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Arquivo de

Luz

luzNoiteNaquele mar aprazível,
Flutuei incontido
Sorvi o fluido adocicado,
Sob cálidas melodias

Embalo rítmico e grave,
O coração benfazejo
fez-se um hostil imperador
ante minha débil resistência

Reticente, arrisquei
revelar-lhe o ódio,
Chorar-lhe o medo,
Chamá-lo morte

Na dor lancinante,
Acelereou-se o passo
Do crânio e seu martírio
emergiu a lágrima,

O fulgor da noite.

(Após A Gota de Chuva de Frédéric Chopin)

Circuncisão


Local: The Cloisters Museum (New York)
Equipamento: Nikon D700 com objetiva Nikkor 24-120mm ED
Exposição: abertura f/5.6, velocidade 1/6s e ISO200
Pós processamento: Apple Aperture 3

Auditoria

celular – Intrigou-me a chamada de um número desconhecido para o seu celular. – disse ela.
– Não me lembro de qualquer ligação diferente nesses dias. – disse ele.
– Sabendo que tal esquecimento aconteceria, ainda há pouco recorri novamente ao dispositivo.
– Conseguiu o número?
– Surpreendentemente não. O registro das chamadas está agora vazio.
– É verdade! Costumo apagá-lo de tempos em tempos.
– Posso saber o motivo dessa prática saneadora?
– Evitar travamento do aparelho por saturação de memória.
– Lamento informá-lo do baixo nível de credibilidade dessa tua resposta.
– Posso perguntar a razão da auditoria?
– Venho notando um certo desinteresse da tua parte. No sábado, ele ficou evidente.
– Só porque não concordei com aquela posição?
– Era algo que me parecia perfeitamente factível.
– E que com certeza me provocaria uma dolorosa crise de ciático.
– Você continua pouco convincente. Devo relembrá-lo que aventuras com terceiros sem um acordo prévio constituem traição.
– Embora absurda tal acusação, seu ciúme é uma surpresa. Devo eu regozijar-me ou preocupar-me?
– Preocupar-se.
– Por quê?
– Nesse estado, sou inundada por pensamentos perversos, homicidas.
– Entendo…Como faço para me tornar crível?
– Neste exato momento, ocorre-me o sexo selvagem.
– Entendo…Saberia me precisar quão selvagem?
– Não.

Rhode Island

vacaConsidero a maioria esmagadora das comédias protagonizadas pelo ator Jim Carrey  entre medianas e péssimas. Nesses filmes torpes, o comediante canadense abusa de suas momices infames para tentar deixar sua marca, seja ela positiva ou não: isso pouco importa. Ao arsenal de bestialidades do qual Carrey dispõe freneticamente, acrescentam-se roteiros medíocres e disformes, peculiares aos pastelões da indústria cinematográfica hollywoodiana. Entretanto, nem tudo é um desastre na débil comicidade do ator: lembro-me de uma cerimônia de premiação do Oscar onde, num dado momento, ele se coloca de costas para a plateia, se curva, direcionando sua região anal ao microfone, e pratica uma espécie de ventriloquia com as nádegas. Ainda não houve um discurso que tenha sido mais representativo do evento, mais apropriado para essa festa ignóbil que é o Oscar. Claro está que o sucesso alcançado por Jim Carrey minora significativamente a legitimidade de minhas críticas: o ator é considerado uma estrela da sétima arte e boa parte do dito mundo civilizado o conhece e admira. Confesso, encabulado, que há um único um filme que me faz sentir parte desse rebanho: Eu, Eu Mesmo e Irene (Me, Myself and Irene), dos nada ortodoxos Bobby e Peter Farrelly. A história narra a trajetória de um policial do estado americano de Rhode Island, interpretado por Carrey e suas palermices, desde a absoluta humilhação que sofre, passando por uma esquizofrenia caricata até o tradicional final feliz. No papel da mocinha Irene, par romântico do policial, atua a esquisita René Zellweger, que nos idos do ano 2000 ainda não fora vítima de seus atuais cacoetes faciais e exibia alguns traços de beleza juvenil. Além das belas paisagens, também me atrai a criativa trilha sonora, cujo ponto alto é a música The World Ain’t Slowin’ Down do cantor folk Ellis Paul. Por diversas vezes, tentei empreender esforços para entender as causas dessa minha vontade reiterada de assistir ao filme e rir de suas pieguices, a fonte desse meu incansável apreço; algo definitivamente meu, que não é compartilhado e nem encontra eco nas pessoas mais próximas.

Estudo de Elementos Finitos v0.11

1/4 de Placa com FuroApós alienar-me do mundo durante alguns dias, agrilhoado à ideia obsessiva de aprimorar adequadamente o enfoque do meu Estudo de Elementos Finitos,  apresento sua versão 0.11.

