Vida-Obra

freudCoachLi em algum lugar que não é possível separar a vida de alguém de sua obra, uma vez que a obra, seja ela qual for, é sempre, de alguma forma, produto da vida; fato que não impede que uma seja admirada e a outra rejeitada: as partes desse todo indissociável são portanto discerníveis. Entre outros fatores, o nível de tal discernimento sofre influência da natureza da obra, sendo mais alto naqueles trabalhos mais técnicos. Num contexto mais humano, pode ocorrer que a obra, antes admirada, fique, de certo modo, “prejudicada” ao tomarmos conhecimento de certos pormenores da vida que nos causam repúdio. Perante o arcabouço moral que nos sustenta, pode acontecer também que, em não se conhecendo vida e obra, uma eventual informação que desabone a primeira provoque fortes resistências para se conhecer a segunda. Nessas duas situações, vida e obra tornam-se uma massa monolítica indiscernível. Ambas encaradas assim, um contínuo homogêneo vida-obra, pode ocorrer que se admire com menos intensidade as pinturas de Caravaggio por conta de suas reiteradas práticas delinquentes e, em particular, do assassinato que cometeu; também é possível que resulte atenuada a sensibilidade nos escritos de Dostoiévski ao se saber que o autor russo, por ser viciado em jogo, viveu constantemente endividado, não lhe sendo possível sustentar dignamente a família até sua morte; pode-se afirmar ainda que as letras rebeldes das músicas de Caetano Veloso e sua patota estejam eternamente maculadas em virtude de que agora é “‘Proibido Proibir’, desde que não se trate de uma biografia não autorizada”; não seria um absurdo passar a ler a poesia de Drummond com um olhar menos encantado ao se saber que o escritor, chefe de gabinete do ministro da educação na ditadura Vargas, era preconceituoso em relação ao romance regionalista nordestino; pode ocorrer também que se repudie os textos humanísticos de Rousseau ao se tomar conhecimento de que o filósofo suíço abandonou num orfanato os cinco filhos que teve com sua amante. Até pouco tempo atrás, quando me acorriam à mente esses e diversos outros exemplos, certas palavras emergiam e ficavam impressas no fundo desta minha mente perturbada: moralismo, inveja, preconceito, hipocrisia. Junto com elas, surgia também uma espécie de revolta interior, de indignação, momento em que perguntas também pululavam: será que o pensamento crítico sempre precisa discernir vida e obra? Em prol de autonomia, é necessário aceitar a obra ainda que a conduta de vida do autor desagrade? Para citar um exemplo e ser menos abstrato, esse  conflito sempre me ocorre quando tento ler alguns dos numerosos textos do psicanalista italiano que atende pelo nome de Contardo Calligaris, particularmente aqueles sobre “vida a dois”. Esse afamado colunista do grupo Folha, para o qual sua conhecida reincidência em enlaces matrimoniais é uma virtude, não me soa crível quando fala ou escreve sobre esse assunto. A mim me parece que, atrás da fachada de satisfação que alega ter adquirido com seus diversos casamentos, há nesse pupilo de Lacan dificuldades em manter, de forma duradoura, um relacionamento conjugal: dos 18 ao 60 anos de idade, Calligaris desposou sete mulheres; feito que resulta uma média de 6 anos de vida útil por casamento. Se considerarmos esse número um padrão de comportamento, resta à sua atual relação pouco mais de 3 anos de sobrevida. Por falar nisso, dos diversos depoimentos desse psicanalista da burguesia paulistana, que não se furta em dar entrevistas sobre sua vida pessoal e cujo valor da sessão ultrapassa os US$400,00, pode-se concluir que o início do relacionamento amoroso com a atual esposa – atriz global e ex-mulher de galã – se deu quando ambos ainda eram casados e ela, na condição de analisanda. Esse tipo de interação que alguns analistas estabelecem, de ética altamente questionável, não é raridade na história da Psicanálise: o renomado analista indiano Masud Khan, especialista na teoria das perversões, costumava comentar abertamente, para quem quisesse ouvir, sobre as relações sexuais que mantinha com suas analisandas. Não estou afirmando que,  no caso de sua atual mulher, Calligaris tenha seguido à risca os passos do indiscreto colega indiano, muito embora, aos meus olhos muitas vezes severos, o analista que estabelece uma relação dessa natureza com o analisando, seja por qual forma ela ocorrer, coloca-se na mesma posição de um adulto que abusa de um menor, dada a diferença das capacidades psicológicas; diferença essa que é condição fundamental num trabalho verdadeiramente psicanalítico. Enfim, mesmo diante dessas peculiaridades que desabonam completamente, na minha particular avaliação, a vida-obra dessa nobre celebridade ítalo-brasileira, devo admitir que ainda não consegui me livrar do pensamento fixo naquelas quatro palavras que citei. Agora, ao final, refletindo um pouco mais sobre esse confuso texto que escrevi, pode ser que no afã de me tornar autêntico – esforço iniciado no divã de um excelente psicanalista ético – eu exagere um pouco, embrenhando-me demasiadamente em questões teóricas; atitude que me faz questionar, vez por outra e em vão, aquilo que há de mais simples: o gostar e o não gostar.