O Porvir

faltam4diasSegundo a tabela de mortalidade do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgada em 2012, o homem brasileiro com a idade de quarenta anos em 2010 viverá, em média, até os 75,1 anos e aquele com os mesmos quarenta em 2011 viverá até os 75,3. Fazendo-se um extrapolação linear desse crescimento, uma vez que o IBGE ainda não divulgou os dados do ano passado, o homem de quarenta em 2012 viverá 75,5 anos. Atualmente, isso significa que um ser humano do sexo masculino, nascido no Brasil em 1972, desfrutando, na sua plenitude, da complicada idade do lobo, tem pela frente 45,6% de sua vida. Portanto, esses primatas, dotados de sofisticado raciocínio lógico e de um polegar opositor, já usufruíram mais da metade de sua história no planeta Terra. Ao subconjunto deles, composto por amantes da Literatura, do qual faço parte integrante, restam-lhe menos de 34,5 anos de leitura, uma vez que nem mesmo o leitor mais desocupado consegue ler ininterruptamente. Consideremos que esses tais aficionados lerão, em média, três horas por dia durante trinta anos. Há, portanto, uma janela de tempo de 4 anos para leitura ininterrupta. Em um romance, há em média 120.000 palavras. Assim, esses ávidos leitores, hoje quarentões, lendo uma média de 170 palavras por minuto, consumirão, até se tornarem setuagenários, por volta de 3.000 romances. Caso haja, dentre os indivíduos citados, alguns deles cujas quantidades de títulos ainda por ler em suas bibliotecas particulares já tenham ultrapassado o correspondente à esse número, eles precisarão começar a fazer escolhas cruéis, ou então se fiar na teoria de vidas futuras que reencarnam: interessante perspectiva que ensejaria a prática da leitura por um mesmo espírito – é apenas através dele que se absorve Literatura – até o fim dos tempos. Embora altamente impreciso, o resultado de toda essa aritmética tranquilizou-me sobremaneira, pois, sendo um cético contumaz à teimosa reincidência da alma à vida terrestre, constatei satisfeito que, nas condições da previsão do IBGE, terei tempo de sobra para apreciar minha humilde biblioteca no seu volume atual e também continuar adquirindo compulsivamente mais livros, com a possibilidade real de conseguir lê-los. Alguns diriam que essa minha tranquilidade diante de tão débeis suposições é descabida, sendo fruto de arrogância, de prepotência, uma vez que o futuro e a onipotência à Deus pertencem. Os religiosos mais extremistas diriam que é pecado venial porque tal sensação de segurança, embora inconsciente, é como querer se igualar ao Todo-Poderoso; cogitariam a hipótese de que eu, imerso nessa autoconfiança profana, poderia ser acometido por uma síncope letal a qualquer momento, até mesmo durante minhas leituras. Sou obrigado a concordar, em certa medida, com a ideia do pedantismo; talvez seja isto mesmo: lá no fundo de minha mente perturbada, agrada-me a ilusão de ser o dono do meu futuro. À superfície, tenho plena consciência de que o porvir é praticamente incontrolável; digo “praticamente” porque há algumas certezas: na hipótese da tal síncope durante a leitura, por exemplo, é absolutamente certo que eu não estaria segurando um livro do “blue eyes” Chico Buarque de Hollanda – “escritor” que precisa estar em Paris para se inspirar -, nem do imortal Paulo Coelho – considerado persona non grata à feira literária de Frankfurt 2013 – e de outros congêneres.

Alain Geoffroy

geoffroyDesejoso de compartilhar minha  experiência ao degustar o vinho de nome Petit Chablis Alain Geoffroy, embora sendo um ignorante absoluto em matéria de enologia, peço desculpas antecipadas aos entendidos e me permito o atrevimento de descrevê-lo assim:
Cor: dourado bem, bem clarinho;
Aroma: daqueles que provocam imagens aprazíveis;
Sabor: nos convence a crer que naquele instante a vida é bela;
Tipo: Branco;
Safra: 2007;
Região: Chablis;
Origem: França (só podia ser!);
Nota: 4/5

Sete

sevenHá muito, muito tempo, numa de minhas frequentes visitas solitárias ao cinema, tive o prazer de assistir ao filme Se7en – Os Sete Crimes Capitais (Se7en), do diretor David Fincher. Estrelada por Morgan Freeman e Brad Pitt nos papéis de investigadores de polícia, a película (a mídia ainda era essa em 1995) conta a história de um serial killer – interpretado pelo ator Kevin Spacey, em sua melhor atuação até o momento – cujo modus operandi se inspira nos chamados sete pecados capitais: Gula, Avareza, Luxúria, Ira, Inveja, Preguiça e Vaidade. A dupla de investigadores é então encarregada de descobrir o paradeiro do assassino e capturá-lo. Assim descrito, com a prudência de não revelá-lo aos que ainda não assistiram, o filme parece banal, soando como um história policial previsível, como mais um produto padronizado da indústria cinematográfica norte-americana. Confesso que em relação à sétima arte, sou alguém de difícil satisfação e convencimento: não é muito comum que eu considere uma história filmada tão nobre quanto uma história escrita. Entretanto, no caso de Se7en, minhas resistências caem por terra e me acorre a necessidade de ser justo, de ser honesto, de afirmar categoricamente que esse filme é um autêntico trabalho artístico, uma obra-prima. Em sua trilha sonora, há uma famosa peça do indescritível compositor Johann Sebastian Bach, e são citados no transcorrer da história os célebres autores Dante Alighieri e John Milton. Não posso dizer que Se7en tenha influenciado minha admiração atual por Bach e Dante, mas é curioso assistir ao filme hoje e perceber que eu já havia tomado conhecimento dessas duas personalidades, as quais, anos mais tarde, seriam parte integrante de minha estante pretensiosa: por algum motivo, a modesta coleção de Bach e A Divina Comédia estão dispostas bem próximas. Alguns dias atrás, recebi o livro John Milton: The Complete English Poems – coleção de poemas do poeta inglês John Milton, lançado pela cuidadosa editora inglesa Everyman’s Library – e o coloquei perto dos demais. Porém, antes disso, como acontece com qualquer livro recém-chegado aos meus domínios, interrompo qualquer outra ocupação a fim de folheá-lo. Chamou-me a atenção um pequeno grande poema dedicado à Shakespeare. Ainda com as fortes lembranças do filme e empolgado com minhas aventuras no campo da tradução, resolvi então me atrever a verter para o Português os versos rimados desse texto, intitulado On Shakespeare, apresentado no menu Trabalhos, Tradução, submenu John Milton. Na tradução possível das rimas, procurei manter, apesar de minhas pobres experiências poéticas, a nobreza e a altivez do texto original.