Duna

JanelaLembro-me do meu primeiro semestre na faculdade e de suas tardes quentes de domingo, quando eu abria a janela do meu quarto alugado. Tratava-se de um dos cômodos da casa de uma família conhecida, onde moravam pai e dois filhos, que se repartiam em outros dois quartos. Não se poderia afirmar categoricamente que era uma residência suntuosa, mas também não era simples. A vizinhança era realmente nobre e o bairro ficava afastado da cidade ruidosa. Graciosamente custeado pelo meu pai, a um preço bem abaixo do valor de mercado, o quarto onde me instalei tinha cama, criado-mudo, armário embutido, escrivaninha e um banheiro próprio: era pois, uma suíte mobiliada. Logo nas primeiras semanas de aula, notei que essa minha situação domiciliar, comparada à dos meus colegas, colocava-me numa condição similar a de um membro da realeza britânica, com o conforto e bem-estar que a cerca, mas sem a cafonice que lhe é peculiar. De qualquer forma, sentia-me constrangido toda vez que um colega, mal alojado em alguma república pestilenta, perguntava sobre algo relativo à minha moradia. Se fosse possível eu desconversava, senão mentia: não me agradava o fato de ser erroneamente classificado como um “barão”, obsoleta terminologia, muito utilizada na época, para se referir aos financeiramente afortunados. Um dos membros da família que não ocupava espaço na casa propriamente dita, mas residia numa edícola nos fundos do terreno, chamava-se Duna. Quando trancafiada, sua casinha parecia sufocar-lhe, dadas suas dimensões descomunais: aquela dobermann preta, de pelo liso e maravilhosamente reluzente, suplantava significativamente os padrões de tamanho considerados para sua raça e gênero. Pouco antes da minha chegada, ela havia sido submetida a uma intervenção cirúrgica para a retirada do útero, evitando que o câncer nessa região, diagnosticado prematuramente, se alastrasse. Não era certo dizer que ainda fosse uma mocinha na flor da idade, pois já havia tido algumas ninhadas e os donos acreditavam que sua acuidade visual, já não muito boa devido às características intrínsecas da raça, estivesse ainda mais comprometida, particularmente à noite, período em que ficava solta. Confesso que nunca me senti à vontade perto de cães e, logo nos meus primeiros dias ali, percebi que Duna padecia desse mesmo desconforto em relação aos seres humanos, incluindo seus donos, aos quais desobedecia sem a menor cerimônia. Quanto a mim, um ser humano novato perambulando em seu território, devo dizer ela não foi muito receptiva quando fomos apresentados: latiu agressivamente o tempo inteiro e ignorou sumariamente o pedaço de comida que me permitiram jogar para ela. Lembro-me dos seus olhos arregalados fitando os meus, enquanto apoiava suas patas dianteiras da grade de metal; postura que a elevava a uma altura amedrontadora. Quando voltávamos de uma saída noturna, o procedimento era o seguinte: o dono saia do carro, antes de abrir o portão da garagem, aproximava-se da porta de entrada e esperava que Duna também se aproximasse para identificá-lo. Uma vez que isso ocorresse, ele abria a porta, entrava na casa e, a duras penas, trancafiava a enorme cadela no seu casebre, quando então entrávamos com o carro. A impressão que me ocorria toda vez que assistia essa cena é que nós, seres de uma espécie dita evoluída e soberana, estávamos a mercê daquela fera canina, subjugados ao seu poderio. Com o tempo, meu desconforto com cachorros, transformado em pavor, não me permitia tocar com os pés fora da casa sem averiguar com segurança que Duna estava presa. Dentro de casa, entretanto, sentia-me aliviado e seguro, dado que havia um monstro negro do lado de fora para nos proteger de visitas indesejadas. Assim, tranquilo, enfurnava-me no quarto para estudar, principalmente nos domingos que iniciavam uma semana de provas, incluindo os tórridos, desprovidos de um brisa sequer, característica marcante dos calores de Uberlândia. O mormaço obrigava-me transladar a escrivaninha para perto da janela que, aberta, conferia-me uma falsa sensação de frescor. Certa vez, absorto na obtenção de uma derivada complicada, senti jactos repetitivos de ar quente na região que se costuma denominar popularmente de cangote e, numa reação de susto, virei a cabeça para esquerda, na direção daquela estranha fonte de ar: pude constatar então, taquicárdico e perplexo, que Duna me observava, que devia estar me observando estudar já há algum tempo, pois aquela cara grande que se apresentou diante de mim lembrou-me vultos que percebi, momentos antes, para os quais a concentração matemática não me permitiu atentar. Para a minha grata surpresa, após assistir ao meu susto e perceber o meu medo, ela continuou quieta como estivera: eu acreditava que, nessas circunstâncias, ela ficaria bastante indócil. Então, ali estava eu, estático na cadeira, olhando para ela, com as patas dianteiras no peitoril da janela e o focinho a poucos centímetros do meu. Com o passar do tempo, o medo deu lugar a um fiapo de consciência e pude notar que embora a altura da janela dificultasse um ataque, não o impediria, caso Duna estivesse realmente disposta a me ferir. De alguma forma, aquela figura corcunda, debruçada sobre uma mesa, pareceu-lhe inofensiva e então ela resolveu, cordialmente, tomar a iniciativa para estabelecer uma comunicação. Afastei-me vagarosamente da janela e, à uma distância que me pareceu segura, resolvi retribuir com palavras sua manifestação amistosa; algo que, aparentemente, ela julgou insuficiente, permanecendo como estivera: quieta. Lembrei-me então das guloseimas que costumava guardar no armário: naquela época, longe do seio materno, o chocolate serviu-me como um refúgio doce e nutritivo. Toda sexta-feira, ao voltar da escola, eu passava nas Lojas Americanas, no centro da cidade, e comprava barras variadas, nas cores negra e branca. Naquele momento em que precisava retribuir a benevolência de Duna, desrespeitando as recomendações expressas de não alimentá-la com doces, destaquei dois tabletes de uma barra de chocolate meio-amargo Nestlé e joguei pela janela. Ela então desceu, engoliu os tabletes de uma vez e retornou ao peitoril com um expressão diferente: sua ansiedade era perceptível e pareceu-me evidente que havia gostado do quitute. Após jogar mais alguns tabletes, aquela fera já subia na janela abanando o arremedo de rabo, próprio da raça; fato que me fez ficar orgulhoso de mim mesmo, daquela experiência nova de conseguir conquistar alguém. Duna então acostumou-se a subir naquela janela e eu me acostumei a reservar parte de minhas barras para ela: a cadela havia se tornado chocólotra como eu. A partir daí, nossa relação evoluiu, atingindo o ápice quando passeamos juntos, sozinhos, pela vizinhança: quem conduziu o passeio foi ela, puxando-me o tempo todo pela coleira. Terminado o semestre, resolvi então deixar aquele meu quarto principesco para habitar uma honesta república pestilenta. Seis meses depois, com enormes saudades, fui visitar minha amiga, animado pela informação de que os cães nunca esquecem seus benfeitores. Quando aproximamos de sua edícola, eu e os donos nos surpreendemos com a reação de Duna: eu havia me tornado novamente um estranho em seu território.

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