Sorvete

– Acho que vai ficar roxo. – disse ele.Sorvete
– O quê? – perguntou ela.
– Meu dedo.
– Sério?
– Totalmente descabia a sua mordida.
– Você quem pensa.
– Apenas chupar não lhe é suficiente?
– Claro que não. Preciso simular o processo de deglutição.
– Pois quase o realizou de fato. Pode então ser menos voraz da próxima vez?
– É…Posso tentar…
– Hum…Não senti muita convicção da sua parte!
– Tem razão.
– O que te dificulta a certeza?
– Não sei o que pode acontecer quando eu abocanhar esta outra região sua: mais volumosa, mais protuberante.
– E também mais sensível!!!
– Se isso tanto te amedronta, eu abdico definitivamente dessa preliminar.
– Não seja radical! Pode imaginar que está saboreando um sorvete?
– Não. Vou ter que imaginar outra coisa.
– Por quê?
– Sorvete eu mastigo inteiro, até a casquinha.

Discordâncias

Basic-EconomicsAcredito que esta seja a primeira vez que leio um livro técnico do qual discordo quase completamente. Devo dizer que essa novidade é uma experiência ímpar: acostumado com livros de matemática, onde há muito pouco do que se discordar, vejo como um progresso da minha débil autenticidade confrontar a  pequena coleção de opiniões próprias que disponho com a sapiência de um acadêmico da Universidade de Stanford. O título do livro é Basic Economics: a common sense guide to the Economy, escrito pelo economista americano Thomas Sowell, fervoroso adepto do chamado livre mercado. O autor prega que um mercado só é livre quando não há intervenção de espécie alguma no mecanismo de preços; mecanismo esse que, regido pelas leis da oferta e da demanda, confere o devido valor a cada produto ou serviço comercializado, resolvendo, de maneira definitiva, o problema econômico: a correta alocação dos escassos recursos disponíveis para uma determinada sociedade. A partir dessa verdade, que coloca repetidamente ao longo do texto, Sowell defende com unhas e dentes que o tal mecanismo é algo perfeito e, portanto, intocável; que qualquer tentativa de regrá-lo provocará privilégios e desigualdades; que, diferentemente da lei da gravidade, a flutuação livre dos preços, fundamento do Capitalismo, não pode ser desafiada; que eventuais regramentos infratores desse dogma divino podem colocar, em última instância, uma nação inteira em crise recessiva. Aguardo, com certa incredulidade, o redentor capítulo do livro onde o autor pousará os pés no chão e apresentará exceções à sua abstração. Por enquanto, flutuando em seu mundo fictício, Sowell insiste em afirmar que cartéis e monopólios são fenômenos raros; que o cidadão pode facilmente substituir o alho pelo bugalho, evitando submeter-se a um produtor único; que agências reguladoras são sempre maléficas; que ganância e Capitalismo são incompatíveis; que competência administrativa é a única causa do sucesso das grandes corporações; que a prática do “dumping” é algo intrínseco aos processos do mercado e estimulante da concorrência; que falências e quebradeiras generalizadas produzem efeitos saneadores, revigorantes e outras impropriedades do gênero. Apoio minhas discordâncias não no meu conhecimento de Economia, que é pobre, como os países do terceiro mundo, mas no dia a dia do mundo real, na existência da OPEP, no serpear dos lobistas pelos corredores do poder, no envolvimento de grandes empresas como a IBM em escândalos de corrupção, na crise econômica mundial de 2008 e o consequente recrudescimento da regulação pelos Bancos Centrais, bem como outros fatos concretos que se opõem à etérea teoria do nobre professor de Stanford. Se o homem não dispõe de pudor para desequilibrar os ecossistemas da Terra, algo que os americanos sabem fazer como ninguém, por que haveria de tê-lo para controlar um mero construto da mente humana, o mercado? Não vejo o livre mercado que o dr Sowell tanto defende como uma força natural intocável ou como um mandamento religioso, ao qual devemos nos submeter passiva e obedientemente; não é algo isento de distorções e problemas. Em prol do ser humano, há que se preservar racionalmente seus muitos benefícios e aliviar seus muitos malefícios, interferindo direta e deliberadamente nos seus movimentos. Apesar dessas dissonâncias, confesso que estou gostando do livro, porque me instiga o confronto, o embate de ideias; ações para as quais preciso sair do meu conforto e da minha alienação; para as quais preciso estudar e me informar. Lendo textos como o do dr Sowell, percebo cada vez mais clara a desnecessidade de me posicionar ideologicamente, muito embora alguns encarem isso como “ficar em cima do muro”. Para esses, cuja ânsia por rotular é algo fisiológico, digo então que sou um anarquista de extrema direita.

