Luz

luzNoiteNaquele mar aprazível,
Flutuei incontido
Sorvi o fluido adocicado,
Sob cálidas melodias

Embalo rítmico e grave,
O coração benfazejo
fez-se um hostil imperador
ante minha débil resistência

Reticente, arrisquei
revelar-lhe o ódio,
Chorar-lhe o medo,
Chamá-lo morte

Na dor lancinante,
Acelereou-se o passo
Do crânio e seu martírio
emergiu a lágrima,

O fulgor da noite.

(Após A Gota de Chuva de Frédéric Chopin)

Auditoria

celular – Intrigou-me a chamada de um número desconhecido para o seu celular. – disse ela.
– Não me lembro de qualquer ligação diferente nesses dias. – disse ele.
– Sabendo que tal esquecimento aconteceria, ainda há pouco recorri novamente ao dispositivo.
– Conseguiu o número?
– Surpreendentemente não. O registro das chamadas está agora vazio.
– É verdade! Costumo apagá-lo de tempos em tempos.
– Posso saber o motivo dessa prática saneadora?
– Evitar travamento do aparelho por saturação de memória.
– Lamento informá-lo do baixo nível de credibilidade dessa tua resposta.
– Posso perguntar a razão da auditoria?
– Venho notando um certo desinteresse da tua parte. No sábado, ele ficou evidente.
– Só porque não concordei com aquela posição?
– Era algo que me parecia perfeitamente factível.
– E que com certeza me provocaria uma dolorosa crise de ciático.
– Você continua pouco convincente. Devo relembrá-lo que aventuras com terceiros sem um acordo prévio constituem traição.
– Embora absurda tal acusação, seu ciúme é uma surpresa. Devo eu regozijar-me ou preocupar-me?
– Preocupar-se.
– Por quê?
– Nesse estado, sou inundada por pensamentos perversos, homicidas.
– Entendo…Como faço para me tornar crível?
– Neste exato momento, ocorre-me o sexo selvagem.
– Entendo…Saberia me precisar quão selvagem?
– Não.

Rhode Island

vacaConsidero a maioria esmagadora das comédias protagonizadas pelo ator Jim Carrey  entre medianas e péssimas. Nesses filmes torpes, o comediante canadense abusa de suas momices infames para tentar deixar sua marca, seja ela positiva ou não: isso pouco importa. Ao arsenal de bestialidades do qual Carrey dispõe freneticamente, acrescentam-se roteiros medíocres e disformes, peculiares aos pastelões da indústria cinematográfica hollywoodiana. Entretanto, nem tudo é um desastre na débil comicidade do ator: lembro-me de uma cerimônia de premiação do Oscar onde, num dado momento, ele se coloca de costas para a plateia, se curva, direcionando sua região anal ao microfone, e pratica uma espécie de ventriloquia com as nádegas. Ainda não houve um discurso que tenha sido mais representativo do evento, mais apropriado para essa festa ignóbil que é o Oscar. Claro está que o sucesso alcançado por Jim Carrey minora significativamente a legitimidade de minhas críticas: o ator é considerado uma estrela da sétima arte e boa parte do dito mundo civilizado o conhece e admira. Confesso, encabulado, que há um único um filme que me faz sentir parte desse rebanho: Eu, Eu Mesmo e Irene (Me, Myself and Irene), dos nada ortodoxos Bobby e Peter Farrelly. A história narra a trajetória de um policial do estado americano de Rhode Island, interpretado por Carrey e suas palermices, desde a absoluta humilhação que sofre, passando por uma esquizofrenia caricata até o tradicional final feliz. No papel da mocinha Irene, par romântico do policial, atua a esquisita René Zellweger, que nos idos do ano 2000 ainda não fora vítima de seus atuais cacoetes faciais e exibia alguns traços de beleza juvenil. Além das belas paisagens, também me atrai a criativa trilha sonora, cujo ponto alto é a música The World Ain’t Slowin’ Down do cantor folk Ellis Paul. Por diversas vezes, tentei empreender esforços para entender as causas dessa minha vontade reiterada de assistir ao filme e rir de suas pieguices, a fonte desse meu incansável apreço; algo definitivamente meu, que não é compartilhado e nem encontra eco nas pessoas mais próximas.