Mentira

EscravidãoO nome do autor me era conhecido. Havia alguns livros dele na estante da sala, na minha época de adolescente. Apesar de faltarem lembranças estruturadas, não seria de todo absurdo afirmar que meu pai comentou sobre ele conosco: Erich Fromm.  Até bem pouco tempo, a impressão que ficara escondida, mas viva, era a de um filósofo brilhante, alguém admirável, cujo texto simples, inteligente e direto fazia refletir sobre a liberdade; muito embora ainda me fosse obscura que liberdade era essa afinal, pois eu só conseguia entender a falta dela nos regimes de escravidão, em tempos remotos da História. Recentemente, por algum motivo desconhecido, a lembrança emergiu das ininteligíveis profundezas da mente e ocorreu-me vasculhar a antiga estante à procura daqueles três livros para descobrir seus títulos. Anotei cada um deles, coloquei os exemplares nos seus locais de origem e corri às livrarias na esperança de encontrá-los: infelizmente, todos fora de catálogo. Como a minha necessidade de possuir bens materiais é patológica, não era suposto que eu tomasse aqueles livros da estante emprestados: eles não eram e nunca foram meus. Nesse estado de decepção, de impossibilidade do ter, não me é costumeiro reagir de maneira produtiva, fruto de um pensamento mais elaborado; apenas murmuro, lamento profundamente o insucesso da empreitada até que surja algo diverso para me entreter. Nesse caso particular, consegui,  através de árduo raciocínio, chegar à este belíssimo e óbvio questionamento: se o texto era simples, como diziam as lembranças, e minha leitura de inglês razoável, por que não arriscar ler as obras na língua em que haviam sido escritas? Por que não? Bom, entre a ocorrência da ideia e a procura pelos livros na Amazon, transcorreu o tempo de “inicialização” do computador. Lá estavam eles, a preços módicos e portanto acessíveis para mim: Escape From Freedom, Man For Himself e The Sane Society. Comprei-os e aguardei ansiosamente os infindáveis dias que se passaram até a entrega: queria iniciar logo a descoberta daquele autor que jazia há muito em minhas reminiscências e também proceder ao desafio de ler meus primeiros livros inteirinhos em inglês. Embora minhas expectativas em relação às obras tenham sido maiores do que o conteúdo que revelaram, algo perfeitamente normal naquele estado de ansiedade que me encontrava, descobri do que se tratava a liberdade decantada pelo filósofo e também psicanalista alemão dr. Fromm. Ele argumenta que é uma tendência do homem manter-se ligado, atado afetivamente à alguém e que, no devido momento, faz-se necessário esforço para romper esse laço, lutar, ir de encontro ao estado inicial de dependência, inimiga da liberdade. Se por algum motivo, cedemos à inércia e não realizamos esse movimento desconfortável, transferimos as figuras parentais, principais objetos de nossas primeiras ligações, para terceiros e a eles nos ligamos por um cordão umbilical psicológico, ficamos prisioneiros de nós mesmos, da nossa carência infantil, da necessidade de aprovação, de sermos aceitos, de sermos amados, admirados, nutridos. Tal comportamento é benéfico e essencial nos primeiros anos de vida, mas torna-se destrutivo e escravizante em idade adulta, quando são necessárias autenticidade e autonomia. Nesse estado de dependência, o adulto cronológico fica refém da criança psicológica, que, imatura, birrenta e egocêntrica, é incapaz de aceitar a realidade; situação que o impele a fabricar um mundo para si, um mundo onde suas fantasias sofisticadas ganham vida e se transformam em verdades absolutas. Ele, então, se torna vítima dessa criatividade maléfica, quando o assaltam sistematicamente o medo e a insegurança, dos quais precisa se proteger valendo-se, muitas vezes, de arrogância e de uma falsa autoconfiança: armas que dissimulam sua fraqueza, sua debilidade emocional. Armado, escravizado, com olhar voltado unicamente para si, esse homem esquizoide passa a estabelecer relações distorcidas: vincula-se àqueles que o veneram e repudia agressivamente aqueles que podem ameaçar suas verdades fictícias, que as contestam. Para ele, desafiá-lo é como tentar matá-lo, porque sua fraude preciosa pode ser descoberta, porque sua vida como um todo fundamenta-se na mentira.

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