Judah

Quando ainda existíamos como família, cultivávamos certos hábitos, certos costumes. Um deles era assistir ao épico Ben-Hur de William Wyler, lançado em 1959 e vencedor de 11 Oscar. O costume começou com o advento do VHS e da minha animada disposição para gravar o filme. Lembro-me de passar mais de quatro horas em frente à TV, tenso, atento aos intervalos comerciais repentinos, para que pudessem ser devidamente removidos e a gravação ficasse sem acréscimos indesejados ou cortes adicionais aos que a Rede Globo já fazia. Ao término da epopeia, aliviado e satisfeito, colei cuidadosamente os adesivos na fita para identificá-la, quebrei a lingueta que permitia a gravação e guardei o fruto do meu árduo trabalho em lugar seguro. A partir daí, com a “posse” do filme, passamos a usufruir dele, ao longo dos anos, numa frequência sistemática; melhor dizendo, obsessiva. Acabamos descobrindo que a penosa história do príncipe judeu Judah Ben-Hur (Charlton Heston) não combinava muito bem com o período de carnaval seguido da Quaresma. Nessa época do ano, o filme não tem o mesmo vigor de outros períodos: o sofrimento daquela família judaica, digna representante do povo escolhido por Deus, soa melodramática e não comove; o vilão romano Messala (Stephen Boyd) não provoca ódio avassalador; a condenação do príncipe da Casa de Hur às galés não insufla o desejo de vingança; os trejeitos do sheik Ilberin (Hugh Griffith) não são tão cômicos; a famosa sequência da corrida de bigas perde muito do seu suspense; a cura miraculosa de Mirian (Martha Scott) e Tirzah (Cathy O’Donnell) não se configura tão redentora; a beleza da escrava Esther (Haya Harareet) deixa de ser estonteante. Constatamos, por um procedimento quase científico, que entre os festejos religiosos distribuídos ao longo do ano, o filme se enquadra melhor na semana do Natal, quando todos os seus efeitos ficam sublimados. O fato de termos assistido inúmeras vezes ao filme e conseguido decorar a sequência completa da longa história, os nomes de todos as personagens, incluindo os dos cavalos do herói, e as nuances de cada um dos diálogos, nos deu a segurança para propalar a seguinte recomendação: o filme Ben-Hur deve ser evitado na Quaresma, ter sua sinopse lida na Semana Santa e seus 212 minutos apreciados no período do Advento.

Deixe um Comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s