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Plataforma


Local: Vermilion Lakes Road (Banff)
Equipamento: Nikon D700
Exposição: abertura f/4.2, velocidade 1/3200s e ISO400
Pós processamento: Adobe Photoshop Express

Improvisação

Ao final da tarde do dia 24 de janeiro de 1975, o grande pianista de Jazz Keith Jarret, vindo de Zurique na Suíça, chegava na cidade alemã de Colônia para um concerto que faria no Opera House da cidade. O longo trajeto foi percorrido de carro e acrescentou uma boa dose de cansaço àquele que já o extenuava, tanto por conta dos apresentações realizadas dias antes na Suíça quanto das noites de insônia, provocada por sua implacável fibromialgia. Após se instalar no hotel, Jarret foi direto para o Opera House onde faria um rápido aquecimento antes da apresentação. Ocorreu que a equipe técnica do local do evento deveria ter alugado um Bösendorfer 290 Imperial, solicitado por Jarret, já que a casa não dispunha desse grand piano, mas por algum motivo desconhecido terminou por disponibilizar um Bösendorfer da casa, de ensaio, bem menor que o imperial, e ainda por cima desafinado, particularmente nas notas extremas do teclado. Jarret reclamou quando viu o piano, mas a organização argumentou que não havia mais tempo suficiente para arranjar um Imperial. Ao começar a tocar, notou a brutal desafinação do instrumento e mais uma vez reclamou, quando a organização alegou que uma afinação adequada demandaria muitas horas de trabalho. Diante disso, Jarret disse que não se apresentaria. O chefe da organização tentou apelar para a benevolência do pianista, que acabou aceitando realizar o show porque como ele iria ser gravado todo o equipamento necessário para tal já havia sido instalado. Tais contratempos acabaram adiando o início da apresentação, mas restava alimentar o músico, que ainda não havia jantado. Os organizadores haviam reservado mesa num restaurante italiano local, mas uma confusão na cozinha atrasou tanto a entrega dos pratos que o pianista conseguiu dar apenas algumas poucas garfadas na comida, correndo para o local do evento, que teria início às 23:30, horário já bastante adiantado. Durante a apresentação, executada totalmente na improvisação musical, fazendo uso de uma braçadeira, por conta das dores musculares, Jarret explorou apenas as teclas do meio do piano, cuja afinação estava mais aceitável. Para a sorte dos amantes da música que não estavam na plateia, o gravador portátil Telefunken M-5 que registrou a performance do pianista viabilizou um dos discos mais importantes da história do Jazz: “The Koln Concert”, lançado em novembro de 1975. Bem, finda essa pequena grande história, que será mais importante que meus breves comentários subsequentes, passo a contar de sua enorme influência – sem contar a do disco supracitado – sobre minha prática psicanalítica. Na literatura psicanalítica, Sigmund Freud nos informa que uma sessão de psicanálise deve se processar num ambiente de desamparo, para que o paciente, entre outros benefícios, compreenda e supere suas dificuldades a partir de forças internas, com o mínimo de estimulação externa por parte do analista. Além disso, Wilfred Bion nos fala sobre a interferência maléfica da memória do analista, sobre ele fazer uso, numa sessão de psicanálise, de suas lembranças sobre o caso do paciente. Para o eminente teórico, lembranças estimulam o surgimento de preconceitos, de dogmas na mente do analista, que dificultam ou impedem atingir o chamado insight. Assim, cada sessão deveria ser historicamente “autocontida”, com início, meio e fim. Quando li a história do disco “The Koln Concert”, percebi Keith Jarret imerso num ambiente onde o desamparo de Freud e o esquecimento de Bion estavam presentes: desamparo porque faltou-lhe comida no estômago e instrumento de trabalho nas mãos; esquecimento porque dor e cansaço “esquecidos” viabilizaram a execução do extraordinário, do imprevisível. No desenrolar despretencioso dessa analogia, percebi também que faltou a Freud e Bion falar sobre um importante elemento que Jarret executou com maestria em Colônia: improvisação. Aproveito então o notável pianista para complementar os notáveis psicanalistas: uma sessão de psicanálise também deve ocorrer num ambiente de improvisação, no qual a virtude da espontaneidade na relação analista-paciente possa se manifestar sem maiores interferências. Se há preparação prévia, entendida nesse caso como o oposto de improvisação, então há ensaio e só se ensaia algo que já foi previamente definido. No âmbito das psicoterapias, ensaiar é dispor das teorias consagradas padronizando-as num modelo médico de diagnóstico e tratamento. Mas modelos de causa e efeito como esse não fazem parte da abordagem psicanalítica. Ademais, improvisação é fundamentalmente um produto da expressão emocional humana, algo que vem de dentro, das entranhas, quase onírico, e que se manifesta através das habilidades físicas do ser humano. Sendo assim, uma sessão de psicanálise deve ser algo desprovido de padrões, de relações de causa e efeito, único, singular, que acontece num período irrecuperável de tempo, envolvida por desamparo, esquecimento e improvisação.

