Combray

combrayO paciente leitor deste blog deve ter percebido que seu autor não demonstra primor na faculdade da maturidade quando, em certos textos, ele revela seus desejos mais infactíveis. No campo da literatura, por exemplo, já foi citada, mais de uma vez, a sua pungente vontade de ler absolutamente tudo de todos os autores que admira. O blogueiro pensa contrabalançar essa tendência com um patético discurso racional, buscando demonstrar a si próprio a total impossibilidade de seus sonhos. Ultimamente, ele tem percebido que essas tentativas de auto convencimento são inócuas, uma vez que os desejos pueris sempre voltam e alguns deles, com a disposição típica de uma criança inquieta. Por conta disso e em nome da honestidade, fundamento daquilo que se conhece por paz interior, este escrevinhador de posts pretensiosos resolveu considerar sua inconteste imaturidade no campo literário como parte integrante do muito que lê e principalmente do pouco que escreve. Assim, neste contexto menos rigoroso, ele se atreveu a realizar um desses seus sonhos ingênuos: traduzir, da forma mais fiel possível ao original, sem perder a fluência do Português, as primeiras e inesquecíveis frases da obra “Em Busca do Tempo Perdido”, de Marcel Proust. Explico, desde já, que tal sonho é de fato ingênuo porque o pretenso tradutor não conhece patavina de Francês, língua materna de Proust e na qual esse romance, considerado o maior do século XX, foi escrito. Apresenta-se a seguir o original de Proust e ao final o atrevimento desse tradutor bisonho. Antes porém, para que o leitor julgue a qualidade de seu pequenino trabalho, ele cita outras versões já consagradas.

Longtemps, je me suis couché de bonne heure. Parfois, à peine ma bougie éteinte, mes yeux se fermaient si vite que je n’avais pas le temps de me dire: “Je m’endors.” Et, une demi-heure après, la pensée qu’il était temps de chercher le sommeil m’éveillait; je voulais poser le volume que je croyais avoir dans les mains et souffler ma lumière; je n’avais pas cessé en dormant de faire des réflexions sur ce que je venais de lire, mais ces réflexions avaient pris un tour un peu particulier; il me semblait que j’étais moi-même ce dont parlait l’ouvrage: une église, un quatuor, la rivalité de François Ier et de Charles-Quint. (“Du côté de chez Swann”, Marcel Proust)

Durante muito tempo, costumava deitar-me cedo. Às vezes, mal apagava a vela, meus olhos se fechavam tão depressa que eu nem tinha tempo de pensar: “Adormeço”. E, meia hora depois, despertava-me a ideia de que já era tempo de procurar dormir; queria largar o volume que imaginava ter ainda nas mãos e soprar a vela; durante o sono, não havia cessado de refletir sobre o que acabara de ler, mas essas reflexões tinham assumido uma feição um tanto particular; parecia-me que eu era o assunto de que tratava o livro: uma igreja, um quarteto, a rivalidade entre Francisco I e Carlos V. (“No Caminho de Swann”, Mario Quintana)

Durante muito tempo fui para a cama cedo. Por vezes, mal apagava a vela, os olhos fechavam-se-me tão depressa que não tinha tempo de pensar: “Vou adormecer.” E, meia hora depois, era acordado pela ideia de que era de tempo de conciliar o sono; queria poisar o volume que julgava ter nas mãos e soprar a chama de luz; dormira, e não parara de reflectir sobre o que acabara de ler, mas tais reflexões haviam tomado um aspecto um tanto especial; parecia-me que era de mim mesmo que a obra falava: uma igreja, um quarteto, a rivalidade entre Francisco I e Carlos V. (“O Lado de Swann”, Pedro Tamen)

Durante muito tempo, deitava-me cedo. Às vezes, mal apagada a vela, meus olhos se fechavam tão depressa que eu nem tinha tempo de pensar: “Vou dormir”. E, meia hora depois, a idéia de que já era tempo de conciliar o sono me despertava: queria deixar o livro que julgava ainda ter nas mãos e assoprar a vela; dormindo, não havia deixado de refletir sobre o que acabara de ler, porém tais reflexões haviam tomado um aspecto um tanto singular; parecia-me que era de mim mesmo que o livro falava: uma igreja, um quarteto, a rivalidade de Francisco I e Carlos V. (“No Caminho de Swann”, Fernando Py)

Durante muito tempo, eu ia para cama cedo. Por vezes, à vela quase apagada, meus olhos fechavam-se tão rapidamente que não tinha tempo de dizer a mim mesmo: “Adormeço”. E, meia hora depois, o pensamento de que já era tempo de buscar o sono me despertava; queria largar o volume que acreditava ter nas mãos e soprar a luz da vela; adormecido, eu não havia deixado de refletir sobre o que acabara de ler, mas tais reflexões tinham tomado um rumo um tanto peculiar; parecia-me que o livro falava sobre mim mesmo: uma igreja, um quarteto, a rivalidade entre Francisco I e Carlos V. (“Rumo à Casa de Swann”, Eu)

