Alívio


O pai costumava andar de cueca pela casa. Certo dia, a filha pré-adolescente pergunta:
– Papai, você gostaria de ter um pinto maior?
– Filha…. Estou satisfeito com o que tenho! Afinal, consegui fabricar você e seu irmãozinho.
– Pois o meu homem vai ter um pinto bem grande.
– Filha…. Tamanho não é documento!  – alertou a mãe assustada.
– Ufa! Ainda bem! – exultou o filho caçula.

13.500Hz

hi-res-musicLembro-me que num post bastante antigo, publicado numa época em que este blog ainda conseguia atrair a atenção de alguns poucos leitores mais pacientes, divulguei consternado uma condição que me acompanha ainda hoje, denominada tecnicamente acufeno, mais popularmente apelidada de zumbido ou zuído. No meu caso, trata-se de uma percepção auditiva, sem estímulo externo, que se manifesta por meio de um sinal acústico cuja frequência orbita em torno de 13.500Hz. O ruído se assemelha ao de um assobio bem fininho, quase no limite do agudo, e essa situação seria relativamente suportável não fosse o silvo implacavelmente persistente: eu desconheço o silêncio, por exemplo, no prelúdio do sono, quando os volumes do ambiente estão baixos. A única variação no citado barulho ocorre em sua amplitude, ou seja no volume do assobio: uma boa noite de sono, esporte e gingko-biloba diminuem o volume; mas cansaço, álcool, açúcar, cafeína, música, travesseiro alto e antibióticos aumentam. Entre aquele post longínquo e este, tenho notado os itens elevadores do volume mais contundentes que os diminuidores, e o efeito cumulativo têm sido a notável degradação de minha capacidade auditiva, particularmente no ouvido direito. Devo dizer que abdicar dos estimuladores da citada altura sonora não me causa maiores descontentamentos, exceto de um deles, música, que para mim é algo indissociável desta aventura denominada viver. Assim, privado dos demais itens maléficos, resolvi lidar com a questão da música aproveitando a oportunidade dada por nossos honoráveis médicos ao se declararem ignorantes quanto à terapêutica e às causas do problema: diante disso, eu próprio criei as minhas. Em primeiro lugar, vamos às causas. Nos últimos tempos, invadiu-me a crença de que esta minha condição foi provocada porque passei a ouvir música veiculada em arquivos digitais no formato mp3 e similares. Explico. Esses formatos de arquivos musicais digitais, dentre os quais o mp3 é o exemplo mais difundido, são classificados como lossy ou “com perdas”. Quando a música alcançou os pequenos dispositivos móveis, a necessidade por espaço foi premente, demanda que os volumosos arquivos musicais brutos não atendem. Chamo arquivo bruto aos arquivos digitais gerados por conversores analógico-digitais como um passo na longa cadeia dos processos de gravação musical. Em linhas gerais, os arquivos lossy são um subproduto desse processo de gravação, uma vez que resultam de uma rotina de filtragem, quando são retiradas dos arquivos brutos grandes parcelas de informação. Seguida dessa filtragem, que elimina pedaços considerados pelos “especialistas” como inaudíveis à percepção média, há um processo de compactação do arquivo lossy, que o torna atrativamente pequeno, cerca