Amy Adams

Entre Nossos Ouvidos

Artigo intitulado “Between The Ears” escrito por Robert Harley para a revista Stereophile em 29/05/2009, traduzido por mim.

Audiófilos buscam constantemente formas para aprimorar a experiência de ouvir reproduções musicais. Substituem-se pré-amplificadores, comparam-se processadores digitais, calibram-se toca-discos, avaliam-se cabos de caixas-de-som, visitam-se revendedores, e, é claro, leem-se revistas – tudo isso para tentar se aproximar um pouco mais daquilo que chamamos música.

Todas essas ações têm algo em comum: elas são tentativas físicas para incrementar o prazer de apreciar música. Mas há outra maneira de atingir tal objetivo muito mais efetiva do que qualquer calibração, qualquer substituição de componente, e mais gratificante que ter carta branca em qualquer loja de áudio high-end. E é gratuita.

Refiro-me ao que acontece entre nossos ouvidos e não àquilo que os sensibiliza. A habilidade – ou falta dela – de livrar a mente de distrações e deixar a música falar por si só tem enorme influência sobre como a apreciamos. Você já se perguntou por que um mesmo aparelho de som tocando a mesma música te proporciona diferentes formas de envolvimento com ela? A única variável plausível é o nosso estado de espírito.

Como nós audiófilos nos preocupamos com a qualidade sonora, somos mais suscetíveis a permitir que certos pensamentos atrapalhem o falar musical. Tais pensamentos geralmente estão relacionados com aspectos da característica sonora da música. A dimensionalidade sonora carece de profundidade? Os graves estão com extensão adequada? Os agudos estão granulados? Como está a performance do meu aparelho em comparação com os das revistas?

Infelizmente, esse modo de pensar é estimulado por revistas especializadas em áudio high-end. A descrição da qualidade sonora de um produto – principalmente seus atributos técnicos de performance – é a razão fundamental para que tais revistas sejam impressas, não o quanto de satisfação emocional o equipamento sonoro acrescenta. Infelizmente, esse quanto é inefável: palavras não conseguem expressar o vínculo entre ouvinte e música que certos produtos estabelecem mais facilmente que outros. Sendo assim, o que nos resta são meras descrições de características sonoras específicas, deixando a impressão de que a audiofilia é sobre dissecar e comentar criticamente a música, e não sobre se vincular mais profundamente ao seu significado.

