Troca

menorahApós assistir a um filme sobre a paixão de Cristo, o menino judeu pergunta:
– Papai, Jesus era um dos nossos?
– Sim, meu filho.
– Quem eram aqueles homens que trocaram ele por um ladrão? Palestinos?
– Não, meu filho. Eles eram dos nossos também.
– Por que fizeram isso?
– Não sei, mas Jesus disse que era preciso que fosse crucificado.
– Para quê?
– Para que acreditassem nele.
– E funcionou?
– Sem dúvida! Daí surgiram os cristãos.
– Então nós ajudamos a criar o Cristianismo?
– De uma certa forma, sim.
– Nossa!!
– Como se sente?
– Orgulhoso!

Cooperação

cooperacao– Quantas horas são? – perguntou a mãe dele.
– São três e meia da manhã. – respondeu o pai dele.
– Que barulhada é essa?
– São eles.
– Meu Deus, mas o que é isso?
– Sexo selvagem.
– Precisam grunhir assim?
– Pensa que é simulação?
– Só pode ser!
– Creio que não. Tá ouvindo também os tapas?
– Tapas? Nele ou nela?
– Como é que vou saber?
– Não podemos mais convidá-los para dormir aqui.
– Por quê?
– Os vizinhos vão pensar que somos nós.
– Pois eu espero que sim! Minha reputação ficará em alta!
– Ouça! Agora pararam de gritar! Ufa!
– Devem estar com as bocas ocupadas.
– Finalmente um romântico beijo na boca.
– Pela animação anterior, não creio que seja isso.
– O que acha que estão fazendo então?
– Aquilo que você nunca gostou de fazer.
– Um no outro simultaneamente?
– Trabalho cooperativo, minha velha! Trabalho cooperativo!

Anões

condenado

Não é raro passear por essa minha mente conturbada a ideia de que originalidade é uma abstração. Se tal observação estiver errada, então o termo não se refere a uma concepção plenamente nova, mas à síntese bem estruturada, com eventuais novidades, de um apanhando de outras concepções relacionadas, obtidas dessa mesma forma. Assim, concordo, sem aceitação dogmática, com o filósofo do século XII Bernard de Chartres: “…somos como anões empoleirados em ombros de gigantes; assim conseguimos ver mais longe do que eles”.  Essa frase, reiteradamente utilizada por Sir Isaac Newton em seus escritos, traduz muito bem o que viria a ocorrer na prática científica ao longo dos séculos seguintes: o próprio Newton se valeu do trabalho incansável do astrônomo dinamarquês Tycho Brahe para formular suas três leis; para a Teoria da Relatividade Especial, Albert Einstein se apoiou intensamente na complicada matemática do polímata francês Henri Poincaré e até o turrão Sigmund Freud revelou textualmente que a famosa estrutura psíquica denominada “Id” foi uma contribuição do médico alemão Georg Groddeck. Nestes últimos anos, têm me atraído a generosa beleza da Arte e suas manifestações, particularmente a Literatura. Embrenhado em minhas leituras ininterruptas, qual não foi minha surpresa quando percebi que também nesse campo os anões e gigantes do filósofo medieval trabalham em cooperação mútua. Apresento aqui um modesto exemplo dessa minha constatação; algo que seguramente já deve ter sido observado por algum especialista no assunto. Segundo o acadêmico da Universidade de Princeton Joseph Frank, no seu renomado livro Dostoevsky: The Seeds of Revolt, 1821-1849, o célebre Fiódor Mikhailovich Dostoiévski era um ardoroso fã do não menos célebre autor francês Victor-Marie Hugo. Como sou relativamente cético às chamadas “coincidências cósmicas”, não tenho a menor dúvida de que o escritor russo – jovem à época que conheceu a literatura francesa – leu a passagem a seguir, escrita por seu ídolo, e a guardou consigo até 1865, quando, por algum motivo, ela o inspirou.

“Disse a mim mesmo:
– Já que tenho os meios para escrever, por que não o faria? Mas escrever o quê? Preso entre quatro muralhas de pedra nua e fria, sem liberdade para meus passos, sem horizonte para meus olhos, tendo por única distração ficar mecanicamente ocupado o dia inteiro a seguir a marcha lenta desse quadrado esbranquiçado que o postigo de minha porta recorta sobre a parede escura e, como dizia há pouco, totalmente a sós com uma ideia, uma ideia de crime e castigo, de assassínio e de morte, pode alguém como eu ter algo a dizer? E o que encontraria em meu cérebro maculado e vazio que valha a pena ser escrito?”

Extraído de “O Último Dia de um Condenado” (1829)
Victor Hugo