Exemplar 162

ledoIvoEm meio ao frenesi futebolístico provocado pela Copa Do Mundo em mais um magnífico mês de junho, resolvi, um dia destes, largar um pouco os livros e zapear pela TV atrevendo-me a conferir a programação de alguns canais alheios à cobertura da citada competição esportiva. Quando me coloco a mudar freneticamente de canais televisivos, nunca procuro algo específico, mas qualquer imagem que, durante o intervalo de tempo de um segundo que separa uma mudança da outra, me chame a atenção. Nesse dia ao qual me referi, interrompeu-me a figura terna e agradável do saudoso poeta alagoano Lêdo Ivo, com seu jeito simples e preciso de falar, sem rodeios, inconfundível. Eu já havia gostado muito de assistir a uma entrevista desse valoroso imortal da Academia Brasileira de Letras concedida ao jornalista Geneton Moraes Neto, quando contou, risonho e descontraído, algumas histórias de sua convivência com outros famosos escritores: revelou que Guimarães Rosa, por exemplo, era um sujeito muito pouco modesto pois se julgava, sem o menor pudor, o melhor escritor da língua portuguesa de todos os tempos; disse também que era Rosa quem escrevia os press-releases de seus próprios livros, quando os elevava à condição de obras-primas, trabalhos inigualáveis na literatura mundial. Nesse segundo programa que comecei a assistir, mais uma biografia que uma entrevista, Ivo contou sobre suas origens humildes em Maceió e que ele desde cedo já se imaginava um escritor, mesmo vivendo numa cidade sem bibliotecas à época. Sobre outros escritores, revelou que sempre foi muito próximo a Graciliano Ramos e que esse o influenciou quando resolveu definir seu estilo, refratário ao movimento modernista de 1922: Ramos considerava os modernistas nada além de um bando de homossexuais assanhadiços. Entremeando esses causos, vários sonetos do poeta eram recitados, e devo confessar que, mesmo sendo um amante mais da prosa que da poesia, apreciei deveras os cuidadosos versos do autor alagoano. No intuito de melhor conhecer sua obra e também para saciar temporariamente minha ânsia por livros, resolvi encomendar por uma famosa livraria virtual o título Poesia Completa 1940-2004, da Editora Topbooks. Transcorridos os intermináveis dez dias para a entrega, tal qual um menino que recebe um presente há muito desejado, fui invadido por uma satisfação inenarrável ao abrir o livro e descobrir que meu exemplar, composto em papel de alta gramatura, é o centésimo sexagésimo segundo de uma edição com apenas duzentos exemplares e que, surpreendentemente, está autografado. Repito: autografado. Não, não se trata de uma assinatura psicografada: Lêdo Ivo, falecido em 2012, assinou os duzentos exemplares ainda em vida. Orgulhoso, estou com o meu aqui perfeitamente perfilado em minha estante pretensiosa; creio que restem apenas trinta e oito ou menos na Editora. A propósito, já li algumas páginas dessa obra e transcrevo a seguir um dos poemas que mais apreciei.

O TODO E A PARTE

Uma parte visível.
A outra parte escondida.
Assim me divido
no jogo da vida.

Assim me divido,
me somo e me subtraio.
Uma parte é do relâmpago
e a outra parte é do raio.

Sou dia e sou noite,
a certeza e o talvez
atrás da montanha.

Só ganho quando perco.
Só perco quando ganho.
Estou desperto e sonho.

(Curral de Peixe, 1991-1995)

