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Arquivo de

Veredicto

Eu estava na quarta série primária e a professora de Português, tia Ângela, fazia parte daquele grupo de pessoas que me intimidavam. Eu ainda tinha destas coisas naquela época: temor de autoridades, principalmente quando eram rigorosas. Lembro-me de ficar amedrontado na aula em que tia Ângela informou sobre o livro que precisaríamos ler, objeto de avaliação da famigerada “ficha literária”. Esse era o apelido sofisticado que se dava para uma prova sobre os dados da história e sua “correta” interpretação. Havia uma delas por semestre e, naquela aula, fomos informados que seríamos avaliados quanto à leitura da obra teatral Auto da Compadecida, do turrão Ariano Suassuna. Ao chegar em casa, informei, ansioso, sobre a premência na compra do livro: era necessário começar a ler o quanto antes, pois eu já sabia da minha dificuldade no ramo da interpretação de textos. De posse da obra, iniciei imediatamente os esforços que resultaram, até a data da prova, em duas leituras completas e várias outras que cobriam trechos específicos da história. Na véspera da ficha literária, fiz uma revisão geral e constatei, segundo minha avaliação, que estava pronto para o que desse e viesse, que me tornara um especialista nas aventuras e desventuras de João Grilo. Como já mencionei aqui no Extrato, padeço de problemas crônicos com expectativas positivas, desde tenra idade. Teimosas, elas sempre rejeitaram a materialização; comportamento que não foi diferente com a expectativa do sucesso na ficha. Quando recebi a nota, um rubro e odioso “4”, enxerguei-me o único condenado naquele julgamento da história: o Salvador de Suassuna havia sido misericordioso com todos, exceto comigo. Creio que tenha sido esse veredicto injusto que, desde então, me impede de ler o renomado autor paraibano.

Anjos


Local: Basilica di Santa Maria in Trastevere (Roma)
Equipamento: SAMSUNG VLUU ST100
Exposição: abertura f/3.7, velocidade 1/45s e ISO240
Pós processamento: Apple Aperture 3

Orgone

Numa de minhas intrépidas incursões ao mundo da literatura psicanalítica, deparei-me com uma figura curiosa: Wilhelm Reich. Austríaco da cidade de Dobzau, o rapaz era um aluno carente da faculdade de medicina da Universidade de Vienna quando se encontrou pela primeira vez com o compatriota Sigmund Freud. Pediu ao mestre indicações bibliográficas sobre sexologia e, conversa vai, conversa vem, conseguiu impressionar tanto o já renomado psicanalista que esse lhe encaminhou alguns pacientes, fato que inaugurou sua carreira, antes mesmo de se tornar médico. Dedicou-se com tal entusiasmo ao seu primeiro paciente, uma jovem de dezenove anos, que o caso profissional tornou-se amoroso; deslize não muito incomum cometido pelos terapeutas inexperientes daquele tempo. Após a morte da moça, ocorrida no apartamento onde se encontravam, Reich prosseguiu com seus estudos e suas publicações, cujo enfoque principal era a neurose e suas possíveis causas. Cada vez mais influente, conseguiu fundar diversas clínicas que prestavam gratuitamente aconselhamento sexual para classe operária alemã; algo que causou grande repercussão na época. Polêmico, diante de casos difíceis, costumava usar técnicas muito pouco ortodoxas em suas sessões: colocava o paciente nu e o “massageva” em pontos específicos, no intuito de “dissolver” sua rigidez e trazer à tona lembranças reprimidas, causadas por acontecimentos traumáticos. Acreditava piamente no poder terapêutico do orgasmo, evento que, experienciado adequadamente, conduziria o ser humano não apenas ao mero relaxamento muscular, mas à expansão psíquica e à sublimação espiritual. Em seus escritos, considerava esse poder orgástico uma energia vital, autônoma, onipresente, física como o calor e a luz. Relatou que tal energia, a qual batizou com o nome de Orgone, é visível e sua cor varia nos tons do azul, chegando a afirmar categoricamente que o fenômeno da aurora boreal é uma de suas manifestações. Já residente nos Estados Unidos, Reich decidiu construir um dispositivo, uma cápsula fechada, similar às gaiolas de Faraday, cujo objetivo seria captar essa energia cósmica, transferindo-a ao paciente, devidamente acomodado dentro da cápsula. Dentre os diversos benefícios propagandeados, o dispositivo teria  a propriedade de curar tanto doenças psíquicas, como a neurose, quanto orgânicas, como o câncer. Após a venda de algumas unidades do produto, denominado Acumulador de Orgone, o órgão regulador americano “Food and Drug Administration” (FDA) embargou sua comercialização. Um inspetor constatou que, durante a vigência do embargo, uma unidade do dispositivo foi vendida, fato que tornou o psicanalista réu em processo judicial impetrado pelo órgão. Em 7 de março de 1956, Reich foi condenado a dois anos de prisão e seu colaborador a um ano. Após inúmeros recursos e diversos pedidos de clemência às autoridades, incluindo o futuro presidente Edgar Hoover, diretor do FBI na época, Reich foi conduzido à prisão federal Danbury em março de 1957 e, logo depois, transferido para a prisão federal de Lewisburg. Em 24 de março daquele mesmo ano, quando completou 60 anos, escreveu ao filho adolescente: “Pete, estou calmo, ciente dos meus pensamentos e praticando Matemática a maior parte do tempo…Não se preocupe muito comigo, embora eu sinta que algo vai acontecer… Sei, filho, que você é uma pessoa descente e forte. Nesse mundo tumultuado, vejo agora que um garoto da sua idade deve viver intensamente, a seu modo, o que a vida lhe oferecer, deve digeri-la sem contrair, por assim dizer, uma ‘dor de barriga’, sem se desviar do caminho correto da verdade, da realidade, do honestidade, do jogo limpo…” Anos mais tarde, o filho revelou que visitou o pai muitas vezes na prisão e, em todas  elas, Reich chorava copiosamente. Em 22 de outubro, enviou carta ao filho informando que provavelmente seria solto em 10 de novembro, data que cumpriria um terço da pena em regime fechado, e combinou com o menino um almoço de comemoração no restaurante que sempre frequentavam. Em 3 de novembro, Wilhelm Reich foi encontrado morto em sua cela, completamente vestido, mas com os pés descalços.

