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CA-86

Acredito ser congênita minha tendência para ideias fixas. Na remota época de minha adolescência, as calculadoras e relógios digitais não me saiam da cabeça. Eu já tinha uma calculadora da Texas Instruments quando meu irmão ganhou de aniversário o primeiro relógio digital lá de casa: aquilo corroeu-me de inveja desde o instante em que ele o colocou no pulso. Contido e indignado, eu o ficava observando manipular os botões e informar as horas a todo momento. O tempo e outras fixações fizeram adormecer aqueles sentimentos, o desejo de substituir o relógio mecânico que pesava no meu braço por um digital. Tempos depois, quando um colega da minha antiga quinta série apareceu com aquele relógio-calculadora, percebi-me inquieto, intranquilo. Além das funções de um relógio avançado, o pequeno dispositivo, com seus vinte botões e um design magnífico, incluía os recursos da enorme calculadora que eu tinha. Lembro-me de dormir pensando naquilo e de passar horas matutando um jeito de ter aquele objeto fantástico atado ao meu pulso. Ocorreu-me então a ideia do escambo: trocaria minha coleção de discos de vinil pelo relógio. Embora a proposta não me parecesse absurda, resolvi consultar meu irmão: “Nossa! Vai dar seus dez discos? Acho que ele vai aceitar!”, disse ele. Naquele dia, partimos para a escola apreensivos, mas convictos do sucesso da troca. Não consegui esperar o intervalo do recreio e, exasperado, aproximei-me do colega lançando-lhe a proposta antes mesmo do início da aula. Ao me pedir para ver os discos, tive a certeza da troca e durante o pequeno trajeto de onde estávamos até minha mochila, houve tempo para imaginar o relógio já no meu braço e fazer planos para desvendá-lo. “Nada feito. Não gosto desses discos. Ha ha ha, alguns cantores eu nem conheço! Você não tem nada melhor não?”, perguntou ele indignado. Hoje consigo enxergar com mais clareza o que se passou comigo após aquela recusa: pior do que a decepção de ver meu plano malograr foi o constrangimento de revelar o meu desejo, a vergonha de haver proposto algo que agora me parecia ridículo, insano. Não me senti humilhado, mas um completo imbecil: as risadas irônicas do colega, corretas, evidenciavam o erro do plano. Resolvi então ser bem mais reservado com as coisas de dentro, guardar certos impulsos somente para mim; pareceu-me a alternativa mais lógica para evitar novos episódios parecidos. Acontece que, para algumas pessoas especiais, somos quase legíveis e a estratégia do esconder-se nem sempre funciona. Certa noite, acordei assustado com o ruído das sandálias do meu pai no corredor e então percebi um incômodo: aquele bem-vindo invasor havia amarrado no meu pulso esquerdo um Casio CA-86 novinho.

3 Comentários Comente
  1. Daniel #

    Definitivamente fantástico.

    31 de maio de 2014
  2. Carlos Spindula #

    Muito legal essa memória, eu tive também um relógio desses, o modelo CA-85, a diferença era os botões pretos ao invés de prateados. Joguei muito nele o joguinho do “mata números”, depois de muito usar por ano o display vazou, tenho ele ainda guardado.

    22 de abril de 2017
    • Obrigado pelo comentário Carlos! Legal saber que o texto te trouxe boas recordações. Abraços.

      22 de abril de 2017

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