Patente

capitao– Estou no carro e acabei da sair de uma blitz. – disse ela ao telefone celular.
– Foi parada? – perguntou ele.
– Acintosamente.
– Viram algum problema?
– Não, mas algo inusitado ocorreu.
– O que houve?
– Impressionou-me deveras a vigorosa figura do policial.
– Eu desconhecia essa tua fantasia.
– Também eu.
– O que a atraiu especificamente?
– Altura e músculos.
– Eis uma composição que me é inalcançável.
– Sei disso. Ainda prefiro tipos mais cerebrais.
– Sorte a minha!
– A tal imagem, entretanto, atiçou-me fisicamente.
– Posso eu ajudá-la de alguma forma?
– Hoje à noite, empreenderemos uma ação policial.
– Com qual patente devo me paramentar? De Capitão?
– Não, com a patente de Cabo.
– Por que tão baixa?
– Quem se vestirá de capitã serei eu.

Pecinha

Vez por outra, o nosso aprendiz medíocre é acometido por arroubos de um orgulho que, no seu caso particular, é no mínimo injustificável:  ele se atreve a não admitir que outros ouvidos escutem sua “música” quando tocada por seu software musical. Esquecendo-se da mediocridade do que produz, pensa ele consigo que a máquina não pode ser um intérprete verdadeiro, mas um mero autômato, sem a emotividade de um ser humano. Entretanto, ele não contava com a curiosidade de um querido amigo numa conversa que tiveram, na qual, entre outras coisas, surgiram os tais Estudos Modestos. Nosso aprendiz saiu incomodado desse colóquio, uma vez que o amigo precisaria esperar, injustamente, que ele enfrentasse toda a sua limitação de intérprete para então, após um longo período, publicar algo digno de ser ouvido. Ficou ele então neste conflito entre o orgulho, fruto do egoísmo, e a humildade, fundamento da sincera amizade. Como sempre acontece com o aprendiz, foi necessária uma noite de sono intranquilo para que se encontrasse uma solução de consenso, uma vez que nunca há vencedores nessas suas disputas internas. Assim, sem prejuízo do seu trabalho de interpretação, que continua, ele resolve publicar em seu blog despudorado, neste post, a versão robotizada do Estudo Modesto II. Como deve muito a esse amigo do coração e da alma, o aprendiz lhe presenteia com essa pecinha, lembrando que o que esse inesquecível companheiro mereceria mesmo é algo do porte de uma Sonata de Beethoven.

Estudo Modesto II

Piano FanhosoUtilizando a ardilosa estratégia já mencionada aqui no Extrato, nosso aprendiz medíocre, um iludido congênito, resolve novamente bancar o compositor ao distribuir notas em uma pauta. Desta vez, valendo-se de sua débil criatividade musical, adensa um pouco mais a partitura, inserindo também maiores mudanças e variações. Ao terminar e com a ajuda de seu imprescindível software musical, ele ouve a “música” e gosta do resultado; percebe, entretanto, que não teve piedade de si mesmo, pois o tal Estudo Modesto II lhe demandará esforço hercúleo para ser interpretado ao piano. Assim, ele decide publicar a “obra” nos seus Estudos Modestos de Piano em duas etapas: a partitura, agora, e a interpretação, num futuro absolutamente desconhecido.

Fecunda Autonomia

livroTenho certos preconceitos em relação a relatos de vida, principalmente se narrados em primeira pessoa. Mesmo quando essas histórias são bem contadas, julgo-as quase todas enfadonhas, insossas. Como sou um esquisito por natureza, resolvi exercitar um pequeno relato de vida, colocando-me no pólo de quem escreve. Desse esforço, saiu “Fecunda Autonomia”, texto que acresci aos meus Contos Ingênuos.