Cuca

Uma vez sedimentados os tópico iniciais do Cálculo Diferencial e Integral, devidamente avaliados por  três provas ao longo do primeiro semestre, acreditava-se que estivéssemos aptos a cursar a famigerada disciplina Cálculo II, motivo de terrorismo dos colegas mais antigos, alguns deles agonizando a sua terceira reprovação. O novo curso apresentaria o domínio do Cálculo com mais dimensões: da reta passaríamos ao plano e depois ao cubo. Haviam três turmas e uma delas, a nossa, estava sob responsabilidade de uma professora, recém-chegada do seu longo curso de doutorado. À princípio, julgamo-nos afortunados, já que os trejeitos da doutora, franzina e quase delicada, não nos provocara maiores temores. Lembro-me de alguém dizer: “Vai ser moleza!”. Naquela época, ainda éramos moleques que apelidavam os outros: entre nós, passamos a chamar a doutora pela alcunha de Cuca, personagem célebre do preconceituoso Monteiro Lobato no seu Sítio do Picapau Amarelo. O formato e a tintura capilares daquela que achávamos inofensiva lembravam quase que imediatamente a horrenda figura do seriado da Rede Globo. O problema de se criar uma expectativa positiva e acreditar piamente nela é que o destino raramente a confirma, rejeitando-a parcial ou totalmente. Quis o nosso destino optar pela rejeição total e a Cuca, de vítima de nosso escárnio, transformou-se em bruxa sádica, comedora de criancinhas. Aquela mulher frágil adquiriu, como o Cálculo, outras dimensões. Para não sermos devorados, tivemos que nos privar ainda mais do sono para então suar sangue nas derivadas parciais, nas integrais duplas, triplas, de superfície, no Teorema de Green, etc… Ao final do curso, aprovado e pensativo, tive vontade de transcrever o soneto abaixo, na página em branco anterior a contracapa do livro texto O Cálculo com Geometria Analítica Vol. II, de Louis Leithold.

Soneto XXXII

Quando a chuva cessava e um vento fino
franzia a tarde tímida e lavada,
eu saía a brincar, pela calçada,
nos meus tempos felizes de menino.

Fazia, de papel, toda uma armada;
e, estendendo meu braço pequenino,
eu soltava os barquinhos, sem destino,
ao longo das sarjetas, na enxurrada…

Fiquei moço. E hoje sei, pensando neles,
que não são barcos de ouro os meus ideais:
são feitos de papel, são como aqueles,
perfeitamente, exatamente iguais…

– Que os meus barquinhos, lá se foram eles!
Foram-se embora e não voltaram mais!
 

Guilherme de Almeida (Nós, 1917)

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