Croquete

CanudoNo intuito de honrar gloriosamente o título adquirido após quatro anos de labuta, o Doutor resolveu se embrenhar no árduo exercício do magistério. Afinal de contas, o nobre canudo tinha sido emitido, pública e gratuitamente, por uma universidade federal, fato que acreditou suscitar em sua alma pouco dadivosa sentimentos de gratidão. Tomado por um ânimo incomum para empreitadas tão pouco lucrativas, resolveu dedicar-se de corpo e alma, subtraindo tempo da convivência com os filhos para recordar assuntos antigos, já que sua ideia seria ministrar aulas na graduação. Empregado, durante o dia, numa repartição pública, o único turno que lhe sobrava era o noturno, horário em que sua mulher trabalhava e a babá procedia à rotina das crianças. Comprou livros, preparou aulas e criou expectativas; queria dar um enfoque novo ao ensino da disciplina que se especializara. Após essa preparação intensa, procurou uma faculdade, submeteu-lhe o currículo, sendo aceito de imediato: “Profissionais dispostos a ministrar esta disciplina, como o senhor, são raros; a gente vai te pegar nem que for no laço!”, disse efusivamente o coordenador do curso. O Doutor, então, acertou os horários das aulas com a faculdade e passou a aguardar ansiosamente o início do semestre seguinte. Fez planos de alimentar uma caderneta de poupança com o singelo acréscimo pecuniário que teria e, orgulhoso, acresceu antecipadamente ao currículo a experiência vindoura: era uma nova carreira que para ele se iniciava, novos horizontes, novos desafios. Certo dia, quando estava imerso em seus estudos, a babá dos filhos trouxe-lhe um pratinho com diversos salgadinhos: “Aqui, Doutor. São pro senhor. Minha mãe que fez.”, disse animadamente a garota. Ele experimentou e teceu elogios rasgados àqueles quitutes feitos com tanto esmero e sabor. O croquete, particularmente, tinha um paladar inigualável: “É a especialidade da mamãe”, disse ela. Nos dias que se sucederam, naquele mesmo horário, os salgadinhos eram servidos e deliciosamente saboreados pelo futuro professor. Ao final de uma semana, junto com os salgadinhos, a babá solicitou um minuto da sua atenção: “Seu Doutor, minha mãe resolveu montar um negócio. Lá onde eu moro, tem muitos bares e o meu tio que gosta de uma cerveja disse que eles não vendem croquetes que prestem. Mamãe então resolver aproveitar essa chance porque, como o senhor mesmo sabe, essa é a especialidade dela. Fez alguns para um dos botecos e vendeu tudo. Fez para outros e vendeu tudo. Os pedidos são tantos que ela não está dando conta do serviço. Disse que vai precisar da minha ajuda e como não posso deixar ela na mão, deixar ela perder essa chance, vou ter que sair. Quero pedir minhas contas”. Um silêncio sepulcral separou o fim desse pedido e o início de uma profunda cólera que sufocou o nobre Doutor: desprovido de babá, quem iria tomar conta dos filhos quando estivesse nas aulas, exercendo a sua porção altruísta? Foram necessários alguns dias para minorar aquele ódio mortal que o fizera proferir, internamente, palavrões que nem ele próprio sabia que conhecia. Houve então espaço, ainda que pequeno, para uma breve reflexão e o Doutor se deu conta que não havia sido honesto consigo mesmo: tudo aquilo que fizera e que faria não era altruísmo, mas pura insuflação de ego, como acontecera na sua especialização apoteótica. Foi preciso que o destino preferisse o croquete ao canudo para que ele tirasse, por breves momentos, os olhos daquela imagem fictícia de si mesmo e reparasse um pouquinho mais nos filhos.

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