Clara Schumann

Malu Mader

Rosario

Basílica de Nuestra Señora del Rosario
Local: Basílica de Nuestra Señora del Rosario (Buenos Aires)
Equipamento: Nikon D300S com objetiva Sigma 17-35mm EX
Exposição: abertura f/18, velocidade 1/50s e ISO1000
Pós processamento: Apple Aperture 3

Sermão

montanhaCaros irmãos, gostaria de discorrer brevemente sobre o despojar-se: tema bastante recorrente não só no ideário Católico, mas também no religioso de uma forma geral. O assunto – espécie de cliché teológico – também é tratado pelas crenças orientais, sendo um dos fundamentos da doutrina budista, que prega o desapego às coisas materiais e aos prazeres mundanos em prol da pureza da alma. O Hinduísmo rejeita veementemente o apego material e o considera um entrave ao exercício da espiritualidade. Em nossa Bíblia cristã, há diversas passagens pregando a precedência da alma sobre às efemeridades da vida. Em Mateus 5,3-12, ensina-nos Cristo as nove bem-aventuranças e, logo na primeira, ele trata do assunto: “Bem-aventurados os pobres em espírito, pois deles é o reino do céu”. No capítulo anterior, o evangelista escreve que o tentador, ao oferecer à Jesus poder e glória sobre todos os reinos do mundo em troca de submissão, recebe a seguinte resposta: “Vai-te, Satanás; pois está escrito: ‘Ao Senhor teu Deus adorarás e só a ele prestarás culto'”. Mais à frente, no capítulo 16, o mesmo Mateus apresenta uma exortação do Mestre aos seus discípulos: “Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser preservar sua vida, irá perdê-la; mas quem perder a vida por minha causa, este a preservará. Pois que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a vida?” Percebe-se, portanto, um certo nível de incompatibilidade entre espiritualidade e materialidade, no qual o ser contrapõe-se ao ter. A alma associa-se ao eterno enquanto a matéria ao perecível: “Não ajunteis tesouros na terra, onde traça e ferrugem os consomem, e os ladrões invadem e roubam; mas ajuntai tesouros no céu…” (Mt 6,19-20). Nesse contexto, a mim me parece que despojar significa libertar-se de tudo o que é passageiro, de tudo o que não é eterno. Diante da concepção de que somos formados por um corpo e uma alma, o conjunto das coisas efêmeras, no qual se incluem os construtos humanos e naturais, também abarca o corpo limitado, a carne. A busca pelo despojar-se é, em última instância, a busca pelo aprimoramento da alma, da nossa parcela que cremos ser eterna. Assim, minoramos a angústia da morte; o repúdio, o medo que ela nos causa: desapegar-se do finito é aceitá-lo. Renunciar é aprender sabiamente a morrer. Eis então que venho enaltecer a decisão de Vossa Santidade o Papa Demissionário Bento XVI; alguém que, nesses tempos de insaciáveis fome e sede de poder, abdicou, nos últimos anos de vida que lhe restam, do posto de substituto de São Pedro. Com a saúde debilitada, rejeitou a ideia de definhar em público, de ser admirado menos por suas obras e mais por sua senilidade. Perderá ainda o posto de Cardeal e voltará a ser o Bispo Joseph Aloisius Ratzinger, um fã de Mozart. Viverá recluso num convento, em meio aos livros, orando, estudando, lendo e escrevendo; ações em prol das quais vale a pena sua renúncia, pois são formas dignas, honestas de despojamento, do saber morrer.

Jill St. John

Expansão

quatro– Trouxe o filme? – perguntou ele.
– Aqui está. Finalmente ficou disponível. – disse ela.
– Creio que houve algum engano.
– Qual?
– Combinamos assistir a um filme adulto.
– Pois você o está segurando!
– Mas há um cavalo na capa do DVD!
– Você sabe que repudio a mesmice. Faz-se necessário expandir nossas fronteiras.
– Tal expansão precisa necessariamente abarcar outras espécies do reino animal?
– O preconceito é sempre maléfico: dificulta novas ideias.
– Veja esta foto aqui na sinopse. Pergunto eu: qual proveito poderíamos tirar de uma mulher manipulando a glande de um rocinante?
– Se você observar esta outra foto aqui, verá que ela o cavalga adereçada apenas com botas, esporas e chicote.
– O que intenta?
– Imitá-los.
– Ainda não conhecia este seu lado cruel.
– Eis a expansão à qual me referia.
– Uma vez que me colocasse na posição de um quadrúpede, você precisaria ser muito, muito sensata.
– O que temeria? As esporadas ou as chicotadas?
– Ambas e mais ainda a combinação chicote e posição “de quatro”.
– Como assim?
– Em virtude dessa tua ânsia por novas ideias, teria receio que fosse acometida pelo impulso masculino de preencher orifícios.