Poucos meses após eu me tornar um crítico de áudio (e também um ouvinte muito mais crítico), entrei numa espécie de crise: percebi-me não mais apreciando música da forma que sempre apreciara. Ouvir música tornou-se uma tarefa, uma necessidade ocupacional, ao invés da experiência emocional que me fez seguir carreira no mundo do áudio. Meu dilema foi acentuado pela ideia equivocada de que ao ouvir música, em qualquer circunstância, eu sempre teria uma opinião sobre a qualidade de sua reprodução. Música para mim ficou em segundo plano em relação ao som; passou a ser uma coleção de partes interconectadas, um produto a ser desmembrado e estudado, não algo que me marcasse emocionalmente. Comecei a notar, entretanto, que sempre após o período de escrever minhas críticas mensais, a animação me retornava. Eu deixava de ser um crítico e voltava a ser um amante da música. Colocava para tocar meus álbuns favoritos, e não aqueles que só mostravam o que o aparelho de som estava fazendo. A música como um todo, não uma coleção de artefatos interligados, voltava a ser objeto da minha atenção. Era como se um enorme peso tivesse sido retirado das minhas costas. Naqueles poucos dias que precediam o inevitável retorno à próxima avaliação crítica mensal dos produtos que estavam sendo instalados, eu me recuperava do tempo perdido.

Mas novamente lá estava eu, numa sala de áudio especialmente montada para tal, raques cheios dos equipamentos de reprodução mais sofisticados do mundo, com um emprego no qual eu passava a maior parte do tempo ouvindo música, e mesmo assim eu não conseguia apreciá-la, na grande maioria das vezes. O som do meu carro me proporcionava mais satisfação musical do que isso tudo. Algo estava muitíssimo errado.

Essa experiência precipitou uma catarse que me forçou a reavaliar, entre outras coisas, o que afinal significava ouvir música. Decidi então ignorar o som físico na maior parte do tempo e deixar a música me dizer por ela própria quais componentes eram melhores que outros. A partir daí, avaliação crítica e raciocínio analítico ficaram em segundo plano em relação à satisfação musical. Comecei a ouvir as músicas que eu gostava ao invés de colocar pra tocar álbuns de diagnóstico que supostamente iriam me revelar as características específicas do produto. O impulso de desmontar, ouvir o som físico, e sempre formar julgamentos gradualmente desapareceu. Disso resultou que hoje aprecio música muito mais do que em qualquer outra época da minha vida. Paradoxalmente, som melhor resulta em música melhor apenas quando o primeiro é ignorado. Tal clarividência incrementou minhas habilidades críticas como ouvinte de música: hoje tenho um feeling muito mais apurado para identificar quais produtos vão produzir satisfação musical de longo prazo.

No entanto, ouvir analiticamente por meio de álbuns-diagnóstico deve continuar sendo parte vital do processo de avaliação. Da mesma forma, é essencial informar as características sônicas específicas dos produtos em análise: um comprador em potencial deve saber como os produtos se comportam em termos sonoros e ser capaz de decidir qual ou quais se adequam ao que está procurando. Mas esse tipo de análise diagnóstica deixou de ser dominante; tornou-se apenas um dos aspectos a avaliar. Ademais, percebi ao longo do tempo que informação obtida por meio de raciocínio analítico é uma forma menor de conhecimento sonoro-musical, enquanto o feeling sobre a qualidade de um produto – sua habilidade de veicular música – é a forma mais elevada de tal conhecimento.

Tais experiências apontam para um problema mais profundo, de como racionalidade e impulso à dissecção, como métodos para viabilizar o entendimento, dominam o pensamento ocidental. A racionalidade tradicional enxerga o todo como uma coleção de partes. A necessidade de dissecar, classificar e atribuir uma estrutura hierárquica são os pilares da racionalidade. Nossa formação ocidental faz isso parecer tão natural que sempre enxergamos qualquer entidade como sendo construída a partir de partes componentes. Por que seria diferente com música reproduzida em aparelhos de som? Sendo assim, ouvimos na música reproduzida os agudos, os graves, os médios, dimensionalidade, detalhes e sonoridade. Mas com que frequência num show ao vivo você desmembra o som da mesmo forma que o faz quando ouve áudio hi-fi? Não sei você, mas eu nunca experienciei música ao vivo em termos de balanço tonal, profundidade, falta de granularidade, ou outras características que costumamos atribuir ao som reproduzido.

