Chumbo

PigIndigno representante da chamada geração X, este humilde blogueiro veio mundo, contrariado e literalmente à fórceps, não sem razão, na fase áurea da ditadura militar, período em que o general gaúcho Emílio Garrastazu Médici prestava seus serviços no posto de presidente do Brasil, nação recém batizada República Federativa do Brasil. Eleito indiretamente numa sessão conjunta do Congresso Nacional, reaberto para o pleito, o presidente Emílio Médici – que preferiu ser chamado assim para evitar velhas rimas infames com o incomum “Garrastazu” – havia sido o “candidato” indicado pelos “três patetas”. Essa alcunha carinhosa foi conferida pelo saudoso Ulysses Guimarães aos membros da junta militar que precisou governar o país de setembro à outubro de 1969 devido ao AVC (vulgo derrame cerebral) do hipertenso Marechal Artur da Costa e Silva, célebre presidente que detestava livros, mas não as revistas de palavras cruzadas da Ediouro: na cerimônia de sua posse, momentos antes de receber a faixa do seu antecessor Humberto de Alencar Castello Branco – ou Tamanco, para os mais chegados -, Costa e Silva pediu ao cerimonial que esperasse um pouco porque estava prestes a terminar uma cruzada complicada. Nasci portanto na época conhecida atualmente como Os Anos de Chumbo, pois o destemido presidente Médici ou Milito, como era conhecido na boca pequena militar, foi um violento defensor da chamada ordem sistêmica revolucionária, combatendo com rigor incansável aqueles que acreditava desejosos de subvertê-la, seja direta ou indiretamente. Para tal, dispôs convenientemente das prerrogativas que lhe assegurava o famigerado Ato Institucional Número 5, instituído por seu antecessor e concebido alguns anos antes por Júlio de Mesquita Filho, dono do diário paulistano O Estado de S. Paulo, com a balizada colaboração do jurista “uspiano” Vicente Ráo. Com esse expediente legal e outros de cunho, digamos, pouco ortodoxos, Milito deflagrou uma verdadeira guerra aos antigos subversores ainda não capturados pelas garras afiadas do regime militar e também rechaçou com vigor qualquer ato que atentasse, no julgamento dos oligofrênicos agentes do DOPS, contra a paz pública e a segurança nacional. Assim, enquanto minha santa mãezinha se desdobrava para limpar incansavelmente meus glúteos da inevitável sujeira provocada pela imaturidade esfincteriana típica de qualquer bebê, a polícia de Milito, não menos infatigável que mamãe e não menos despreparada que um esfíncter infantil, lançava mão dos meios contundentes que livremente dispunha para limpar as ruas dos asquerosos comunistas, que tanto ameaçavam a estabilidade institucional. Por outro lado, enquanto mamãe procurava, sem muito sucesso, me fazer repousar, a polícia de Milito era bem mais eficiente em colocar seus prisioneiros para dormir, muitos deles em caráter permanente. Sobre esses desafortunados que nunca mais acordaram, a notícia oficial, quando havia, qualificava-os como suicidas; aliás, “nunca dantes na história deste país”, a polícia teve uma habilidade tão grande para encarcerar meliantes vocacionados para o suicídio. Também era de caráter oficial que não havia tortura, que o SNI só grampeava gente suspeita, que Milito era o guardião da democracia, que o regime já estava buscando a abertura política, que o Brasil era o país que ia pra frente, que a Transamazônica promoveria a integração do Norte brasileiro e tantas outras propagandas enganosas, cujo objetivo final era mostrar que apesar do constante perigo vermelho, o país progredia a olhos vistos após a revolução (eles não gostavam do termo “golpe”). Entretanto, ocorreu que a rebeldia juvenil dos filhos da elite – a mesma elite que louvou aos céus a ascensão de Tamanco após a deposição do presidente-latifundiário-comunista e comedor de vedetes João Goulart – resolveu afrontar seus pais menos com sexo, drogas e rock and roll do que com ideias libertárias. Não se pode dizer que esses rebeldes, a maioria estudantes, fossem daqueles do tipo “sem causa”, como o Marlon Brando no filme, uma vez que hastearam a bandeira da liberdade irrestrita de expressão, contrapondo-se ao regime conservador e a tudo o que ele significava: o poder parental. Dotado da ignorância típica de qualquer pai severo e truculento, o governo aceitou a provocação de seus filhos desobedientes e dispôs energicamente de suas armas, aquelas mesmas que utilizava contra os tais vermelhos. A partir daí, a coisa mudou de figura, e a intelectualidade pequeno-burguesa das principais capitais do país começou a não gostar do regime que até então sustentara. Sentado no colo de minha mãe, devidamente protegido com fraldas, pude assistir, algumas vezes, em nossa pequena televisão, às aparições de um velho altivo e taciturno, cujo nome fiquei sabendo mais tarde, já no final de seu governo: Geisel. Foi ele, o Alemão, o General Ernesto Beckmann Geisel, sucessor de Milito, quem resolveu dar cabo do mostrengo que ele próprio e o “cerebral” Golbery do Couto e Silva ajudaram a criar, o tal regime revolucionário de 64, que finalmente pôde ser qualificado como ditadura. Aliás, foi após essa tal abertura que, em nossas reuniões de família, certas coisas puderam ser ditas mais tranquilamente, como aquela piadinha que meu tio não se cansava de contar. Ele perguntava: “Qual é menor chiqueiro do mundo?”. Nós, pré-adolescentes, já sabíamos de cor a resposta, mas sempre entrávamos na brincadeira. “É a farda!”, respondíamos. “Por quê?”, ele perguntava. Nós em uníssono retrucávamos: “Porque só cabe um porco!”; e todos caíamos numa sonora gargalhada subversiva.