Exigências

toadUma das características mais peculiares da música pop é sua capacidade para se instalar confortavelmente na memória dita retentiva e ali, independente se quem a ouviu gostou ou não, manifestar-se numa periodicidade incontrolável até que outra espécie de pensamento fixo a substitua. A longevidade de sua reincidência em algumas dessas mentes doentias é proporcional à qualidade da melodia, uma vez que a profundidade das letras não é objeto de preocupação, sequer remota, por parte dos compositores pop. Contribui também para a frequência dessa repetição o quanto a música empolga esses apreciadores, digamos, mais exigentes, que valorizam, conscientemente ou não, a tal excelência melódica . Para eles, a instrumentação deve ser simples, mas não simplória; o ritmo precisa ser bem marcado, contundente, dotado de uma certa imprevisibilidade; a harmonia do refrão tem que distingui-lo do restante da música, sem contudo destacar-se exageradamente. Ávidos consumidores de pop têm uma predileção especial para ouvir essas canções pegajosas quando enfrentam sua rotina diária ou quando partem numa viagem, tornando-as a trilha sonora que embala seus afazeres. Inúmeras bandas produzem esse tipo de música, mas há uma delas, estadunidense, chamada Toad The Wet Sprocket, cujo repertório muito me agrada, embora eu ainda não saiba por quê. Formado na Califórnia em 1986 pelos guitarristas Glen Phillips e Todd Nichols, pelo baixista Dean Dinning e o baterista Randy Guss, o grupo iniciou a carreira com o cuidadoso disco Bread And Circus em 1989, interrompendo os trabalhos em 1998, um ano após o lançamento do ótimo Coil. Phillips partiu para uma medíocre carreira solo e os demais membros caíram no ostracismo. Em 2013, por razões financeiras, creio eu, resolveram retomar a banda, buscando senão o sucesso que nunca tiveram, pelo menos recuperar um pouco das pequenas glórias do passado, como os hits dos bons discos Pale(1990) e Fear(1991). Ao ouvir o trabalho que marca o retorno da banda, New Constellation(2013), devo admitir que os músicos capricharam, compondo o melhor disco de suas carreiras: embora não se ouça nada de revolucionário, o álbum é simples e sincero; do qual se depreende o cuidado, o esmero em cada canção e também uma certa maturidade, especialmente de Phillips, o principal compositor. A seguir, apresento minha avaliação das músicas, com destaque especial para a tocante The Moment: 