de cinco a dez vezes menor que os arquivos brutos. As informações num arquivo bruto extraído de CD, por exemplo, caminham num fluxo de cerca de 1000 kilobits por segundo, enquanto que nos lossy ditos de alta “qualidade” o fluxo é de 250 kilobits por segundo. Diante desse sofisticado tipo de corte ou censura, minha crença funda-se na convicção nada científica de que a música desses arquivos, por ser retalhada, é desnatural, contrafeita. Sem saber lidar com ela, o ouvido então reage, ruidoso. Voltei então aos meus velhos CD’s e já estava quase conformado com a impossibilidade de ouvir música no celular quando a comunidade audiófila, sempre refratária aos arquivos lossy, inventou a tal música de alta resolução (Hi-Res Music). O audiófilo é uma espécie de maluco para o qual a busca da perfeição sonora adquire contornos quase místicos: ele procura ouvir, através de seus requintados aparelhos de som, a voz de Deus. Indo muito além de minha demanda por qualidade de CD nos arquivos musicais digitais, a música de alta resolução dos audiófilos se baseia no fato comprovado cientificamente de que a resolução do ouvido humano é maior que a taxa de amostragem de 44.100Hz utilizada na gravação de CDs e outras mídias. Explico. O sinal analógico, contínuo, precisa ser discretizado nos zeros e uns do formato digital; e assim o conversor, para gerar o arquivo digital, amostra o sinal analógico a cada 1/44.100 segundos. Ocorre que nas frequências sonoras mais audíveis, o ouvido humano médio consegue discernir diferenças sonoras num intervalo de até 1/192000 segundos. Assim, estupefato, pude concluir que até nos arquivos brutos, há perda audível de informação. A partir daí, passei a adotar os arquivos digitais com música de alta resolução, comprimidos mas não filtrados, chamados arquivos Hi-Res lossless (sem perda), como uma alternativa aos formatos lossy. Há diversos sites que vendem músicas nesses formatos, cuja taxa de amostragem supera os 44.100Hz do CD; algo que torna o citado fluxo de informações superior aos 2000 kilobits por segundo. Surgiu então um problema: o que fazer com minha extensa coleção de CDs, todos amostrados com os míseros 44.100Hz? Novamente os audiófilos, aqueles menos ortodoxos, vieram em meu socorro com um recurso denominado upsample, que significa elevar a taxa de amostragem do CD interpolando matematicamente a informação digital. Fiz então o upsample de todos os meus CD’s, colocando-os em formato Hi-Res Lossless. Esse enorme esforço foi motivado pela percepção do menor efeito elevador do zumbido pela música de alta resolução em comparação à musica lossy: auto-sugestão? Pode ser, mas o fim alcançado justificou amplamente o meio adotado, auto-sugestivo ou não. Quanto à terapêutica que criei, prefiro não revelar os detalhes para não ser acusado de curandeirismo, ou de exercício ilegal da medicina. O que posso dizer é que há elementos da medicina caseira – garrafadas e preparados – e também terapia sonora, pela qual se acredita que ouvir sistematicamente um sinal sonoro dotado de todas as frequências do espectro audível, exceto aquela do zumbido (13.500Hz no meu caso), pode reduzir imensamente seu volume.

