Complemento

Um adolescente na primeira metade da década de 80 minimamente integrado à vida social não ficou imune à exótica figura denominada Michael Jackson. Esquálido e excêntrico, o finado cantor norte americano, egresso do grupo The Jackson 5, no qual dividia o palco com os irmãos, assombrou o mercado fonográfico com o lançamento de Thriller, o sexto álbum de sua carreira solo. Com produção do ex-comedor de ratos Quincy Jones, o trabalho tem o estilo Rhythm & Blues com enfoque bastante pop; mistura inebriante que seduziu três quartos da adolescência do dito mundo civilizado. Um recurso que se revelou fundamental para esse nível de contaminação das mentes juvenis foi o lançamento dos tais vídeos promocionais das músicas, recém batizados, à época, de “video-clips”. O franzino Michael, dotado de uma assexualidade serelepe, era dado a excessos e não poupou dispêndios financeiros para promover o hit Thriller, música que dava nome ao “disco” (eu ainda uso essa terminologia). O vídeo de 13 minutos e 43 segundos, recheado com cenas patéticas de terror, peculiares aos filmes C, foi dirigido pelo diretor, também de nível C, John Landis e finalizado, de maneira apoteótica, pelas gargalhadas sinistras do não menos sinistro Vincent Price, cujo nome sequer constou nos créditos finais. A empreitada que custou US$500.000 – um desbunde em 1983 – alçou o sucesso do álbum e do semi-negro Michael à estratosfera, eternizando-o no mundo pitoresco da música pop.  Alguns críticos mais animadinhos elegeram recentemente esse video-clip como o melhor, o mais influente da história; algo contra o qual gostaria de me opor. Qual o propósito de um video-clip, além do comercial? Acredito que seja o de acrescentar algo à canção que está promovendo, seja no âmbito do conteúdo, no âmbito da forma ou em ambos: a música pop pós-década de 80 parece que precisa desse acréscimo, desse complemento. Assim, quero dizer que o filme de John Landis, protagonizado pelo zumbi dançante Michael Jackson, falha nesses propósitos, pois além de ser desprovido de qualquer conteúdo, não conseguiu acrescentar absolutamente nada à forma, apenas enfraquecê-la. Como um experiente fã de pop e apreciador de vídeo-clips, não me lembro de um vídeo melhor do que o da música Here It Goes Again, do grupo norte-americano OK Go: são 2 minutos e 59 segundos, sem cortes, nos quais os integrantes da banda executam malabarismos coreografados sobre esteiras ergométricas; algo que demandou dezessete tentativas até que conseguissem. A música ganhou minha atenção e milhões de acessos no YouTube por conta do seu video-clip, do formato inesquecível que deu à ela. Tenho a impressão que para promover a música pop desses novos tempos, há que se dispor menos do ridículo, como em Thriller, e mais de espetáculos circenses.

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