Considere duas abordagens para se entender uma flor. A racionalidade tradicional iria pegá-la, dissecá-la, classificar suas partes e tentar conhecê-la, documentando seus mecanismos. Outra forma de entender a flor seria apenas e tão somente olhar para ela, apreciando sua beleza, desvendando as sutilezas de sua forma, cor, cheiro, textura, absorvendo sua essência. A primeira abordagem produz um tipo de conhecimento – importante, sem sombra de dúvidas – mas não é um conhecimento completo.

Ademais, a primeira abordagem não destrói a própria flor durante o processo? Terminada a dissecção, ficamos sem coisa alguma. Eis por que eu não conseguia mais apreciar música: o desmembramento analítico consome justamente aquilo que se busca entender. Permitir a intrusão do pensamento intelectual destrói o vínculo singular que se estabelece entre música e ouvinte.

As grandes conquistas da racionalidade – tornar música algo reproduzível, por exemplo – nos fez arrogantes a tal ponto que passamos a negligenciar as virtudes da experiência não racional. A racionalidade consegue identificar suas conquistas como prova de sua superioridade. O tipo de conhecimento gerado pela experiência não racional não é capaz de apontar para algo tangível como manifestação de seu valor. Pelo contrário, o valor da experiência não racional é totalmente interno e desconhecido para quem nunca passou por ela previamente.

Mas não é só ouvir analiticamente o som que atrapalha a apreciação musical. Qualquer atividade intelectual aplaca a experiência. O que importa é a qualidade dessa experiência – o aqui e agora – não a atribuição de um valor definido em algum padrão que foi divulgado em alguma revista de áudio high-end, comparações com outros aparelhos de som, ou qualquer outra coisa que nos distraia da música propriamente dita.

Não há nada de errado em estar insatisfeito com seu equipamento; isso é o que viabiliza sua melhoria. E um aparelho de som melhor aprimora a experiência musical. Mas você não deveria apreciar menos música se seu equipamento é pior que o do seu amigo, ou se você não tem o produto mais avançado, ou se o som que você ouve não se iguala ao que está escrito na revista. Todas essas coisas são artificialidades que são sobrepostas à realidade, não a realidade em si. O que importa realmente é a experiência – imediata, que existe naquele presente momento. Qualquer outro pensamento ou abstração intelectual diminui nosso potencial para nos tornarmos unos com a música.

Nesse modo de pensar (ou melhor, de não pensar), satisfação musical deixa de ficar dependente de meios externos. Sim, a tecnologia que é capaz de trazer música aos nossos lares é física e externa, mas a satisfação não pode ser vivenciada puramente com base no equipamento, qualquer que seja sua qualidade. Aproximar-se da música é uma forma especial de interação que seu ouvinte tem com ela, interação na qual o equipamento serve apenas como um intermediário. Sem esse estado de espírito, nenhum equipamento, por mais sofisticado que seja, irá prover o que buscamos. Minha perda temporária de satisfação musical, embora tendo à disposição salas especialmente montadas e recheadas com produtos de última geração, confirma esse truísmo.

Continue buscando, por todos os meios ao seu dispor, criticar e melhorar seu aparelho de som: pode ser esse o caminho que irá lhe trazer mais satisfação musical. Mas quando seu disco favorito estiver girando no toca-discos e o ambiente à meia luz, esqueça cabos, pré-amplificadores, acessórios e revistas. Nesse momento, a única coisa que realmente interessa é a música.

Nuvens


Local: Pousada dos Pireneus (Pirenópolis)
Equipamento: Câmera Nikon D300S
Exposição: abertura f/32, velocidade 1/60s e ISO400
Pós processamento: Adobe Photoshop Express

Sobre Como o YouTube Radicalizou o Brasil

Artigo intitulado “How YouTube Radicalized Brazil” escrito por Max Fischer e Amanda Taub para o The New York Times, traduzido por mim.