Toscano

canario-belgaNo dia 5 de Julho de 1982, eu acabara de completar dez anos, idade em que o futebol para a maioria esmagadora dos brasileirinhos daquela época longínqua significava muito mais do que uma mera modalidade esportiva. Nesse dia inesquecível, foi disputada a partida Brasil x Itália pela terceira rodada da segunda fase da Copa do Mundo de Futebol, cujo país-sede era a Espanha. Eufórico com as quatro espetaculares vitórias brasileiras até ali, sem dizer do título de campeão brasileiro conquistado pelo meu Flamengo no glorioso mês de abril daquele ano sobre o truculento Grêmio, em pleno estádio Olímpico, comecei assistindo a partida absolutamente contaminado pelo clima de otimismo que se disseminara após nossa impecável vitória sobre a odiosa Argentina. Diante da fraquíssima campanha italiana na copa, dizia-se despudoramente por aqui: “Vai ser moleza! A Itália é freguês!”. Durante o jogo, aconteceu que a providência divina resolveu ser bastante benevolente com um certo toscano nascido na província do Prato em 1956. Recém egresso de um banimento de dois anos do futebol por envolvimento em escândalo de venda de jogos, massacrado pelos jornalistas esportivos de seus país e ridicularizado por sua torcida, o jogador Paolo Rossi, o tal toscano, foi um atacante convocado de última hora, para participar da Copa da Espanha, pelo destemido técnico Enzo Bearzot: único ser humano italiano da época que, em pleno exercício de suas faculdades mentais, acreditava numa possível contribuição desse futebolista, cujos preparos físico e técnico se encontravam bastante defasados em relação aos do restante da equipe. Por conta disso, Rossi foi escalado apenas no quarto jogo da esquadra azurra na competição, quando ela bateu a Argentina por dois a um, com gols de Tardelli e Cabrini. Repetiu-se sua escalação no jogo seguinte, o supracitado, contra o Brasil, quando aos cinco minutos do primeiro tempo, Rossi marca seu primeiro gol na copa, abrindo o placar da partida ao cabecear, livre de marcação, uma bola cruzada pelo lateral-esquerdo Cabrini. O time brasileiro buscou então o empate; score que lhe garantiria o prosseguimento na competição e a consequente eliminação da Itália. Assim o fez a seleção canarinho logo em seguida ao gol italiano, aos doze minutos, numa jogada espetacular de Zico, driblando seu adversário e assistindo Sócrates na área, que chutou uma bola rasteira, entre a trave esquerda e o excelente arqueiro italiano Dino Zoff. Rossi não se deixou abater e, oportunista, roubando a bola de um canhestro recuo feito por Toninho Cerezo para a intermediária defensiva do Brasil, partiu livre em direção à área e fuzilou o medíocre goleiro Valdir Peres aos vinte e cinco minutos de jogo. Assim, a Itália terminou o primeiro tempo na frente, mostrando – de maneira bastante contundente – ao time e à torcida brasileiros que venderia muito, muito cara a sua eventual eliminação. O segundo tempo iniciou nervoso até os treze minutos, quando Júnior avança da lateral esquerda para a intermediária italiana e percebe Falcão livre de marcação na entrada da grande área. O volante brasileiro conduz a bola para a esquerda, procurando uma brecha para o chute, e finalmente dispara a bola direto para o gol. Lembro-me que nesse momento, comecei a chorar num misto de alegria e desespero; naquela época, o futebol ainda me despertava essas reações apaixonadas. Pela comemoração emocionada de Falcão, percebi claramente que havíamos desrespeitado nosso adversário e que o empate apenas equilibrava as duas forças em campo, não garantido absolutamente vantagem alguma. Tal clarividência confirmou-se aos vinte e nove minutos numa bola de escanteio, cruzada bem aberta na área brasileira, e desviada por Rossi, livre de marcação, após uma tentativa de chute de fora da área, que foi direto para o fundo das redes brasileiras. Rossi e sua Itália estavam novamente na frente e assim permaneceram até o final da partida, sob os olhares de um público estupefato e o corre-corre desarticulado de uma seleção brasileira que parecia indignada com a determinação de seu oponente. Após essa partida, o futebol nunca mais foi o mesmo para mim: de alguma forma, ficaram cicatrizes, lembranças amargas de uma certeza frustrada e também um certo senso de auto preservação, advindo da percepção – rudimentar à época e que hoje se sedimentou – de que é bem mais saudável encarar o futebol como de fato uma mera competição esportiva. Durante muito tempo, acalentou-me o patético discurso de que a seleção brasileira era a melhor equipe da Copa de 82, mas que infelizmente o melhor nem sempre vence. Ao escrever este texto, constatei que tal falácia busca amenizar as dores do derrotado, pois no caso da Copa da Espanha, não foi bem isso que aconteceu. Nas fases eliminatórias, onde o perdedor volta para casa, a Itália superou seus adversários de maneira incontestável e contra seleções consideradas tecnicamente superiores: Argentina, Brasil, Polônia e Alemanha Ocidental. Depois do jogo contra o Brasil, Paolo Rossi, nosso carrasco de Sarriá, que virou titular absoluto, marcou os dois gols da Itália contra a Polônia e mais um na final; tentos que lhe garantiram a artilharia da competição, pela qual recebeu a chuteira de ouro e também o título de melhor jogador. Concluo, de certa forma surpreso, que a melhor seleção da Copa do Mundo de 1982 na Espanha foi a campeã Itália porque soube vencer quando precisou vencer. De lá para cá, outras copas sucederam e o Brasil pode acrescentar mais dois títulos mundiais ao seu glorioso currículo futebolístico; mas devo dizer que nenhum evento no futebol após essa terrível derrota para a Itália me trouxe tantos ensinamentos. Hoje, assistindo a mais uma copa, desta vez em meu país, é interessante observar, com os devidos distanciamento e discernimento que faltaram àquelas lágrimas abundantes nos meus ingênuos dez anos de idade, as reações dos que optaram por ficar mais profundamente envolvidos: os oportunistas badernam nas ruas; os sindicalistas fazem greve; os argentinos ridicularizam a cerimônia de abertura; os perdedores chamam a copa de circo; a sempre gentil torcida paulistana manda em uníssono a Presidenta da República tomar no cu (afinal de contas, se hostilizar os negros é um direito legítimo, por que não a presidenta?); os covardes se escondem; Galvão Bueno continua esbravejando seus disparates popularescos; a oposição diz que o juiz japonês roubou e a situação, que compensou; Scolari finalmente aprendeu a dissimular também sua truculência enquanto os saudosistas da crônica esportiva tupiniquim espinafram a jovem seleção brasileira, apesar de mais uma vitória em copas do mundo. De minha parte, esta copa será uma ótima oportunidade e motivação para me reunir com os poucos amigos e familiares, desfrutando o divertimento dessas horas raras e, acessoriamente, torcendo em conjunto pelo Brasil.