Uníssono

children-with-question-markNuma rua que ladeava o cemitério da cidade, passavam de carro o pai com o casal de filhos, quando o menino perguntou:
– Papai, quando a gente morre e enterram, o que acontece com o corpo?
– Uns bichos que vivem no fundo da terra comem a carne e os ossos que sobram, depois de muito tempo, viram pó.
– Todo dia alguém morre, papai? – perguntou a menina assustada.
– A cada minuto muitas e muitas pessoas morrem, minha filha.
– Mas também muitas pessoas nascem. Não é, papai? – perguntou ansiosamente o menino a fim de amenizar a crueza da conversa.
– Correto, meu filho. Isso também é verdade. Sabia que nascem mais pessoas do que morrem?
– Sério? – perguntou a menina.
– Sim.
– Ufa!! – proferiu o menino aliviado. Depois de alguns segundos, ele retomou com nova pergunta:
– E de onde viemos?
– Dos macacos há muito…
– Isso a gente já sabe! – interpelou a menina – Ele tá perguntando como que a gente foi criado, como que a gente se formou.
– Isso! – confirmou o menino – Tô perguntando como é que a gente nasce.
– Vocês nasceram da mamãe! – tentou escapulir o pai.
– Não, papai!!! – disseram os dois em uníssono.
– Você não entende não, seu bobo? – ralhou o menino – A gente quer saber como é que a gente foi criado, como é que a mamãe ficou grávida. Captou?
– Captei. – disse resignadamente o pai – Foi assim: o papai colocou uma sementinha dele para se juntar com uma sementinha da mamãe, e a partir daí cada um de vocês se formaram.
– Papai, e de onde vocês tiraram essas sementinhas? Em que lugar elas se encontraram? – perguntou, intrigado, o menino.
– Olha, já estamos chegando em casa! Depois a gente continua essa conversa. – disse o pai visivelmente incomodado.
– Papai, por que você não quer mais conversar? Por acaso essas sementinhas tem alguma coisa a ver com a vagina? – perguntou a menina.
– Tem.
– Eu sabia! – gritou ela animadamente.
– Papai, também tem a ver com o pinto? – perguntou o menino, enciumado.
– Sim, gente, tem a ver com o pinto e com a vagina. – respondeu nervosamente o pai em tom conclusivo. Incansáveis e novamente em uníssono, começaram:
– Papai, e como foi que você colocou…
– Assunto encerrado!!!

Polifonia

guillaumeO clichê “nunca é tarde para se aprender” é bonitinho, mas não me conforta em relação à música clássica.  Na juventude, eu bem poderia ter reservado parte das minhas intermináveis horas musicais, integralmente dedicadas aos Beatles, para Bach, Chopin, Vivaldi e outros proeminentes do gênero denominado clássico. Não foi à toa que naquela época longínqua, os colegas de escola alcunhavam-me “beatle-lado”. O arrependimento não têm origem na profunda admiração que ainda conservo pelo inesquecível grupo britânico de rock, mas pela exclusividade absoluta que lhe dediquei. Devo dizer, entretanto, que minha lamentação não é daquelas que angustiam, que sufocam; ela me ocorre, vez por outra, até com certa brandura e curiosamente traz consigo uma espécie de respeito próprio. À esse sereno queixume sobrevém a auto tolerância. Ela se dá, no caso de minhas opções musicais, imprimindo palavras luminosas no escuro de minha mente irrequieta:  a mais frequentes delas é “maturidade”. As impressões que surgem dessa palavra  não correspondem muito bem à conotação usual que se dá à ela, pois não me acometem sentimentos virtuosos, de alguém que evoluiu, que ascendeu. A percepção mais precisa é de expansão, de ampliação; quando se passa a sentir, enxergar, assimilar, tratar, considerar o que antes estava desfocado, obscuro, enevoado, indiscernível, incompreensível, insuportável. Aos 16 anos, talvez eu estivesse preparado apenas para a música dos Beatles, para àquelas canções que, tais quais as crianças, são simples, diretas, vibrantes, honestas. À época, em meio a toda essa euforia ruidosa, seria muito difícil, quase impossível, apreciar algo como a Messe de Nostre Dame do poeta e compositor francês Guillaume de Machaut (1300-1377), precursor – segundo afirmam alguns estudiosos mais animadinhos – do canto polifônico e, por conseguinte, da polifonia propriamente dita. O álbum, mostrado a seguir, traz a performance do grupo vocal “Diabolus in Musica” para essa missa, e ela é simplesmente divina. Ao ouvi-la, arrepiam-me certas partes do corpo que eu não sabia serem passíveis de tal reação. Mesmo assim, avaliei o álbum: atrevimento que também é resultado dessa tal maturidade.nostredame