Laicismo

privatariaEnvolto no pandemônio que se formou à época do lançamento do livro A Privataria Tucana, corri para a livraria a fim de tentar garantir o meu exemplar. Atiçou meus ânimos revoltosos a total indisponibilidade da obra polêmica; fato que por si só já considerei uma censura, uma ação reacionária da classe dominante. Imaginei-me então um membro do proletariado, marchando numa coluna, armado com foice e martelo, pronto para aniquilar, a qualquer custo, a burguesia opressora. Liguei diversas vezes para a maior livraria da América Latina e proferia impropérios indignados aos funcionários ao receber uma resposta negativa: “Isso é coisa do Serra!”, eu gritava. Finalmente o livro chegou e toda aquela revolta dissipou-se como que por encanto, a tal ponto que desapareceu até o interesse pela leitura daquele compêndio de “revelações bombásticas”, conforme foi propagandeado. O tempo passou e um dia desses, ao zapear no controle da TV, deparei-me com a inconfundível figura de José Serra enaltecendo sua competência como administrador público e o legado virtuoso que seu partido havia deixado para o Brasil. Após essas enfáticas palavras, invadiram-me as imagens alternadas da coluna, da marcha, da burguesia opressora, do martelo e, com mais frequência, da foice afiada. Fui da sala ao escritório num piscar de olhos e tão logo encontrei aquela obra jornalística repousando na estante, iniciei a leitura. Respaldado por uma quantidade significativa de documentos, o livro – bem escrito, por sinal – narra os meandros das intrincadas peripécias de José Serra e sua turma para enviar ao exterior e principalmente trazer de lá dinheiro de origem obscura. Entre os asseclas de Serra, atuam ativamente na quadrilha sua filha, seu genro e um espanhol que ele chama de primo. Sob a égide “intelectual” de um sujeito chamado Ricardo Sérgio de Oliveira, vulgo Mr. Big, os larápios dançaram e rolaram na era das privatizações FHCianas, após a qual todos coincidentemente ficaram mais ricos e o estado brasileiro 2,5 bilhões de reais mais pobre. Sutis como um elefante num apartamento, os ladinos deixaram enormes rastros, dada a certeza de sua impunidade: afinal de contas, durante os oito anos de tucanato no poder, o poderoso chefão foi um dos FHC Boy (terminologia do irritadiço Ciro Gomes). Segundo o livro, tais rastros podem ser facilmente detectados em cartórios, tribunais e em documentos, resultados de investigações policiais aqui e no exterior. Há também a história de como a patota liderada por Antônio Palocci (ou Palofi) sabotou a campanha de reeleição da candidata de seu próprio partido, a máscula Dilma do dissimulado PT. O autor do livro, que atende pelo nome de Amaury Ribeiro Jr., não é aquele colunista social abjeto, mas um jornalista investigativo que já trabalhou nas principais mídias impressas do país e que, atualmente, presta seus serviços na rede televisiva do polêmico Bispo Edir Macedo, cujas artimanhas sagazes certamente não serão investigadas por nenhum de seus funcionários. Após terminar minha leitura, resolvi procurar na internet alguma declaração de Amaury Jr., o roliço, e acabei encontrando uma patética entrevista concedida ao seu colega de firma, o espalhafatoso Paulo Henrique Amorim, que faz uso de sua voz fanhosa irritante para promover efusivamente o livro. Nos raros momentos em que o entrevistador deixou o entrevistado falar, pude relembrar com saudosismo o sotaque característico de um velho capataz da fazenda do meu tio que, tal qual Amaury na entrevista, tinha enormes dificuldades com a pronúncia correta de diversos vocábulos, incluindo o traiçoeiro “problema”, com todas as suas nuances fonéticas. Diante disso tudo, acorreu-me novamente, agora de forma constrangedora, a imagem do proletariado que luta contra o imperialismo, do trabalhador que combate o capitalista, do sindicalista de língua de presa que aponta o megafone para o ouvido do patrão, enfim toda essa atmosfera pseudo-revolucionária. Por alguma razão, constatei surpreso, que além de nunca ter conseguido me enquadrar no polo reacionário, também não consigo mais fazê-lo no subversivo. Percebi-me avesso a extremos e adepto ferrenho do laicismo político-ideológico; posição bastante conveniente para alguém cujo hábito de criticar é antes de tudo um imenso prazer.

Um comentário sobre “Laicismo

Deixe um Comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s