Tensão

A banda de formação mais recente que fecha, em definitivo e com grande estilo, o seleto conjunto de grupos de rock dos quais sou ardoroso fã de rock chama-se Radiohead. Não me recordo ao certo como fiquei sabendo de sua existência: seria de algum ranking das grandes obras do rock? de alguma recomendação do meu irmão? de alguma reportagem? de alguma crítica? Não sei. Creio que a origem se perdeu nesse labirinto que está se tornando a minha memória. Certas lembranças, contudo, ainda não se esconderam e estão de tal forma disponíveis que ainda é possível revivê-las: hoje, ao ouvir a primeira faixa do álbum The Bends (1995), me pego reflexivo, intrigado, como na primeira vez. Indago reiteradamente a mim mesmo que sentimento é esse que aparece junto com os acordes ao final do segundo verso: angústia? medo? desespero? ansiedade? Cada um ou todos eles misturados não conseguem definir adequadamente o rápido e intenso estado de tensão que me invade. A reação que me acomete é repetir essa passagem algumas vezes, sem esperar o término da música; algo que faço sempre que me proponho a revisitar o álbum. A partir daí, dessa espécie de masturbação, sinto-me preparado para ouvir as doze músicas completas; e elas, incansáveis, sempre se reapresentam marcantes, intrigantes.

