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Inflexão

Ultimamente, tenho vivenciado certos eventos que me indicam, de uma forma sutil, que estou ficando velho ou, pelo menos, ultrapassado. Um dia desses, voltando para casa, vi duas meninas – acredito com cerca de 16 anos – com dificuldades para recolocar a corrente na coroa de uma bicicleta. Ofereci ajuda e após o término do serviço, recebi um “Obrigado, Tio!”. Permaneci ali, parado, e enquanto elas se afastavam alegremente, refleti sobre aquele agradecimento inesperado. Lembrei-me quando, meses antes, entrei na seção de cd’s de uma loja e indaguei de uma jovem funcionária se eles tinham alguma coisa do Morrissey. Atordoada, ela me perguntou: “Quéimm??”. Esses dois acontecimentos, aliados a outros de menor intensidade, ainda não tinham sido suficientes para confirmar minhas suspeitas, até esse último final de semana, quando a certeza me ocorreu. Estava eu numa festa para adolescentes onde, entre outras atrações ruidosas, shows de música “teen” eram projetados. Entre eles, houve um que causou frisson na garotada e curioso como sou, fui lá pra ver. Bom, parafraseando o irritadiço Caetano Veloso, pensei comigo: “Ainda não havia para mim Lady Gaga. A tua mais mais completa tradução.” Diferente de outros expoentes do mundo pop, a excêntrica Lady, canhestra e disforme, não conseguiu  que a pirotecnia daquele espetáculo amenizasse sua falta de talento, a pobreza de sua performance. Dotada de um tagarelice ímpar, cacoete que a fazia vomitar frases desconexas intermináveis antes de cada uma das “músicas”, a moça revelou-se entediante, chata, um pé no saco. A mim, um fã de pop, seu formato artístico não me empolgou, não me cativou; sequer me interessou, pois retirou-lhe toda a beleza, até sua débil sensualidade. Trata-se, portanto, de mais um produto mal acabado da indústria do entretenimento. A contraposição entre minha conclusão rabugenta e o clima de euforia que se estabeleceu na festa explicitou um fato inexorável: não sou mais adaptável a novas gerações. Dobrei, portanto, o Cabo da Boa Esperança. Atravessei, de modo irreversível, a inflexão geométrica.

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  1. Para mim foi há uns 4 anos, quando fui com uma amiga comprar um Liquid Paper e a mocinha da papelaria não tinha a menor ideia sobre o que falávamos. Difícil foi achar um termo que substituísse, porque pra mim Liquid Paper é que nem bombril.

    1 de novembro de 2012

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