Orgone

Numa de minhas intrépidas incursões ao mundo da literatura psicanalítica, deparei-me com uma figura curiosa: Wilhelm Reich. Austríaco da cidade de Dobzau, o rapaz era um aluno carente da faculdade de medicina da Universidade de Vienna quando se encontrou pela primeira vez com o compatriota Sigmund Freud. Pediu ao mestre indicações bibliográficas sobre sexologia e, conversa vai, conversa vem, conseguiu impressionar tanto o já renomado psicanalista que esse lhe encaminhou alguns pacientes, fato que inaugurou sua carreira, antes mesmo de se tornar médico. Dedicou-se com tal entusiasmo ao seu primeiro paciente, uma jovem de dezenove anos, que o caso profissional tornou-se amoroso; deslize não muito incomum cometido pelos terapeutas inexperientes daquele tempo. Após a morte da moça, ocorrida no apartamento onde se encontravam, Reich prosseguiu com seus estudos e suas publicações, cujo enfoque principal era a neurose e suas possíveis causas. Cada vez mais influente, conseguiu fundar diversas clínicas que prestavam gratuitamente aconselhamento sexual para classe operária alemã; algo que causou grande repercussão na época. Polêmico, diante de casos difíceis, costumava usar técnicas muito pouco ortodoxas em suas sessões: colocava o paciente nu e o “massageva” em pontos específicos, no intuito de “dissolver” sua rigidez e trazer à tona lembranças reprimidas, causadas por acontecimentos traumáticos. Acreditava piamente no poder terapêutico do orgasmo, evento que, experienciado adequadamente, conduziria o ser humano não apenas ao mero relaxamento muscular, mas à expansão psíquica e à sublimação espiritual. Em seus escritos, considerava esse poder orgástico uma energia vital, autônoma, onipresente, física como o calor e a luz. Relatou que tal energia, a qual batizou com o nome de Orgone, é visível e sua cor varia nos tons do azul, chegando a afirmar categoricamente que o fenômeno da aurora boreal é uma de suas manifestações. Já residente nos Estados Unidos, Reich decidiu construir um dispositivo, uma cápsula fechada, similar às gaiolas de Faraday, cujo objetivo seria captar essa energia cósmica, transferindo-a ao paciente, devidamente acomodado dentro da cápsula. Dentre os diversos benefícios propagandeados, o dispositivo teria  a propriedade de curar tanto doenças psíquicas, como a neurose, quanto orgânicas, como o câncer. Após a venda de algumas unidades do produto, denominado Acumulador de Orgone, o órgão regulador americano “Food and Drug Administration” (FDA) embargou sua comercialização. Um inspetor constatou que, durante a vigência do embargo, uma unidade do dispositivo foi vendida, fato que tornou o psicanalista réu em processo judicial impetrado pelo órgão. Em 7 de março de 1956, Reich foi condenado a dois anos de prisão e seu colaborador a um ano. Após inúmeros recursos e diversos pedidos de clemência às autoridades, incluindo o futuro presidente Edgar Hoover, diretor do FBI na época, Reich foi conduzido à prisão federal Danbury em março de 1957 e, logo depois, transferido para a prisão federal de Lewisburg. Em 24 de março daquele mesmo ano, quando completou 60 anos, escreveu ao filho adolescente: “Pete, estou calmo, ciente dos meus pensamentos e praticando Matemática a maior parte do tempo…Não se preocupe muito comigo, embora eu sinta que algo vai acontecer… Sei, filho, que você é uma pessoa descente e forte. Nesse mundo tumultuado, vejo agora que um garoto da sua idade deve viver intensamente, a seu modo, o que a vida lhe oferecer, deve digeri-la sem contrair, por assim dizer, uma ‘dor de barriga’, sem se desviar do caminho correto da verdade, da realidade, do honestidade, do jogo limpo…” Anos mais tarde, o filho revelou que visitou o pai muitas vezes na prisão e, em todas  elas, Reich chorava copiosamente. Em 22 de outubro, enviou carta ao filho informando que provavelmente seria solto em 10 de novembro, data que cumpriria um terço da pena em regime fechado, e combinou com o menino um almoço de comemoração no restaurante que sempre frequentavam. Em 3 de novembro, Wilhelm Reich foi encontrado morto em sua cela, completamente vestido, mas com os pés descalços.

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