Sábado

De vez em quando, o pai levava os dois filhos à loja de discos para que escolhessem algum de sua preferência. Quando avisados sobre o dia do evento, os meninos se empolgavam e já começavam a pensar no que iriam escolher. Um desses eventos caiu justamente num sábado frio e chuvoso e os garotos temiam que a saída pudesse ser adiada. Quando ouviram movimentação no quarto do pai, já bem cedo, foram lá, receosos, e perguntaram carinhosamente se iriam de fato ao shopping, comprar os discos. A reposta afirmativa fez com que os dois corressem para se aprontar e depois se sentassem quietos no sofá da sala, um do lado do outro, aguardando o seu benfeitor. Tão logo ele apareceu na sala, os meninos se levantaram e, sem tomar café direito, os três partiram para iniciar aquele animado sábado musical. Ao chegar à loja, os meninos se dividiram, cada qual para a seção de seu interesse. O pai, na maioria das vezes, aproveitava o ensejo para também tentar achar algo que gostava ou pudesse vir a gostar. Enquanto os filhos procuravam, chamou-lhe a atenção, por alguma razão completamente desconhecida, uma pequena e escondida área da estante onde estavam perfilados discos de Punk Rock. Curioso, começou a passar um por um, observando o pitoresco das capas, quando, de repente, interrompe e repara demoradamente uma delas. O mais velho percebeu o espanto do pai e foi tomado por uma enorme apreensão, pois tinha sido ele quem havia indicado aquela nova loja, diferente da que costumavam frequentar. O pai então retira o disco, chama um funcionário e o mostra para ele:
– Rapaz, como vocês têm coragem de colocar um disco deste pra vender?
– Doutor, é a febre do momento!
– Se causa febre é porque transmite algum tipo de doença.
– O dr. sabia que as músicas são muito sinceras?
– Não tenho a menor dúvida! Uma delas se chama Vou Fazer Cocô! Não existe nada mais sincero do que isso!
– As letras são secas, simples e diretas. É a voz da juventude.
Nesse momento, o pai mira alternadamente a juventude estampada na cara dos filhos, já atônitos e taquicárdicos, mostra-lhes a capa do disco, apontando nervosamente o título, e de onde estava, diz a eles em volta alta: “O nome do disco é Pisando na M…! Sabem o que significam esses três pontinhos aqui? Sabem? MERDA! MERDA!”. Enquanto os funcionários gargalhavam e os meninos já davam aquele sábado como perdido, o pai resolveu esperar pela escolha dos filhos. Decidiu que não compraria nada para ele daquele antro que dava “voz à juventude”. Assim, o mais velho saiu com um álbum dos Beatles, o outro levou um do Jackson 5 e o pai deixou a loja indignado com o que é considerada a obra-prima do grupo Garotos Podres. Anos mais tarde, um dos filhos me contou que nunca mais voltaram lá.

Judah

Quando ainda existíamos como família, cultivávamos certos hábitos, certos costumes. Um deles era assistir ao épico Ben-Hur de William Wyler, lançado em 1959 e vencedor de 11 Oscar. O costume começou com o advento do VHS e da minha animada disposição para gravar o filme. Lembro-me de passar mais de quatro horas em frente à TV, tenso, atento aos intervalos comerciais repentinos, para que pudessem ser devidamente removidos e a gravação ficasse sem acréscimos indesejados ou cortes adicionais aos que a Rede Globo já fazia. Ao término da epopeia, aliviado e satisfeito, colei cuidadosamente os adesivos na fita para identificá-la, quebrei a lingueta que permitia a gravação e guardei o fruto do meu árduo trabalho em lugar seguro. A partir daí, com a “posse” do filme, passamos a usufruir dele, ao longo dos anos, numa frequência sistemática; melhor dizendo, obsessiva. Acabamos descobrindo que a penosa história do príncipe judeu Judah Ben-Hur (Charlton Heston) não combinava muito bem com o período de carnaval seguido da Quaresma. Nessa época do ano, o filme não tem o mesmo vigor de outros períodos: o sofrimento daquela família judaica, digna representante do povo escolhido por Deus, soa melodramática e não comove; o vilão romano Messala (Stephen Boyd) não provoca ódio avassalador; a condenação do príncipe da Casa de Hur às galés não insufla o desejo de vingança; os trejeitos do sheik Ilberin (Hugh Griffith) não são tão cômicos; a famosa sequência da corrida de bigas perde muito do seu suspense; a cura miraculosa de Mirian (Martha Scott) e Tirzah (Cathy O’Donnell) não se configura tão redentora; a beleza da escrava Esther (Haya Harareet) deixa de ser estonteante. Constatamos, por um procedimento quase científico, que entre os festejos religiosos distribuídos ao longo do ano, o filme se enquadra melhor na semana do Natal, quando todos os seus efeitos ficam sublimados. O fato de termos assistido inúmeras vezes ao filme e conseguido decorar a sequência completa da longa história, os nomes de todos as personagens, incluindo os dos cavalos do herói, e as nuances de cada um dos diálogos, nos deu a segurança para propalar a seguinte recomendação: o filme Ben-Hur deve ser evitado na Quaresma, ter sua sinopse lida na Semana Santa e seus 212 minutos apreciados no período do Advento.