Moribundo

ricardop
Não seria correto dizer que o texto a seguir signifique uma retomada da produção outrora publicada em meus saudosos tempos de blogueiro ávido por reconhecimento; mas igualmente impreciso seria afirmar categoricamente que o Extrato está morto. Assim, ocorre-me que o laudo mais adequado para a real situação deste blog classificaria-o como agonizante e a causa mais provável para essa agonia, que não luta nem pela vida e muito menos pela morte, seja um completo desinteresse pelo tal reconhecimento. Aqueles afeitos a palavras mais médicas diriam que o quadro é estável, sem sinais evidentes de alteração. Mas se não é intenção do texto iniciar uma nova fase, fazer o blog retomar sua vida plena, o que deseja afinal o autor deste post? Respondo: divulgar um custoso trabalho, já que os canais com maior poder de divulgação – e também de satisfação para este modesto escritor – não têm interesse em fazê-lo. Então vamos lá. Neste ano de 2016, menos conturbado que revelador, ano em que desisti da república federativa do brasil, tornando-me parte integrante e definitiva daquele grupo de brasileiros que consideram esse país uma merda ou uma merda irremediável, para quem aprecia os pleonasmos enfáticos; então, neste ano de 2016, comemora-se, ou melhor, reverencia-se, os quatrocentos anos da morte de William Shakespeare. Devo confessar que antes desses eventos que buscaram mostrar à esta geração bem informada, e mal formada, a atualidade e genialidade do escritor inglês, eu era um ignorante quase completo em relação a ele e seus escritos; digo “quase” porque eu já havia lido Hamlet e Macbeth, sem dar o devido valor a essas obras monumentais. Durante uma conversa muito pouco superficial, um amigo chamou-me a atenção para as idiossincrasias desta minha mente perturbada através da figura de um personagem chamado Ricardo Terceiro, da peça homônima escrita por Shakespeare em 1592. Num primeiro momento, decepcionei-me ao saber da absoluta falta de originalidade das minhas questões mais perturbadoras porque, segundo meu cultíssimo amigo, elas já foram muito bem retratadas 424 anos atrás. De decepções desse tipo costuma acorrer-me a curiosidade: corri então até minha estante pretensiosa, no local onde repousa aquilo que eu acreditava ser a coleção completa das obras de William Shakespeare em português, publicada pela editora Nova Aguilar, traduzida pela renomada crítica de teatro Barbaba Heliodora. Qual não foi minha surpresa ao constatar a ausência da peça Ricardo Terceiro nos dois volumes que com tanta dificuldade eu havia adquirido, neste país feito mais de homens que de livros. Informa a primeira página do segundo volume que o terceiro volume, das peças históricas, o que me falta e também às livrarias, está no prelo, ou seja, em fase final de publicação. E assim ele está desde 2009: no prelo. Para instigar ainda mais minha angustiante curiosidade, a obra Ricardo Terceiro, entre outras consideradas históricas, está obviamente presente nesse terceiro volume ainda não publicado. Diante dessa dura realidade, ocorreu-me três alternativas: a) esperar a editora Nova Aguilar, comprada há dois anos, lançar num futuro indefinido a coleção com os três volumes; b) ler o que há disponível: livro de bolso da editora L± c) ler a peça em inglês; d) ler a peça em inglês e também preencher a lacuna de não se encontrar uma boa tradução da obra para o português. A impaciência descartou a opção “a”, o respeito próprio descartou a “b”, a disposição considerou a “c” e a onipotência decidiu-se pela “d”. Assim, após oito meses de intenso e prazeroso trabalho, e após o previsível desprezo da indústria editorial, entrego a este blog moribundo a tradução de Ricardo Terceiro num português despreocupado em ser atual, em ser moderno, palatável, coloquial. Como é de praxe, o trabalho está livremente disponível para download no menu Trabalhos, Tradução, William Shakespeare. Até onde sei, e não foi rápida e superficial minha pesquisa, esta tradução para o português que aqui publico é a melhor hoje disponível.

Opiniões

FreudHá uma importante informação que o Extrato omitiu num post anterior, no qual divulga o trabalho intitulado A Mente Deformável: ele foi apresentado também como parte do processo avaliativo de um curso no qual este perturbado blogueiro esteve matriculado ao longo deste ano – eis uma das razões de por que o Extrato não foi muito abastecido em 2015. Tendo sido efusivamente enaltecido por seu avaliador, A Mente Deformável pediu, ou melhor, exigiu uma complementação; que também foi requerida explicitamente pelo próprio avaliador. Inflado por esse raro elogio a um produto seu, esta minha mente perturbada resolveu prontamente atender à tal requisição e tratou de apresentar a dita continuação como parte de um novo ciclo avaliativo do curso. Ocorreu que o segundo avaliador, diferente do primeiro, incomodou-se com o caráter propositivo da continuação, sem falar em sua notória impaciência para retornar ao primeiro trabalho e coletar os conceitos fundamentais que no segundo foram livre e abundantemente utilizados. O resultado foi um conjunto significativo de problemas levantados e uma avaliação mediana. Devo confessar que nesses dois eventos, tive a rara oportunidade de poder refletir e mesclar opiniões antagônicas num contexto praticamente idêntico, dada a similaridade dos trabalhos: um é a simples continuação do outro. Descartados os extremos, a euforia do primeiro avaliador e o preconceito do segundo, pude decidir com maior convicção pela continuidade futura das irreverentes ideias propositivas que me aventurei a colocar no papel, levando em conta os efetivos pontos de melhoria levantados pelos eminentes professores. Apresento então aqui no Extrato, no menu “Trabalhos”, “Psicanálise”, “Artigos Ingênuos” o texto intitulado Topografia da Mente Deformável, a necessária continuação do primeiro. Agradeço, desde já, eventuais comentários dos interessados.