Waterloo

napoleaoPor algum motivo que desconheço, o tema sobre as fontes a partir das quais as grandes mentes da humanidade se inspiraram para construir seus trabalhos me fascina. Tenho enormes dificuldades em considerar qualquer criação um processo inteiramente original, inteiramente novo, fruto do inédito, daquilo que nunca fora pensado ou, em palavras mais poéticas, como algo que singrou mares nunca dantes navegados. Esse tema já foi tratado aqui no Extrato e porque é reincidente nesta minha mente assolada por ideias fixas, não me acorrem escrúpulos para repeti-lo num novo post. Então, vou falar aqui especificamente de certos questionamentos que surgiram numa de minhas leituras incansáveis. O célebre imperador francês Napoleão Bonaparte foi tomado como personagem não ficcional em dois dos mais influentes romances épicos da história da literatura ocidental: Os Miseráveis, do francês Victor-Marie Hugo, e Guerra e Paz, do russo Liev Nikoláievich Tolstói. Iniciado por volta de 1840, o primeiro foi publicado em 1862 enquanto a versão final do segundo em 1869, tendo sido iniciado em 1866. Estudiosos afirmam que Tolstói, tão fluente na língua francesa quanto na russa, inspirou-se, inclusive definindo o título de sua obra, no livro homônimo La Guerre et La Paix (Guerra e Paz) do filósofo anarquista francês Pierre-Jospeh Proudhon, publicado em 1861. Lendo avidamente o espetacular livro de Victor Hugo, no ponto em que o autor arremata sua magistral descrição da Batalha de Waterloo – no capítulo XVIII, livro I, volume II – deparei-me com o parágrafo a seguir.

Enquanto Napoleão agonizava em Longwood, os sessenta mil homens no campo de Waterloo se desintegravam tranquilamente, e um pouco de sua paz se expandiu pelo mundo. O Congresso de Viena fez os tratados de 1815, e a Europa chamou a isso de Restauração.
Eis o que é Waterloo.
Mas que importa ao infinito toda essa borrasca, toda essa nuvem, essa guerra e essa paz?

Extraído de Os Miseráveis, pp. 511-512, CosacNaify, ed. bolso, 2012
Victor Hugo

Nessa citação, encontra-se novamente os termos díspares “guerra” e “paz”. Perguntas começaram a pulular em minha cabeça quando recordei a cronologia dos fatos: por volta de 1840, Victor Hugo começa a escrever Os Miseráveis; em 1861, Proudhon lança seu Guerra e Paz; em 1862, Victor Hugo lança sua obra; em 1866, Tolstói começa a última versão do seu Guerra e Paz, publicando-o em 1869. Eis as perguntas: Será mesmo que Tolstói, à época um aristocrata rural de 34 anos, consideraria como principal fonte inspiradora o trabalho de um anarquista, de alguém contrário à propriedade privada, para o qual a guerra é algo divino? Não seria mais plausível crer que Tolstói leu Os Miseráveis e se encantou, assim como eu, com a descrição da Batalha de Waterloo? Seria absurdo afirmar que, a partir dessa admiração, tenha ocorrido ao autor russo a ideia de escrever, sob seu enfoque particular, as peripécias napoleônicas em sua pátria? Seria possível dizer que o exilado Victor Hugo, apenas um ano antes do lançamento de seu livro, tenha lido Proudhon e, por causa dele, tenha modificado o certamente já finalizado capítulo XVIII, livro I, volume II a fim de incluir “guerra” e “paz”? Racionalmente, devo dizer que qualquer resposta que se dê para as perguntas levantadas seria cogitação, imaginação, delírio. Entretanto, costumo considerar, em certas circunstâncias, o mundo ficcional tão ou mais importante que o real. Assim, como o Extrato não tem compromisso algum com a verdade, confortarei esses meus angustiantes questionamentos internos criando os seguintes fatos: “Victor Hugo não leu a Guerra e Paz do filósofo Proudhon. Na verdade, ele o detestava. Tolstói começou a ler, mas achou muito chato e não terminou. No outono de 1863, alguém lhe presenteou com uma coleção de cinco volumes, escritos em francês, intitulada Os Miseráveis. Ao terminar de ler o primeiro deles, resolveu modificar um pouco a ideia daquele romance que começara a rascunhar: ele iria ampliá-lo e incluir Napoleão”.

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