NITERÓI, Brasil, 11/08/2019 – Quando Mateus Dominguez tinha 16 anos, o YouTube recomendou-lhe um vídeo que mudou sua vida.

Ele fazia parte de uma banda em Niterói, cidade litorânea brasileira, e treinava sua guitarra assistindo a tutoriais on line.

O YouTube instalara pouco tempo antes um poderoso sistema com inteligência artificial que aprendia a partir do comportamento do usuário e recomendava vídeos de outros usuários compatíveis com tal comportamento. Um dia, o sistema o direcionou para um professor amador de violão chamado Nando Moura, que havia conseguido muitos seguidores postando vídeos sobre heavy metal, vídeo games e, principalmente, política.

Vociferando um palavrório típico da extrema direita paranoica, Moura acusava feministas, professores e políticos famosos de promover enormes conspirações. Dominguez terminou capturado por esse discurso.

A medida que se alongava sua permanência no site, o YouTube ia-lhe recomendando vídeos de outras figuras da extrema direita. Uma delas foi o congressista Jair Bolsonaro, à época uma figura marginal da política nacional – mas um verdadeiro herói da comunidade de extrema direita do YouTube no Brasil, onde a plataforma passou a ser mais assistida que todas as redes de televisão, exceto uma.

Ano passado, ele se tornou o presidente Jair Bolsonaro.

“O YouTube se transformou na plataforma de mídia social da direita brasileira”, disse Dominguez, hoje um jovem esguio de 17 anos que afirma querer seguir carreira política.

Membros da nova extrema direita brasileira – desde meros militantes até congressistas nacionais – relatam que o movimento não teria ido tão longe e tão rápido sem a máquina de recomendações do YouTube.

Pesquisas recentes indicam que eles podem estar corretos. O sistema de busca e recomendações do YouTube parece ter sistematicamente encaminhado usuários para canais de extrema direita e de teorias conspiratórias no Brasil.

Uma investigação feita pelo The New York Times no Brasil revela que vídeos promovidos pelo site têm, via de regra, subvertido elementos centrais da vida diária.

Professores relatam rebeldia em salas de aula por conta de alunos que citam vídeos conspiratórios no YouTube ou que, encorajados por seus heróis de direita, filmam escondidos seus instrutores.

Há pais que procuram o “Dr YouTube” para dicas sobre saúde e acabam obtendo apenas desinformação, dificultando as iniciativas públicas para combater doenças como o Zika. Alguns vídeos virais já ameaçaram de morte pessoas adeptas a políticas públicas de saúde.

E na política partidária, uma onda de heróis de direita do Youtube concorreram a cargos eletivos ao lado de Bolsonaro, e alguns deles venceram por margens históricas. Muitos ainda utilizam a plataforma e governam a quarta maior democracia do mundo por meio de zombaria e provocação, turbinadas pela internet.

O sistema de recomendações do YouTube é projetado para maximizar o tempo de acesso, dentre outros objetivos, diz a empresa, mas não favorece ideologia política alguma. O sistema recomenda o que assistir depois, em geral iniciando os videos automaticamente, numa sucessão infinita de sugestões, a fim de nos manter grudados na tela.

Mas as emoções que atraem as pessoas para tais videos – como medo, dúvida e raiva – são características centrais de teorias conspiratórias, e em particular, dizem os especialistas, daquelas da extrema direita.

A medida que o sistema sugere videos cada vez mais provocativos para manter os usuários assistindo, ele pode direcioná-los para conteúdos que jamais conseguiriam encontrar. Ele também é projetado para conduzir usuários a novos tópicos, estimulando novos interesses – uma dádiva para canais como o de Moura, que utilizam a cultura pop como fachada para disseminar ideias da direita radical.

A empresa diz que o sistema é responsável por 70% do tempo total de acesso à plataforma. Como a audiência escala globalmente, alguns especialistas cogitam que o YouTube esteja arrecadando 1 bilhão de dólares por mês.

Zeynep Tufekci, estudioso de mídias sociais, considera tal sistema “um dos instrumentos de radicalização mais poderosos deste século.”