Cama


Local: Hotel Esplendor Palermo Soho (Buenos Aires)
Equipamento: Nikon D300S com objetiva Sigma 17-35mm EX
Exposição: abertura f/4, velocidade 1/250s e ISO1000
Pós processamento: Apple Aperture 3

Atrator

Em janeiro de 1963, o matemático e meteorologista norte-americano Edward Lorenz publicou o artigo Deterministic Non Peridodic Flow, no qual propôs o seguinte sistema de equações para modelar a convecção do ar numa célula atmosférica:

x'=\sigma(y-x)
y'=x(\rho-z)-y\,\,\,,
z'=xy-\beta z

onde as incógnitas x,y,z são funções do tempo e descrevem o estado do sistema. As constantes \sigma,\rho,\beta são parâmetros físicos e foram especificados com os valores 10, 8/3 e 28, respectivamente. Lorenz esperava que o sistema “caminhasse” para uma das três situações de convecção estável conhecidas, dentro do contexto do problema. Uma vez atingida tal situação, o sistema apresentaria os mesmos valores de x,y,z indefinidamente. Entretanto, ele observou que, nessas condições, ao perturbar o sistema a partir de um dos pontos de convecção estável, as soluções encontradas para os sucessivos instantes de tempo não convergem para nenhuma das outras situações estáveis. As soluções se comportam como se estivessem “indecisas”: os valores orbitam na vizinhança de um dos pontos de estabilidade e então mudam repentinamente de trajetória em direção ao outro ponto, repetindo essas oscilações e saltos de uma maneira irregular, não-periódica, imprevisível. Par causa desse comportamento, Lorenz chega a concluir que previsões meteorológicas suficientemente antecipadas são impossíveis. Em termos matemáticos, o modelo de Lorenz é um sistema de equações diferenciais; tópico de uma disciplina que eu já havia cursado na faculdade. Anos mais tarde, precisei utilizá-la para fins mais relevantes do que simplesmente conseguir o mínimo para aprovação nas provas e durante a fase de recordação dos assuntos, comecei a esboçar um resumo, a fim de registrar o estudo. Por alguma razão que não me recordo, eu o interrompi, mas  com o advento do Extrato, ocorreu-me retomá-lo e também outros trabalhos iniciados que ficaram esquecidos. Primeiramente, publico para download esse Estudo de Equações Diferenciais, ainda em estágio inicial, para o qual dedico uma página específica, ilustrada pelo bonito gráfico das soluções do modelo de Lorenz no seu estado instável, conhecido como Atrator de Lorenz.

CA-86

Acredito ser congênita minha tendência para ideias fixas. Na remota época de minha adolescência, as calculadoras e relógios digitais não me saiam da cabeça. Eu já tinha uma calculadora da Texas Instruments quando meu irmão ganhou de aniversário o primeiro relógio digital lá de casa: aquilo corroeu-me de inveja desde o instante em que ele o colocou no pulso. Contido e indignado, eu o ficava observando manipular os botões e informar as horas a todo momento. O tempo e outras fixações fizeram adormecer aqueles sentimentos, o desejo de substituir o relógio mecânico que pesava no meu braço por um digital. Tempos depois, quando um colega da minha antiga quinta série apareceu com aquele relógio-calculadora, percebi-me inquieto, intranquilo. Além das funções de um relógio avançado, o pequeno dispositivo, com seus vinte botões e um design magnífico, incluía os recursos da enorme calculadora que eu tinha. Lembro-me de dormir pensando naquilo e de passar horas matutando um jeito de ter aquele objeto fantástico atado ao meu pulso. Ocorreu-me então a ideia do escambo: trocaria minha coleção de discos de vinil pelo relógio. Embora a proposta não me parecesse absurda, resolvi consultar meu irmão: “Nossa! Vai dar seus dez discos? Acho que ele vai aceitar!”, disse ele. Naquele dia, partimos para a escola apreensivos, mas convictos do sucesso da troca. Não consegui esperar o intervalo do recreio e, exasperado, aproximei-me do colega lançando-lhe a proposta antes mesmo do início da aula. Ao me pedir para ver os discos, tive a certeza da troca e durante o pequeno trajeto de onde estávamos até minha mochila, houve tempo para imaginar o relógio já no meu braço e fazer planos para desvendá-lo. “Nada feito. Não gosto desses discos. Ha ha ha, alguns cantores eu nem conheço! Você não tem nada melhor não?”, perguntou ele indignado. Hoje consigo enxergar com mais clareza o que se passou comigo após aquela recusa: pior do que a decepção de ver meu plano malograr foi o constrangimento de revelar o meu desejo, a vergonha de haver proposto algo que agora me parecia ridículo, insano. Não me senti humilhado, mas um completo imbecil: as risadas irônicas do colega, corretas, evidenciavam o erro do plano. Resolvi então ser bem mais reservado com as coisas de dentro, guardar certos impulsos somente para mim; pareceu-me a alternativa mais lógica para evitar novos episódios parecidos. Acontece que, para algumas pessoas especiais, somos quase legíveis e a estratégia do esconder-se nem sempre funciona. Certa noite, acordei assustado com o ruído das sandálias do meu pai no corredor e então percebi um incômodo: aquele bem-vindo invasor havia amarrado no meu pulso esquerdo um Casio CA-86 novinho.