Seu Tupi

pontingFingerNa segunda metade da saudosa e desinibida década de setenta, morávamos nós numa cidade litorânea, período em que meu pai era empregado de uma enorme repartição pública, ligada ao governo local. Em um dado momento de sua carreira, convidaram-no para assumir um posto mais alto, cujo acréscimo pecuniário era obviamente menor que o acréscimo das responsabilidades. Aceito prontamente o convite, uma vez que a situação econômico-financeira da família não era das melhores, meu pai passou a se envolver com problemas maiores e mais importantes. Certa vez, a fim de resolver um deles, ele precisou sair de sua mesa e se deslocar até um outro setor longínquo da repartição. Ainda animado pela promoção – inconteste reconhecimento de seus esforços -, ele caminhava rapidamente por um corredor extenso para diligenciar a solução do tal problema, quando reconheceu ao longe um colega que vinha em sentido contrário. À medida que se aproximavam, meu pai ia se esforçando para tentar lembrar o nome do sujeito, quando finalmente, à poucos metros de se encontrarem, ele conseguiu: chamava-se Alceu Tupinambá Neto ou Seu Tupi, para os mais próximos. Embora não tivesse muito contato com Seu Tupi, dada a distância física e organogramática dos setores respectivos, meu pai resolveu chamar o colega por sua alcunha ao cumprimentá-lo efusivamente; algo que aparentemente não incomodou Seu Tupi. Entabularam então aquele tipo de colóquio cortês, obrigatório e superficial, que versa sobre temas amenos seguido de uma rápida despedida, pois Seu Tupi também estava apressado. Quando retomou seu caminho, meu pai, visivelmente preocupado, pensou consigo: “Espero nunca encontrar Seu Tupi fora do trabalho, porque se isso acontecer e os meninos estiverem comigo, o Renato vai aprontar das suas!”. Eram duas as razões fundamentais da aflição de meu pobre pai: uma de cunho estético e outra de caráter comportamental. A primeira relacionava-se ao fato indiscutível de que a Natureza privara Seu Tupi do mais remoto traço de beleza fisionômica e, por isso, da possibilidade muitas vezes conveniente de se passar despercebido: mirrado e corcunda, com as orelhas generosas sustentando pesados óculos de míope, sua figura remetia à uma caricatura circense. Devo dizer que, desde tenra idade, tenho uma curiosidade quase incontrolável pelos assuntos ditos reservados e foi ela que me fez ouvir não muito claramente, enquanto brincava, meu pai comentar sobre Seu Tupi algo do tipo: “Ele é mais feio do que bater em mãe”. A segunda razão diz respeito à índole nada retraída de um dos meus irmãos mais novos: o “Renato” supracitado. Segundo de uma prole considerada numerosa para os padrões atuais, Renato, por suas peripécias, sempre demandou de meus pais esforços disciplinares mais enérgicos do que dispendiam com o restante dos filhos. Por alguma razão, eu sempre o admirei por isso e considero, até hoje, uma de suas obras-primas a depilação do rabo de um cachorro, que costumava perambular por nossa rua, com a lâmina de barbear do pai; que a continuou utilizando depois, sem, é claro, ter sido informado do fato. Diante da dificuldade em educar criaturinhas dessa espécie, meu pai sempre conservava o hábito de levar as maiores, meu irmão e eu, para caminhar na calçada da praia. Adorávamos esses passeios dominicais porque nos sentíamos mais soltos e a liberdade, para dois traquinas como nós, de seis e oito anos à época, significava uma tranquilidade rara e revigorante para o pai. Numa dessas tardes, após caminharmos um certo tempo, ele nos ordenou que ficássemos mais próximos dele e, à princípio, não entendemos muito bem o motivo. Ao nos aproximarmos, ele olhou severamente para o meu irmão e disse: “Você vai se comportar, ouviu? Vai se comportar!”.  Espantados com aquela repreensão gratuita, notamos que o pai observava fixamente algo mais adiante quando também voltamos nosso olhar para onde estava o dele. Imerso no ar quente que subia da calçada, uma figura inusitada apareceu: com o peito desnudo e trajando um desconcertante calção de banho, Seu Tupi caminhava em nossa direção e nos deteve a atenção desde o momento em que o vimos. Num absoluto silêncio, nós dois acompanhamos sua aproximação e também os cumprimentos inevitáveis, desses que os adultos se vêm obrigados a travar por pura e completa formalidade. Iniciaram timidamente uma conversa, quando pouco tempo depois o pai sentiu que meu irmão lhe puxava as calças com insistência. Fingindo não perceber, o pai prosseguiu com sua fala exagerada no intuito de chamar para si toda a atenção do colega, mas sem muito sucesso. Seu Tupi, incomodado com a inquietação da criança, pediu educadamente ao seu interlocutor oportunidade para que ela se pronunciasse. Meu pai tentou, a todo custo, dissuadir Seu Tupi de tal concessão, mas o colega de trabalho insistiu com veemência. Nesse momento, vi então que Renato adquirira os mesmos trejeitos de alguém hipnotizado, tal era a feição de espanto que exibia. Ele então apontou o dedo indicador para Seu Tupi e anunciou nervosamente: “Nossa, papai! Como é que pode? Ele fala! Ele fala!”.