Criador

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Das pessoas mais próximas a mim, há algumas que se auto intitulam “ateus” e suspeito que ainda devam existir outras que dificilmente se disporão a fazê-lo, protegendo-se num discreto silêncio. Admiro profundamente a coragem das primeiras, pois ao falarem de sua descrença em Deus, envoltas numa evidente consternação, num visível embaraço, revelam – na maioria das vezes, inadvertidamente – o mais recôndito, o mais íntimo de si mesmas. Após muito chafurdar em minhas leituras psicanalíticas, descobri que esse tal embaraço do descrente não resulta apenas do receio de se colocar num grupo minoritário, sob o risco real de sofrer alguma espécie de preconceito, de julgamento, de repúdio pela maioria religiosa. Tenho para mim que o homem é, por natureza, um ser adorador: quando pequenino, adora a mãe; ao tomar plena consciência de sua individualidade física, passa a adorar a si próprio e assim, ao longo de sua vida, cumula-se de ídolos, desses objetos materiais ou imateriais que incessantemente venera. Nesse contexto, porque rejeita a concepção de um ídolo-criador, onisciente e onipresente, ou seja, de Deus, não se pode afirmar que o ateu não seja um idólatra: tal qual o crente, ele também elege para si um inumerável conjunto de ídolos particulares. Se ateus e crentes são igualmente adoradores natos, por que discordam em relação à existência de Deus? Acredito que a ideia desse ídolo-criador está intimamente relacionada com a figura materna, com aquela que cria e nutre. A crença em Deus é um desdobramento do processo de relacionamento com a mãe, do amor e ódio que se tem por ela: o ser humano que termina se afeiçoando pelo poder materno, crê na criação e, em determinado momento, transfere tal afeição para o poder de um Criador, tornando-se um crente. O ateu, por sua vez, decidiu se rebelar contra esse poder num dado período da vida e assim permaneceu, de tal forma que, para ele, acreditar em Deus e venerá-lo significa subjugar-se eternamente à mãe. Acredito ser mais natural que o homem estime o poder materno ao invés de repudiá-lo, porque assim estrutura todo um aparato afetivo que muito lhe ajudará no instinto inato de criar, cuidar e proteger sua prole. Portanto, a consternação de quem se denomina ateu é a consternação daquele que, mesmo de forma difusa e desintencional, revela ao mundo os problemas profundos que carrega em relação à sua figura materna. Essas minhas elucubrações nada originais tiveram origem num texto do psicanalista selvagem Georg Groddeck, um de meus ídolos. Reproduzo a seguir um pequeno trecho.

“A mãe, o amor à mãe e o ódio à mãe, tudo dá aos seres humanos, inclusive o Deus… Quem se denomina ateu ou convence os demais a chamarem-no assim, só está tentando evitar um nome, porque gostaria de negar sua infância e porque nele se enfrentam diretamente o ódio e o amor à mãe. Por querer fugir a autoridade do complexo materno, encobre esse fragmento de divindade com trapos e palavras, de modo a acreditar que não mais o vê. Tornou-se portanto parcialmente cego… Com a ajuda da psicanálise, é possível provar que quem nega friamente ou passionalmente a divindade, trava uma luta pessoal contra a mãe, algo que nada tem a ver com a sede de verdade…”

Extraído do artigo Sobre o Isso em “Estudos Psicanalíticos Sobre Psicossomática” (2011), p. 46, Editora Perspectiva,
Georg Walther  Groddeck

4 comentários sobre “Criador

    • Extrato do Miolo 2 de julho de 2013 / 11:32

      Dr, agradeço imensamente por discordar de meu texto porque, assim, pode-se dar prosseguimento à conversa. Eis a minha réplica: acredito que toda e qualquer teoria, da mais sofisticada a mais singela, como essa do Dr Groddeck, são generalistas. Sem modelos genéricos, a ciência é capenga. As Leis de Newton – uma baita de uma generalização – não são válidas para certos fenômenos eletromagnéticos. Assim, o texto se refere a um modelo de ateu, àquele que acredita que a rebeldia em relação ao poder materno é o fundamento da liberdade. Estou ciente de que qualquer teoria só é boa quando respaldada na prática. Os poucos exemplos dos ateus que conheço validam tal teoria – sem contar a experiência do médico alemão -, fatos que não garantem que ela seja válida para qualquer caso. Gostaria de conhecer e analisar as exceções.

  1. Rodrigo Dias 2 de julho de 2013 / 10:08

    Deus, portanto, passa a ser uma invenção humana. Ele nasce da necessidade mundana de se sentir protegido, uma vez que, depois de se tornar adulto, o homem aprende que seus pais não servem pra muita coisa além de um bom conselho. Assim, criar essa figura mágica, que tudo sabe e tudo vê, conforta nossa existência deixando as coisas mais suportáveis. Não tenho nada contra essa ideia, aliás. Mas não serve pra mim.
    Meu problema é com os que se aproveitam dessa subserviência natural, e deturpam a ideia do Deus protetor para o Deus carrasco. Eles se autointitulam mensageiros da palavra e manobram seus rebanhos unicamente para exercerem seus “poderes”. E encaixe aí qualquer religião criada pelo homem.

    • Extrato do Miolo 2 de julho de 2013 / 14:43

      Rodrigo, o “portanto” da primeira frase de seu comentário está equivocado. Não é possível depreender, a partir de meu texto, que Deus exista ou não exista porque o enfoque é no ser humano, no ateu e não em Deus. Da mesma forma, o texto também não trata da importância dos pais na vida do homem adulto, dessas duas figuras que nos influenciam, gostemos ou não, até o fim da vida e que, na minha modesta opinião, são muito mais do que meros conselheiros, em particular a mãe. Também não há intenção alguma em converter ou doutrinar os que não acreditam em Deus. Como eu disse, o processo que culmina na crença em Deus é resultado da “aceitação afetiva” do poder materno. O ateu ao qual me refiro é um iludido, um rebelde sem causa, alguém que acredita ser autônomo, mas ainda está umbilicalmente ligado à mãe porque não conseguiu resolver seus enormes conflitos internos em relação à ela. Minha argumentação teria caráter evangelizador se afirmasse que o ateu precisa acreditar em Deus para ter tais questões resolvidas, mas também tal conclusão não pode ser tirada. Em relação às religiões, concordo totalmente com você. Elas há muito deixaram de ser um meio de estimular a inata religiosidade (adoração a Deus, deuses ou outras divindades) do ser humano para então reprimi-lo, ditando regras comportamentais intrusivas.

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