Pular para o conteúdo

Arquivo de

Descanso


Local: Hotel Transamérica (Ilha de Comandatuba)
Equipamento: Nikon D700 com objetiva Nikkor 28-120mm ED
Exposição: abertura f/10, velocidade 1/80s e ISO250
Pós processamento: Apple Aperture 3

Brincar

Alguns dos grandes músicos só admitiam bancar o professor se o aluno já tivesse
superado, de maneira incontestável, o seu período de formação. Numa linguagem mais
popular, só aceitavam o “filé”. Um desses músicos deparou-se, certa vez, com os olhos curiosos do filho de nove anos que, acercando-se dele, o observavam trabalhar ao piano. Disse o filho: “Papai, eu também sei tocar. Deixa eu te mostrar”. O menino então fez uma baita confusão sonora com as teclas do instrumento. Após aquela exibição, o pai pensou um pouco e disse: “Acho que você gostar mais disso aqui”. Ele então posicionou o polegar direito na tecla da clave de sol e tocou sol – lá – si – dó – si – la – si – dó – ré.  Durante aquele prolongado momento, o pai distraiu-se com a dificuldade do filho que tentava aprender a sequência que ele criara, quando, enfim,  precisou retornar ao trabalho. Alguns dias depois, o garoto aproximou-se do pai, ao piano, e disse novamente:  “Papai, eu também sei tocar. Deixa eu te mostrar”. Lembrou-se, sem erro algum, daquele “sol – lá – si – dó – si – la – si – dó – ré” de dias atrás. O pai pensou um pouco e disse: “Acho que você vai gostar mais disso aqui”. Repetiu-se então aquele momento mágico entre os dois, motivado por uma outra sequência de notas. E assim, após uma série desses momentos mágicos, o músico fez o filho cantar e, ao ouvi-lo, teve a estranha recordação de uma infância que não viveu. Descobriu como era bom brincar e empolgou-se: do alto da sua estatura, escreveu 66 peças para os aprendizes.

Cuca

Uma vez sedimentados os tópico iniciais do Cálculo Diferencial e Integral, devidamente avaliados por  três provas ao longo do primeiro semestre, acreditava-se que estivéssemos aptos a cursar a famigerada disciplina Cálculo II, motivo de terrorismo dos colegas mais antigos, alguns deles agonizando a sua terceira reprovação. O novo curso apresentaria o domínio do Cálculo com mais dimensões: da reta passaríamos ao plano e depois ao cubo. Haviam três turmas e uma delas, a nossa, estava sob responsabilidade de uma professora, recém-chegada do seu longo curso de doutorado. À princípio, julgamo-nos afortunados, já que os trejeitos da doutora, franzina e quase delicada, não nos provocara maiores temores. Lembro-me de alguém dizer: “Vai ser moleza!”. Naquela época, ainda éramos moleques que apelidavam os outros: entre nós, passamos a chamar a doutora pela alcunha de Cuca, personagem célebre do preconceituoso Monteiro Lobato no seu Sítio do Picapau Amarelo. O formato e a tintura capilares daquela que achávamos inofensiva lembravam quase que imediatamente a horrenda figura do seriado da Rede Globo. O problema de se criar uma expectativa positiva e acreditar piamente nela é que o destino raramente a confirma, rejeitando-a parcial ou totalmente. Quis o nosso destino optar pela rejeição total e a Cuca, de vítima de nosso escárnio, transformou-se em bruxa sádica, comedora de criancinhas. Aquela mulher frágil adquiriu, como o Cálculo, outras dimensões. Para não sermos devorados, tivemos que nos privar ainda mais do sono para então suar sangue nas derivadas parciais, nas integrais duplas, triplas, de superfície, no Teorema de Green, etc… Ao final do curso, aprovado e pensativo, tive vontade de transcrever o soneto abaixo, na página em branco anterior a contracapa do livro texto O Cálculo com Geometria Analítica Vol. II, de Louis Leithold.

Soneto XXXII

Quando a chuva cessava e um vento fino
franzia a tarde tímida e lavada,
eu saía a brincar, pela calçada,
nos meus tempos felizes de menino.

Fazia, de papel, toda uma armada;
e, estendendo meu braço pequenino,
eu soltava os barquinhos, sem destino,
ao longo das sarjetas, na enxurrada…

Fiquei moço. E hoje sei, pensando neles,
que não são barcos de ouro os meus ideais:
são feitos de papel, são como aqueles,
perfeitamente, exatamente iguais…

– Que os meus barquinhos, lá se foram eles!
Foram-se embora e não voltaram mais!
 