Representantes da empresa contestam a metodologia desses estudos argumentando que os sistemas da plataforma não privilegiam qualquer ponto de vista ou direcionam usuários a extremismos. No entanto, eles admitem alguns dos achados e prometem mudanças.

Farshad Shadloo, um dos porta-vozes da empresa, disse que o YouTube tem “investido pesado em políticas, recursos e produtos” para reduzir a disseminação de informações maléficas, acrescentando que a empresa “têm observado o enorme crescimento do conteúdo autoral no Brasil e que tal conteúdo é um dos mais sugeridos no site.”

Danah Boyd, fundadora da empresa de assessoria Data & Society, atribui como causa da polarização no Brasil à implacável pressão do YouTube para o engajamento de usuários e aos dividendos que isso gera.

Embora escândalos de corrupção e uma profunda recessão já estivessem comprometendo o establishment político brasileiro de modo a provocar na população o desejo de romper com o status quo, Boyd considera a influência do YouTube uma indicação preocupante do impacto crescente dessa plataforma nas democracias do mundo.

“Isso está acontecendo em todos os lugares”, disse.

 

O Partido YouTube

Maurício Martins, vice-presidente municipal do PSL em Niterói, credita grande parte da filiação no partido ao YouTube, incluindo a sua própria.

Certa vez, navegando pelo site para passar o tempo, ele recorda, a plataforma indicou-lhe o video de um blogueiro de extrema direita. Assistiu só por curiosidade. O sistema então sugeriu outro, e outro.

“Antes disso, eu não tinha engajamento político algum”, Martins disse. As recomendações automáticas do YouTube, declarou ele, foram “minha educação política”.

“Aconteceu o mesmo com todo mundo”, revelou.

A crescente influência política da plataforma é percebida nas escolas brasileiras.

“Às vezes, estou assistindo a um vídeo sobre jogo, e de repente aparece um vídeo do Bolsonaro”, relata Inzaghi D., de 17 anos, aluno do ensino médio em Niterói.

Cada vez mais seus colegas estudantes proferem discursos extremistas, citando geralmente como evidência argumentações de heróis como Nando Moura, o guitarrista-conspiracionista.

“É a principal fonte de informação da juventude”, ele disse.

Poucos ilustram tão bem a influência do YouTube quanto Carlos Jordy.

Musculoso e extensamente tatuado – sua mão esquerda exibe um crânio flamejante com olhos de diamante – ele foi eleito vereador em 2017 com pouquíssimas chances de ascender politicamente pela vias tradicionais. Então, Jordy inspirou-se em blogueiros como Moura e seu mentor político Bolsonaro, e passou a concentrar seus esforços no YouTube.

Ele postou videos acusando professores locais de conspirar para doutrinar estudantes no comunismo. Os videos deram-lhe “audiência nacional”, ele disse, e promoveram sua ascensão meteórica, dois anos mais tarde, ao congresso nacional.

“Se a mídia social não existisse, eu não estaria aqui”, declarou. “Jair Bolsonaro não seria presidente”.

 

Na Toca do Coelho

A algumas centenas de quilômetros de Niterói, um grupo de pesquisadores liderados por Virgilio Almeida da Universidade Federal de Minas Gerais debruçaram-se incansavelmente sobre computadores tentando entender como o YouTube molda a realidade de seus usuários.

O grupo analisou transcrições de milhares de videos, e também os comentários. Eles descobriram que canais brasileiros de direita tiveram crescimento de audiência muito mais rápido que outros, influenciando a quantidade de conteúdo político do site como um todo.

Nos meses seguintes ao Youtube ter mudado seu algoritmo, menções positivas a Bolsonaro dispararam; também a teorias conspiratórias por ele circuladas. Isso começou quando as pesquisas de intenção de voto ainda o mostravam absolutamente impopular; o que sugere que a plataforma fazia algo além de meramente refletir tendências políticas.

