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Arquivo de

Patrícia Pillar

O Milagre

Por conta de alguns posts na categoria Fotografia, pode-se notar que o Extrato andou visitando alguns sítios portenhos. Em tempos de Papa Francisco, tornou-se menos constrangedor revelar uma econômica viagem turística a essa  presunçosa capital sul-americana, onde os sinais trágicos do terceiro mundo são, como os daqui, evidentes. Se houvesse oportunidade, confessaria ao humilde Papa – Cardeal à época e eterno benfeitor dos pobres – que eu sempre nutri uma certa aversão aos argentinos: nada que descambasse para a discriminação raivosa, mas para algo que foi sendo paulatinamente construído a partir de rivalidades futebolísticas pouco amistosas de parte a parte. Estou certo de que a penitência que Vossa Eminência me daria seria rezar uma dezena de Pais-Nossos e fazer algum tipo de caridade, já que a “fé sem obras é morta” (Ti 2:26). Como não tive essa chance, coube à providência divina operar o milagre de transformar aquela imagem negativa, tão arraigada pelas (poucas) vitórias argentinas sobre o meu Flamengo, em algo profícuo. E assim aconteceu. Não foi a delícia incomparável do doce de leite argentino a única causa de tal transformação, mas também um bate-papo casual com um taxista hermano. Eu imaginava que o colóquio fosse caminhar para a inquestionável beleza das brasileiras e suas bundas maravilhosas, mas ele acabou discursando, num enrolado portunhol, sobre o Tango autêntico, de raiz, bastante diferente daquele tango hiperproduzido que se apresenta aos turistas. Lá pelas tantas, não sei com qual intenção, ele me disse: “Quando vou ao Rio, se me levam num bar onde está tocando qualquer tipo de música brasileira diferente de Bossa-Nova, eu não fico.” Naquele momento, lembrei-me de um disco (vulgo CD), presente de aniversário, há muito desprezado em algum canto das minhas gavetas e pouquíssimas vezes tocado. Como os argentinos, a Bossa-Nova também me era desagradável; até aquele incômodo pronunciamento categórico do taxista. Já em casa, procurei envergonhado pelo disco e, ao ouvi-lo, desejei ardentemente agradecer àquele argentino por me fazer apreciar uma criação brasileira que, devido a pensamentos preconceituosos, eu fizera questão de ignorar. A excelente obra musical à qual me refiro, apresento a seguir, com minhas insolentes avaliações.garotaIpanema

Salmo Quarenta

livroDe vez em quando, ocorre-me tentar imprimir uma certa profundidade rebuscada nos meus escritos. O fim último e velado desse exibicionismo sóbrio é que o leitor perceba no texto os sinais do meu esforço e, assim, me dê algum crédito. Foi exatamente essa a intenção do conto “Salmo Quarenta”, adicionado aos meus Contos Ingênuos.

MET


Local: Metropolitan Museum of Art (New York)
Equipamento: Nikon D700 com objetiva Nikkor 24-120mm
Exposição: abertura f/10, velocidade 1/13s e ISO800
Pós processamento: Apple Aperture 3

Halle Berry

Iniciação

nine– Ainda se lembra de sua primeira experiência? – perguntou ela.
– Sexual? – perguntou ele.
– Pelo que acabamos de fazer, não me ocorreria outro tema.
– Eu tinha dezoito anos.
– Tão tarde assim?
– Pois é… Perda efetiva de virgindade, somente nessa época.
– Como assim?
– Fui iniciado na matéria aos nove.
– Já posso imaginar quem foi a professora.
– Sério?
– Seria uma prima mais velha?
– Exato! Como soube?
– Aos onze, tive priminhos de nove.

Victoria


Local: Isla Victoria (Neuquén)
Equipamento: Nikon D700 com objetiva Nikkor 24-120mm
Exposição: abertura f/5.6, velocidade 1/250s e ISO200
Pós processamento: Apple Aperture 3

Estudo de Elementos Finitos v0.85

1/4 de Placa com FuroNas minhas aventuras matemáticas, há uns raros momentos ao longo dos quais meus níveis de desgaste e impaciência ficam relativamente baixos. Foi assim que se deu o processo que resultou na versão 0.85 do meu Estudo de Elementos Finitos.

Maitê Proença

Hora Extra

box– Há tempos não brincamos no sofá da sala. – disse ela.
– É verdade! – disse ele.
– Não podemos deixar certos hábitos esmorecerem.
– Sem dúvida! Deixamos mais algum além do sofá?
– Sim, o de tomar banho juntos.
– Tem razão! Confesso que prefiro muito mais esse.
– Por quê?
– Água quente me favorece a vasodilatação.
– Que tal revisitarmos esses dois hábitos de uma vez?
– Haverá intervalo?
– Pode ser…
– Nesse sábado?
– Não. Agora.
– Após um dia extenuante de trabalho?
– Exato. Algum problema?
– Nenhum, mas o banho precisará ficar no segundo tempo.

Namoradinha

maosdadas– Papai, eu estou namorando. – disse o menino de sete anos.
– Nossa! Quem é ela, meu filho? – perguntou o pai assustado.
– Uma menina lá da minha sala.
– Ela é bonita?
– Não, papai. Ela é linda!
– Qual o nome dessa namorada tão linda?
– É Júlia.
– Bonito nome! Mas, diz pra mim: como é esse namoro?
– A gente fica de mãos dadas o tempo todo.
– Ah…Que bom! Parabéns pela sua primeira namoradinha, meu filho!
– Primeira? Mês passado eu tava com a Camila.

Poente

Poente
Local: Ilha de Comandatuba (Bahia)
Equipamento: Nikon D700 com objetiva Nikkor 24-120mm ED
Exposição: abertura f/3.5, velocidade 1/30s e ISO200
Pós processamento: Apple Aperture 3

Dona Marta

livroNão são muito raros os períodos em que me dedico obsessivamente a uma certa atividade ou pensamento. Atualmente, atravesso um deles e o alvo, desta vez, é colocar no papel, da melhor maneira que for possível à minha parca capacidade literária, essas histórias mirabolantes que ficam perambulando pela minha cabeça. Com tal intuito, escrevi as agruras da pitoresca Dona Marta, protagonista de mais um conto que acresci aos meus Contos Ingênuos.

Freida Pinto

12 horas

aviao– Está frio! Por que resolveu viajar de saia? – perguntou ele.
– Ela viabilizará a execução de um plano – respondeu ela.
– Estaria eu incluso?
– Completamente.
– Já imagino o que seja, mas posso perguntar onde e quando?
– No avião. Começaremos logo após apagarem o sinal de atar o cintos.
– Devo informá-la que teremos assentos contíguos aos nossos.
– Disporemos do banheiro.
– Bem pensado! Mas o que você quis dizer com “começaremos”?
– A ação se repetirá pelo menos umas três vezes.
– Não acha que desconfiarão ao entrarmos tantas vezes juntos?
– Sem a desconfiança de terceiros, a empreitada perde o sentido.
– Entendo…Pretende gritar?
– Ainda não me decidi, mas há uma forte possibilidade.
– Entendo… Acho que serão 12 horas nada monótonas.
– Você terá certeza quando eu lhe contar o restante do plano.
– Entendo…