Guilherme de Almeida (Nós, 1917)

Zuído

Padeço de um mal denominado tinido, nome técnico para zumbido no ouvido. Trata-se de um ruído, ou zuído, de alta frequência; aquele mesmo que nos acompanha quando saímos de um lugar onde havia música alta. A intensidade sonora de ambientes inóspitos, como a de uma boate, por exemplo, fatigam os sensores ciliares do ouvido, responsáveis por converter a onda sonora em sinal elétrico e emiti-lo ao cérebro. O zuído, consequência desse cansaço ciliar, cessa após uma boa dormida, a não ser que o tempo e a intensidade sonora aos quais o ouvido foi submetido tenham sido tamanhos que a fadiga atingiu o nível de dano irreversível, adequadamente chamado trauma acústico. Nesse caso, como é o meu, o impertinente som “fininho” permanece ligado dia e noite, faça chuva ou faça sol, aqui ou na China. O ambiente inóspito que causou o meu trauma foi um fone de ouvido plugado a um iPod, emitindo o som filtrado e artificialmente turbinado do mp3, a 50% do volume máximo. O fato aconteceu após ouvir, a alguns anos atrás, o bom álbum Inside In/Inside Out, do grupo The Kooks. Graças a esse malfadado evento, desisti completamente do mp3 e dos fones de ouvido. De qualquer maneira, segue minha avaliação do álbum.

Alucinações

Não há melhor exercício para a elevação da autoestima feminina do que transitar pelas dependências de uma faculdade de Engenharia Mecânica; melhor até do que passar por um canteiro de obras. A escassez acentuada de mulheres torna o ambiente insalubre, poluído pelo excesso dos odores produzidos pela testosterona. Há um clima de aridez, próprio das regiões desérticas, e uma paisagem repugnante, monótona e sem cor. O aluno, peregrino nessa terra seca e arenosa, quando se depara com uma moça de contornos minimamente definidos, alucina e julga ver Juliana Paes. O caminhar daquela criatura maravilhosa, que ingenua e inadvertidamente passeia pelo local, o inunda de ansiedade e estranhos fenômenos oriundos da região pélvica passam a incomodá-lo. Ele vê que outros colegas, igualmente ansiosos, começam a rodear a única fêmea-alvo da região e se irrita. Pensa em brigar pelo que já era seu, mas percebe-se um idiota, um macho desesperado numa cena selvagem do Animal Planet. Constrangido, ele recua e volta a peregrinar. Bem mais à frente, uma outra, também de contornos retilíneos,  passa por ele e se transforma repentinamente, diante de seus olhos, na Paula Fernandes.

Wilson

Há filmes, realmente muito bons, que não me despertam a vontade de vê-los novamente. Há outros, considerados não tão bons,  que quanto mais assisto, mais eu gosto. Um exemplo desses últimos é O Náufrago (Cast Away), do diretor Robert Zemeckis. O texto se apoia em ingredientes típicos do cinema hollywoodiano: tensão amorosa, fracasso temporário, sofrimento, triunfo glorioso e final feliz. Sustentado por esses pilares nada originais, o filme narra a superação de um sujeito chamado Chuck Noland (Tom Hanks) que se vê apartado do mundo, numa pequena ilha deserta. Ali, ele experimenta suas desventuras e fabrica para si um companheiro, um confidente, alguém que o acompanha durante o período do sofrimento. Essa história, ingênua e cativante, deixa evidente a difícil luta do homem com a frustração, o medo, a solidão. Fica exposta a fragilidade humana. Costumo esquecer desse fato reiteradamente e talvez seja por isso que eu precise revisitar o filme.

Função

Aprendi  o conceito de função na antiga e saudosa oitava série. A professora de matemática desenhou dois conjuntos, relacionou os elementos de um com os elementos do outro por meio de setas e disse: “Estão vendo essas setas? Isso é uma função”. Todo o meu ensino superior de engenharia não corrigiu esse fundamento desvirtuado,  apenas o varreu para debaixo do tapete: lecionar conceitos atrapalha o pragmatismo de um curso tecnológico. Há alguns anos, quando folheava as primeiras páginas do livro Non Linear Problems of Elasticity, de Stuart Antman, percebi a falha em meu conceito. Resolvi, então, investigar o que é de fato uma função e descobri que não se trata de uma seta, mas que é um par: um conjunto e uma regra. Considerando que D é um conjunto e f uma regra, então o parzinho (D,f) é uma função se para qualquer elemento d de D existir o valor f(d). Enfatizando um pouco mais a forma do conceito, (D,f) é chamado função quando

d\mapsto f(d)\,,\, \forall d\in D\,.