Plantonista

Constituição FederalO artigo 13 do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal, nos seus inciso VIII e parágrafo único, reza que é uma atribuição do presidente do STF ou do seu vice-presidente atuar como plantonista durante o abundoso recesso judiciário. Assim, o presidente pop star Joaquim Barbosa – alçado, pela imprensa marrom, a novo expoente da afrodescendência nacional – não admitiu repassar ao seu suplente, após um 2012 de “cansaço e dor”, particularmente no nervo ciático, esse nobre ofício temporário de plantonista e resolveu cumprir sua atribuição regimental. De posse dessa informação, na segunda-feira, dia 17/12/2012, o roliço Procurador Roberto Gurgel retirou seu pedido, feito ao STF, para a prisão imediata dos quadrilheiros do mensalão, entre eles os deputados João Paulo Cunha, Valdemar Costa Neto e Pedro Henry: todos réus condenados na apoteótica e ainda inacabada Ação Penal 470. Se não o fizesse, acreditava haver fortíssima chance de que o pleno do STF rejeitasse o seu pleito, eivado de inconstitucionalidade, já que a Constituição instrui no seu artigo 15, inciso III, que só podem ser cassados os parlamentares que tiverem sentença condenatória transitada em julgado, condição que inviabiliza a imediata prisão dos deputados mafiosos; condição essa que Gurgel e qualquer advogado bisonho sabem, que qualquer jurista, minimamente isento, minimamente desprovido de onipotência e onisciência, não interpreta, dada a clareza do texto. Um dos votos que Gurgel acreditava ser destoante do pleno e da Carta Magna, cada vez mais violada e desprestigiada, seria o do irritadiço presidente da Suprema Corte brasileira: hipótese que se alinha com o histórico de seus posicionamentos; afinal de contas, foi justamente esse arrogante comportamento demagógico que o conduziu ao estrelato. No dia 19/12/2012, logo após o término da patética sessão na qual o STF se despediu do ano de 2012 e entrou em recesso, Gurgel reapresentou seu pedido de prisão imediata dos réus, momento em que não mais poderia ser apreciado por todos os ministros, apenas pelo plantonista. Esse, por sua vez, com o sarcasmo que lhe é peculiar, anunciou, em alto e bom som, que não exitaria em proferir uma decisão monocrática. E assim o fez, há meia hora atrás. Para minha grata surpresa, Barbosa, talvez dominado por um raro espírito filial de submissão (algo que cogito com certa incredulidade), ao negar o pedido do Procurador-Geral, frustou meus sombrios prognósticos de nova afronta à “Mater Legis”, assumindo, nesse episódio, o posto de guardião “de facto” da Constituição da República Federativa do Brasil.

Vai

– Por que você quis de novo por trás? – perguntou ela.vai
– Porque assim você fica submissa. – respondeu ele.
– Engano seu. Não é exatamente dessa forma que você vai me submeter.
– Sério? Mas é assim que a maioria dos primatas fazem!
– Você precisa me imobilizar completamente.
– É só você ficar quieta, como a macaquinha que assisti no Discovery Channel.
– Nesse aspecto, não sou tão evoluída quanto ela.
– Quer então que eu te amarre?
– De preferência! E tem mais!
– Mais?
– Seus movimentos devem ser  muito mais contundentes.
– Você diz… no vai e vem?
– Bem forte no “vai”.
– E o “vem”?
– Não me interessa.