Almoço

– Já te falei pra não me beijar assim! -avisou a babá.
– Por que?
– Porque sempre fica roxo e o meu namorado não acredita quando eu digo que um menino de cinco anos me deu um “chupão”. Agora desce do meu colo e senta aqui pra você almoçar.
– Não quero!
– Depois você vai ficar com fome. Senta aqui… Come… Isso! Gostou do verdinho?
– Não! Eu quero leite!
– Agora é hora de almoçar! Continua comendo… Nossa, que calor! Segura a colher pra mim que eu vou tirar meu casaco.
– Aqui???
– É!
– Quer dizer que eu vou ver seus peitinhos? Oba!

Claustro


Local: The Cloisters Museum (New York)
Equipamento: Nikon D700 com objetiva Nikkor 24-120mm ED
Exposição: abertura f/10, velocidade 1/50s e ISO200
Pós processamento: Apple Aperture 3

Tráfego

Alguns acreditam que o comportamento instável dos malucos é influenciado pelo ritmo lunar. Observações empíricas conduzem à teoria de que a lua cheia exacerba os doidos. Não por acaso, costumamos chamá-los lunáticos, ou desejosos de jogar pedra na lua. Foi justamente numa fase de lua cheia que algo inusitado aconteceu na Catedral Santa Terezinha em Uberlândia. Eu frequentava as missas dominicais da Catedral às 7:15 da manhã, religiosamente, e assim evitava a multidão de outros horários e também eventos pitorescos. Entretanto, a linha ideológica do pároco rejeitava a ideia de restringir o acesso às dependências da Catedral a quem quer que fosse: ricos e pobres, retos e pecadores, sãos e pinéis. Afinal, somos todos filhos de Deus, feitos à imagem e semelhança do Criador. Por isso, nós, fiéis atentos, éramos frequentemente distraídos pela presença pitoresca, constrangedora e repugnante de um mendigo maltrapilho ou de alguém desprovido das plenas faculdades mentais. No domingo ao qual me referi, impressionou-nos a quantidade e a efusividade dos doidos. Inquietos, andavam o tempo todo, percorriam a igreja descrevendo os mais diversos caminhos: circulares, curvilíneos, transversais, diagonais, etc… Rodeados por aquele tráfego, ficávamos aliviados quando alguns saíam pela porta principal, numa vã esperança de que tinham ido embora. Alguns costumavam parar e nos encarar seriamente, algo que nos causava um certo desconforto. Os momentos de silêncio eram quebrados por grunhidos, conversas sem sentido e ruídos repentinos. No início da liturgia eucarística, cansado daquele andar desenfreado, um deles resolve se sentar ao chão, bem no meio da igreja, à vista de todos. Durante o silêncio quase absoluto que reinava após a consagração do pão, um outro maluco se aproximou dele e disse em alta voz: “Hei, levanta daí rapaz! Vai embora! Deixa a gente em paz! O padre não gosta de doido dentro da igreja não!”. De fiéis silenciosos, viramos plateia e caímos na gargalhada.

Davos-Platz

Desde que me entendo por gente, gosto de livros. A leitura veio bem depois; primeiro, atraiu-me o objeto livro: a capa, o papel, a fonte, o cheiro, a textura, o folhear. Quando pequeno, eu costumava passar um bom tempo admirando a imponente estante da sala, preenchida parcialmente pelos livros técnicos do meu pai. A forma pela qual ele os distribuia era regular e padronizada: assunto, autor, do exemplar mais alto para o mais baixo. Se algum deles estivesse disposto fora do padrão, eu mesmo o consertava. Ao  longo do tempo, foram chegando os romances da minha mãe, assinante do Círculo do Livro, e a área desocupada  da estante encheu-se gradativamente de cor, ganhou finalmente vida. Por alguma razão, não era necessário padronizá-la como a seção técnica, e o móvel, agora inteiro e equilibrado, revelou-se perfeito. Gigantesco para a minha estatura de menino, eu conservava um respeito quase religioso por ele, pelo incomensurável esforço humano sustentado nas suas prateleiras de madeira: quanto trabalho, quanto tempo, quanto escrever e reescrever para produzir aquela quantidade infindável de páginas. Havia um livro específico que me chamava mais a atenção do que os outros: volumoso, bem costurado, com capa dura, papel branco, letras pequenas, cheiro de novinho e delicioso de folhear. Na sobrecapa, havia uma foto intrigante de um castelo ao pôr do sol e acima de suas torres, lia-se: A Montanha MágicaThomas Mann. A partir desse livro e das reminiscências daquele tempo, ocorreu-me, recentemente, acrescentar àquela atração sensorial infantil, que nunca arrefeceu, o interesse pela Literatura. Iniciei escalando a Montanha até chegar ao sanatório de Davos-Platz, só para ver como era, e junto com Hans Castorp, prolonguei deliberadamente minha estada.