A regra f nada mais é do que a especificação de como serão associados valores aos elementos do conjunto D, chamado domínio da função. Por exemplo, se tal especificação for quadrática, dado o domínio \mathbb{R} dos reais, então a descrição de f é

  f(x)=ax^2+bx+c\,,\, a\neq 0\,,

onde a,b,c \in \mathbb{R} e x, denominada variável ou argumento da regra, é um símbolo que representa um elemento do domínio; no caso, um número real. Tivesse eu essa breve informação, algo simples até para alguém que considera Matemática um obstáculo a ser transposto, não teria me assustado com as explicações do eminente professor Antman.

Tango


Local: Tango La Ventana (Buenos Aires)
Equipamento: Nikon D300S com objetiva Nikkor 28-80mm
Exposição: abertura f/3.5, velocidade 1/10s e ISO1600
Pós processamento: Apple Aperture 3

Placebo

Meu avô, exímio troçador, contou que numa sexta-feira bastante desanimada, um colega
de trabalho esbravejou na repartição:
– Que diabos! Essa dor de cabeça me incomoda todo o dia; o dia inteiro.
– Pois eu sei de um remédio muito bom. É tiro e queda! – anunciou meu avô.
– Então me fala qual é compadre!
– Chama Regulador Xavier.
– E isso é bom mesmo?
– Nunca ouviu falar nesse remédio? – perguntou meu avô, surpreso.
– Não!
– Pois é o único que resolve! Toma uma colherada à noite: hoje, amanhã e depois.
Diante da prescrição tão segura e do silêncio circunspecto dos demais colegas, o rapaz animou-se com o tratamento, dizendo que o seguiria à risca. Na segunda, veio ao meu avô:
– Compadre, vim aqui te agradecer. Estou bem melhor.
– Fico satisfeito, compadre.
– Só uma coisinha: ontem à noite, depois da última colherada, minha mulher me perguntou por que raios eu estava tomando remédio pra regras. Ocorreu-me então ler a bula e vi que não havia menção alguma à dor de cabeça. O compadre sabia disso?
– Compadre, presta atenção: remédio bom  é remédio que cura. Curou?
– Curou!
Depois disso, a repartição não resistiu e caiu na gargalhada.

Raridade

Alguém me disse que Nelson Rodrigues disse que nem toda mulher gosta de apanhar, apenas as normais. Refletindo, cá com meus botões, sobre essa frase um tanto quanto polêmica, cheguei à seguinte conclusão: se a afirmação do grande dramaturgo for realmente verdadeira, esse traço masoquista  feminino é um comportamento raro, dada a incontestável raridade do fenômeno “mulher normal”.

Mentiroso

A menina pergunta ao pai:
– Papai, compra pra mim o Lego Friends?
– Que Lego é esse, filha?
– É um Lego só pra meninas. Tem várias coleções.
– Tá certo. Qual delas você quer?
– Pode ser todas.
– Nossa! Todas não dá. Lego é um brinquedo muito, muito caro.
– Caro? Deixa de ser mentiroso, Papai! Como é que pode ser caro um brinquedo que vem todo desmontado?

35

Muito mais do que em religião, eu acredito em Deus. A ideia de uma criatura sem um criador me é, no mínimo, descabida. Ele existe sim e se manifesta: mostra-nos o feio e o belo, nos agrada e nos perturba, define o espaço, molda a matéria. Não é Pai, porque brinca como uma criança. Não é Filho, porque não merece cuidados. Não é Espírito, porque é concreto. O que é afinal? Não sei. O que sei é que ele gosta de música: dispôs do talento de Sylvius Leopold Weiss e escreveu a Sonata 35 para alaúde.

Receituário

O “psicanalista selvagem” Georg Groddeck, já citado aqui no Extrato, disse que dor lombar em mulheres é manifestação somática de insatisfação sexual; resultado de uma espécie de revolta do id. Ele explica que a região é responsável pelo principal movimento do prazer feminino, o vai e vem que define o cavalgar da mulher no homem. Eis um exercício que deveria fazer parte integrante do receituário fisioterapêutico: tanto elas, amazonas, como nós, mangas-largas marchadores, seguiríamos o tratamento com afinco.

Enurese

O menininho Sigmund Freud, ao ser repreendido pelo pai por ter feito xixi na cama, esbravejou: “Quando eu crescer, vou comprar pra você a melhor cama da cidade!”. No gênio, o mal da arrogância é pecado original; no idiota, mortal.

Questão

Quando adolescente, recebi as seguintes instruções sobre sexo: “Você vai ler um livro e tomar muito cuidado com masturbação, porque a prática  excessiva compromete o sistema nervoso central”. A conversa familiar sobre este polêmico campo da vida humana resumiu-se a isso. Pouco tempo depois, me foi entregue  A Nossa Vida Sexual, do médico ginecologista alemão Fritz Kahn (foto). A instrutiva conversa deixou marcas profundas e ultimamente tem me assombrado a seguinte questão: será que meu problema de insônia é realmente psicológico?