Bonobo

Li em algum lugar que, certa vez, fizeram uma pesquisa com crianças que pegaram os pais no flagra, fazendo sexo. A impressão geral dos pequeninos é que se tratava de algo violento, uma espécie de briga, de alguém batendo em alguém. Lembrei-me desse fato quando um amigo me contou sobre o curioso comportamento dos macacos bonobos. A história é a seguinte: há uma superfamília de primatas que agrupa os chamados hominoideos. Até 1980, tal superfamília se subdividia em três famílias: a “Hylobatidade”, à qual pertencem os gibões; a “Hominidae”, à qual pertence o homem; e a “Pongidae”, que agrupava orangotangos, gorilas, chimpanzés e bonobos. Estudos genéticos mostraram que tal classificação estava equivocada: orangotangos e gorilas eram, na verdade, parentes mais próximos do homem; chimpanzés e bonobos, mais próximos ainda, formaram conosco uma nova tribo. A família “Pongidae” foi extinta e a “Hominidae” ficou maior. Nessa populosa e animada família dos hominídeos, os chimpanzés e bonobos são nossos primos primeiros, os gorilas, nossos primos de segundo grau e os orangotangos, primos de terceiro grau. Os chimpanzés e bonobos, embora irmãos, são bastante diferentes. Acredita-se que a formação do Rio Congo, na África, tenha sido responsável pela diferenciação das espécies: o chimpanzé habita o norte do rio e os bonobos, a região sul. A sociedade dos chimpanzés é liderada pelos machos e a dos bonobos é matriarcal. Além das diversas peculiaridades morfológicas de cada uma dessas duas espécies, chama a atenção uma particular diferença comportamental: o papel da relação sexual. Numa disputa por território, enquanto os chimpanzés brigam, os bonobos transam. Numa disputa por comida, os chimpanzés brigam, os bonobos transam. Um conflito de relacionamento, os chimpanzés o resolvem brigando e os bonobos, transando. Uma conquista ou uma vitória provoca tapas e socos entre os chimpanzés, tal qual a comemoração dos jogadores de futebol americano, mas os bonobos transam. Enfim, quando submetidos à certos tipos de excitação, os bonobos lançam mão da relação sexual para resolvê-los e os chimpanzés, da briga. Foi nesse ponto da história que me lembrei das crianças flagrando seus pais na cama. Perguntei a mim mesmo do porquê dessa lembrança e após passar algum tempo matutando (foto), ocorreu-me que as crianças interpretaram aquele acontecimento como um chimpanzé o faria: “Estão brigando!”. Georg Groddeck disse que elas têm conhecimento desse tipo de relação, já sabem o que é aquilo, mas ainda não a compreendem. Ora, se uma relação sexual é vista pelos honestos olhos infantis como um ato de violência, se bonobos e chimpanzés transam e brigam, respectivamente, para aliviar as mesmas tensões que lhes afligem, então copular e lutar são comportamentos irmãos, são manifestações diferentes de um mesmo fenômeno psíquico, presente tanto no “Homo Sapiens” quanto em seus primos primeiros.

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