O Milagre

Por conta de alguns posts na categoria Fotografia, pode-se notar que o Extrato andou visitando alguns sítios portenhos. Em tempos de Papa Francisco, tornou-se menos constrangedor revelar uma econômica viagem turística a essa  presunçosa capital sul-americana, onde os sinais trágicos do terceiro mundo são, como os daqui, evidentes. Se houvesse oportunidade, confessaria ao humilde Papa – Cardeal à época e eterno benfeitor dos pobres – que eu sempre nutri uma certa aversão aos argentinos: nada que descambasse para a discriminação raivosa, mas para algo que foi sendo paulatinamente construído a partir de rivalidades futebolísticas pouco amistosas de parte a parte. Estou certo de que a penitência que Vossa Eminência me daria seria rezar uma dezena de Pais-Nossos e fazer algum tipo de caridade, já que a “fé sem obras é morta” (Ti 2:26). Como não tive essa chance, coube à providência divina operar o milagre de transformar aquela imagem negativa, tão arraigada pelas (poucas) vitórias argentinas sobre o meu Flamengo, em algo profícuo. E assim aconteceu. Não foi a delícia incomparável do doce de leite argentino a única causa de tal transformação, mas também um bate-papo casual com um taxista hermano. Eu imaginava que o colóquio fosse caminhar para a inquestionável beleza das brasileiras e suas bundas maravilhosas, mas ele acabou discursando, num enrolado portunhol, sobre o Tango autêntico, de raiz, bastante diferente daquele tango hiperproduzido que se apresenta aos turistas. Lá pelas tantas, não sei com qual intenção, ele me disse: “Quando vou ao Rio, se me levam num bar onde está tocando qualquer tipo de música brasileira diferente de Bossa-Nova, eu não fico.” Naquele momento, lembrei-me de um disco (vulgo CD), presente de aniversário, há muito desprezado em algum canto das minhas gavetas e pouquíssimas vezes tocado. Como os argentinos, a Bossa-Nova também me era desagradável; até aquele incômodo pronunciamento categórico do taxista. Já em casa, procurei envergonhado pelo disco e, ao ouvi-lo, desejei ardentemente agradecer àquele argentino por me fazer apreciar uma criação brasileira que, devido a pensamentos preconceituosos, eu fizera questão de ignorar. A excelente obra musical à qual me refiro, apresento a seguir, com minhas insolentes avaliações.garotaIpanema

2 comentários sobre “O Milagre

  1. André Luiz Vianna 2 de maio de 2013 / 08:18

    Pois é, podemos aprender sempre, até com os argentinos… Ótimo texto, Roberto!

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