1975

O compositor Roberto Carlos faleceu em dezembro de 1979, após lançar o seu vigésimo primeiro álbum. Desde então, restou apenas um cantor, um intérprete de suas glórias passadas, uma inserção na programação natalina da Rede Globo.  A morte foi acobertada pelos mais próximos: o cantor, a emissora e até o “amigo de tantos caminhos e tantas jornadas”. A estratégia, dali em diante, seria ludibriar o público, através da intensa promoção televisiva e da transformação do popular em popularesco, a fim de retirar-lhe a mais remota lembrança do compositor falecido. Roberto Carlos Braga, o cantor, passou então a viver do sucesso do saudoso compositor, passou a plagiar canções de compositores desconhecidos, a enaltecer a vida dos caminhoneiros, a tentar nos incutir a ideia de que as gorduchinhas, as nanicas e as coroas são sensuais e atraentes, passou a expor indiscriminadamente sua religiosidade de ocasião e a praticar outras babaquices do gênero. Muitos caíram nessa artimanha, talvez a maioria; não eu: vi e vejo, a medida que o tempo passa e a rabugice me domina, cada vez mais nítida a descontinuidade, ocorrida no início dos anos 80, na obra daquele que alguns ainda se atrevem a chamar de “Rei”. Seu reinado, para mim, findou-se após o álbum Roberto Carlos (Na Paz Do Seu Sorriso) . Como “súdito”, fico até aí; fico com as músicas que costumava ouvir domingo, bem cedinho, no rádio. Naquela época longínqua, como não tínhamos os álbuns, ou os “discos”, as canções estavam dispersas, eram entidades autônomas que não faziam parte de um trabalho. Hoje, uma outra era na indústria fonográfica e na minha capacidade financeira, tenho condições de avaliar com um pouco mais de propriedade as músicas do compositor, no contexto de seus discos. Recentemente, ocorreu-me fazer tal análise e o trabalho de 1975, Roberto Carlos (Além do Horizonte), revelou-se excelente.

Absorção

Os marombeiros criaram para si uma ceita bastante rígida, para qual a estrita disciplina é um fundamento e o mínimo de sensatez, um empecilho. O dogma a ser seguido prega a hipertrofia muscular definida, estética que é disseminada sob o pseudônimo de “saúde”. A gordura é substância sacrílega, e sua concentração no corpo, por menor que seja, onde quer que ocorra, é pecado mortal. Se ela não for queimada aqui, nesta vida, será queimada, junto com o marombeiro infiel, no fogo eterno. Essa organização religiosa se vale da Educação Física e da Nutrição, sempre indecisas e instáveis, como meios para o seu fim: o inchaço formatado do corpo. Nesse contexto, considero-me um fiel desvirtuado, daqueles que criam uma religião para si, escolhendo apenas as regras que lhes convém. Uma delas, que elegi perfeitamente adequada aos meus propósitos, é o consumo do delicioso suplemento chamado “whey protein”, ou proteína isolada do leite da vaca. Oficialmente, o suplemento, como ocorre com qualquer outro, não promete absolutamente coisa alguma, mas a doutrina marombística evangeliza que essa proteína concentrada garante o ganho rápido de massa muscular, desde que haja uma rotina intensa de exercícios e levantamento de peso. A pia crença nesse mandamento específico conduziu-me, ávida e apressadamente, a uma dessas lojas de suplementos esportivos. Consegui, embora ansioso e maravilhado, entabular conversa com o vendedor sobre as inúmeras opções de whey disponíveis na loja. Nesse estado de voracidade, costumo desligar o mecanismo do raciocínio, e aí as forças instintivas assumem totalmente o controle. Assim, uma das opções convenceu-me de imediato após o bombado funcionário ter propagandeado: “Meu brother, o whey dessa marca aqui tem uma absorção tão rápida que ele nem chega no intestino!”