidade de nutrir e de reproduzir. Procurar invocar tais dádivas idolatrando seios e vagina faz todo o sentido, mas qual seria o papel da bunda nessa história? A fim de procurar respostas, matutei intensamente com meus botões e, após um tempo significativo, ocorreu-me a ideia de que o escultor não tencionou conferir um caráter utilitarista ao seu trabalho, visando o fim precípuo de atrair fertilidade. Tenho para mim que ele tentou reproduzir as regiões que mais o encantavam – com motivações puramente sexuais – na fisionomia feminina: dentre as partes interessantes, há a bunda; não há o rosto. Eis que surge então, nesses tempos remotos, as concepções mais rudimentares sobre a beleza feminina: seios fartos, glúteos abundantes, longos cabelos trançados e uma vagina bem definida. A partir daí, tal concepção se desenvolveu e, junto com ela, a faculdade artística do ser humano. Eu diria que essa estreita relação  “Mulher-Arte” é, no mínimo, bastante interessante. Quando chego nesse ponto de minhas elucubrações – uma espécie de resultado -, sou invadido por uma necessidade quase patológica para tirar conclusões. Eis então mais uma: acredito que fazer, praticar Arte é, em última instância, buscar retratar, descrever o feminino.Venus_Willendorf

2 Comentários Comente
  1. Ótima crônica, Roberto! Tema fundamental, tratado com engenho e arte. Você está escrevendo cada vez melhor!

    11 de junho de 2014
    • Obrigado pelo incentivo Dr! Vou continuar a escrever então sobre essas maluquices que frequentemente passam pela minha cabeça.

      11 de junho de 2014

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