Barney

Consegui dar boas risadas no divertido Roma Com Amor (To Rome With Love) de Woody Allen. Não sou fã ardoroso do cineasta nova-iorquino, mas alguns de seus filmes são realmente inesquecíveis para mim, principalmente os menos famosos e, dentre eles, os que me fazem sorrir. Confesso que o riso não me é difícil: algumas vezes, ele aparece quase como uma reação, um reflexo ao evento engraçado, que necessita ser apreciado; em outras, como fruto de uma débil elaboração, sensivelmente atrasado em relação ao que o estimulou. Pode acontecer também que esses dois tipos de riso se sucedam e assim, em certos casos, o fenômeno cômico se perpetua, reaparecendo como imagens projetadas por alguma região da mente ansiosa por esse tipo de prazer. Atrai-me, quase sempre, o absurdo, o grotesco, a caricatura e talvez seja por isso que algumas das histórias do filme – como a do agente funerário elevado à condição de tenor por um produtor de espetáculos não convencionais – me pareçam tão engraçadas. Ao assistir a cena do cantor de banheiro entrando no palco dentro de um box improvisado, debaixo de um chuveiro, gargalhei efusivamente e senti enorme prazer em poder reviver aquela cena inusitada. Lembrei-me imediatamente de um desenho dos Flintstones ao qual assisti ainda quando criança, cujo título em inglês é Flintstones Canaries. O episódio, apresentado ao público americano em 1963, mostra o vizinho e fiel amigo de Fred, Barney Rubble, se apresentando no palco dentro de uma banheira, já que não conseguia a mesma performance vocal fora dela, como o agente funerário de Woody Allen. De alguma forma, fico grato à essa coincidência (alguns argumentam que foi plágio), porque pude revisitar um momento alegre da infância, obscurecido por tantos outros que o sucederam ao longo dos anos. Depois de matutar sobre a similaridade das minhas reações diante dessas duas histórias também similares, tão distantes uma da outra no tempo, percebi que certos comportamentos emotivos não são adquiridos, mas gerados, como uma parte orgânica, dentro do seio materno. Porque são intrínsecos, tais comportamentos nos definem e podem até mudar um pouco com a idade, mas estarão sempre presentes, até o fim.

2 comentários sobre “Barney

    • Extrato do Miolo 14 de janeiro de 2013 / 21:56

      Obrigado, Dr.! Há momentos que são ressuscitados por outros: este foi um deles.

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