Dever de casa

camaraAo chegar em casa, o pai vê no telefone o registro de uma ligação para um número desconhecido. De lá do escritório, pergunta:
– Quem foi que usou o telefone?
– Fui eu, papai. – responde a filha de nove anos.
– Que número é este que você ligou?
– Liguei para a Câmara dos Deputados.
– Para quê? – pergunta o pai surpreso e indignado.
– Eu li nessa cartilha aqui que ligando pra esse telefone a gente pode sugerir leis. – argumenta a filha, mostrando ao pai a página com os contatos da casa legislativa.
– Que lei você quer que eles façam?
– Uma lei proibindo o dever de casa. – diz a menina, franzindo a testa.
– E o que eles te disseram?
– Eu não consegui falar.
– O que aconteceu?
– Apareceu a voz de uma moça dizendo umas informações. Papai, pelo que ela disse, eles só trabalham 3 dias na semana. É verdade?
– Isso mesmo…Tá chateada?
– Vou ter que mudar minha sugestão, mas fiquei animada!
– Animada? Por quê?
– Não vou pedir pra proibir todos os dias; só de quarta até sexta. Assim eles vão aceitar!

Portal


Local: Portais do Batistério (Florença)
Equipamento: SAMSUNG VLUU ST100
Exposição: abertura f/3.6, velocidade 1/125s e ISO80
Pós processamento: Apple Aperture 3

Acústica

– Conseguiu reservar a sala? – perguntou ela.porta
– Disponibilizarão a chave no sábado às 9 da manhã. – respondeu ele.
– Por quanto tempo?
– Até o meio-dia.
– Ótimo! Já preparei o traje universitário.
– Traje universitário?
– Se vamos a uma biblioteca, preciso me caracterizar de estudante.
– A sala de estudo é individual, é pequena: sua roupa precisa facilitar nossas manobras.
– Comprei um vestido “bicho-grilo”.
– Alguma razão para o estilo hippie?
– Vou me passar por uma aluna da Faculdade de Comunicação.
– Vai com roupas de baixo?
– Certamente. Um certo grau de dificuldade no despir-se faz parte do processo.
– Devo alertar que, mesmo com a porta fechada, necessitaremos ser comedidos.
– Em qual aspecto?
– No nível da emissão acústica.
– Eis uma restrição de difícil cumprimento.
– Por quê?
– Quero que ouçam os estalidos de nossas colisões.

Complemento

Um adolescente na primeira metade da década de 80 minimamente integrado à vida social não ficou imune à exótica figura denominada Michael Jackson. Esquálido e excêntrico, o finado cantor norte americano, egresso do grupo The Jackson 5, no qual dividia o palco com os irmãos, assombrou o mercado fonográfico com o lançamento de Thriller, o sexto álbum de sua carreira solo. Com produção do ex-comedor de ratos Quincy Jones, o trabalho tem o estilo Rhythm & Blues com enfoque bastante pop; mistura inebriante que seduziu três quartos da adolescência do dito mundo civilizado. Um recurso que se revelou fundamental para esse nível de contaminação das mentes juvenis foi o lançamento dos tais vídeos promocionais das músicas, recém batizados, à época, de “video-clips”. O franzino Michael, dotado de uma assexualidade serelepe, era dado a excessos e não poupou dispêndios financeiros para promover o hit Thriller, música que dava nome ao “disco” (eu ainda uso essa terminologia). O vídeo de 13 minutos e 43 segundos, recheado com cenas patéticas de terror, peculiares aos filmes C, foi dirigido pelo diretor, também de nível C, John Landis e finalizado, de maneira apoteótica, pelas gargalhadas sinistras do não menos sinistro Vincent Price, cujo nome sequer constou nos créditos finais. A empreitada que custou US$500.000 – um desbunde em 1983 – alçou o sucesso do álbum e do semi-negro Michael à estratosfera, eternizando-o no mundo pitoresco da música pop.  Alguns críticos mais animadinhos elegeram recentemente esse video-clip como o melhor, o mais influente da história; algo contra o qual gostaria de me opor. Qual o propósito de um video-clip, além do comercial? Acredito que seja o de acrescentar algo à canção que está promovendo, seja no âmbito do conteúdo, no âmbito da forma ou em ambos: a música pop pós-década de 80 parece que precisa desse acréscimo, desse complemento. Assim, quero dizer que o filme de John Landis, protagonizado pelo zumbi dançante Michael Jackson, falha nesses propósitos, pois além de ser desprovido de qualquer conteúdo, não conseguiu acrescentar absolutamente nada à forma, apenas enfraquecê-la. Como um experiente fã de pop e apreciador de vídeo-clips, não me lembro de um vídeo melhor do que o da música Here It Goes Again, do grupo norte-americano OK Go: são 2 minutos e 59 segundos, sem cortes, nos quais os integrantes da banda executam malabarismos coreografados sobre esteiras ergométricas; algo que demandou dezessete tentativas até que conseguissem. A música ganhou minha atenção e milhões de acessos no YouTube por conta do seu video-clip, do formato inesquecível que deu à ela. Tenho a impressão que para promover a música pop desses novos tempos, há que se dispor menos do ridículo, como em Thriller, e mais de espetáculos circenses.

Torre


Local: Torre de Garcia D’Ávila (Mata de São João)
Equipamento: Nikon D700 com objetiva Nikkor 24-120mm
Exposição: abertura f/13, velocidade 1/80s e ISO400
Pós processamento: Apple Aperture 3