Um grupo do Berkman Klein Center, da Universidade de Harvard, preparou um teste para verificar se o crescimento meteórico da extrema direita no Brasil foi turbinado pela máquina de recomendações do YouTube.

Jonas Kaiser and Yasodara Córdova, juntamente com Adrian Rauchfleisch da Universidade Nacional de Taiwan, programaram um servidor baseado no Brasil para acessar um canal popular ou submeter um termo popular de pesquisa, abrir a página de recomendações do YouTube e então acessá-las uma a uma, seguir as recomendações em cada uma delas, e assim por diante.

Repetindo esse procedimento milhares de vezes, os pesquisadores conseguiram rastrear como a plataforma conduzia seus usuários de um video a outro. Eles descobriram que após o usuário assistir a um video de política ou mesmo de entretenimento, o YouTube, na maioria das vezes, sugeria videos de canais de direita ou de teorias conspiratórias, como o de Nando Moura.

Usuários que assistiam a pelo menos um video de extrema direita eram bombardeados com muito mais videos do mesmo tipo.

O algoritmo reunia canais irrelevantes e, sugerindo-os, fabricava uma audiência para eles, concluíram os pesquisadores.

Foi assim com o canal de Bolsonaro, que há muito utilizava a plataforma para postar embustes e teorias conspiratórias. Embora fosse um usuário antigo do YouTube, seus seguidores na Internet contribuíram muito pouco para expandir sua base política, que praticamente inexistia a nível nacional.

Então, a estrutura política brasileira entrou em colapso, no mesmo momento em que sua popularidade no YouTube começou a decolar. As opiniões de Bolsonaro não haviam mudado. Mas a extrema direita do YouTube, para a qual ele era uma das principais figuras, assistiu sua audiência explodir, ajudando a divulgar sua mensagem para um grande número de brasileiros justamente num período em que o país mais estava propenso a uma mudança política.

O YouTube contestou a metodologia dos pesquisadores e alegou que seus dados internos contradiziam o que foi encontrado. Mas a empresa recusou atender um pedido do Times para lhe repassar tais dados e também pedidos de estatísticas que indicariam a precisão daquilo que os pesquisadores encontraram.

 

Doutor YouTube

As teorias conspiratórias não se limitaram apenas à política. Muitos brasileiros recorrendo ao YouTube em busca de informações sobre saúde encontraram videos que os amedrontaram: alguns diziam que o Zika estava sendo disseminado por meio de vacinas, ou por inseticidas destinados a reduzir a quantidade do mosquito hospedeiro que infestou o nordeste brasileiro.

Tais videos pareciam se disseminar pela plataforma da mesma maneira que aqueles de conteúdo político extremista: divulgando declarações alarmantes e revelando verdades proibidas, mantendo assim os usuários grudados em suas telas.

Médicos, assistentes sociais e ex representantes do governo alegam que os videos criaram o ambiente para uma crise no sistema de saúde ao fazer com que pacientes recusassem tomar vacinas e até utilizar inseticidas anti-Zika.

As consequências foram mais pronunciadas em comunidades pobres como Maceió, cidade do nordeste brasileiro que foi uma das mais afetadas pelo Zika.

“As Fake news geraram uma guerra virtual”, disse Flávio Santana, um neurologista pediátrico que trabalha em Maceió. “Elas vêm de todas as direções”.

Quando houve o primeiro surto de Zika em 2015, os fiscais da área da saúde distribuíram larvicidas que matam as larvas do mosquito transmissor da doença.

Não muito tempo depois de o YouTube ter instalado sua nova máquina de recomendações, pacientes do Dr Santana passaram a contestá-lo dizendo que tinham assistido a videos culpando as vacinas pelo Zika e, depois, também os larvicidas. Muitos desses pacientes recusaram ambos.

A Dra. Auriene Oliviera, especialista em doenças infecciosas do mesmo hospital, relatou que é crescente o número de pacientes que contestam suas prescrições, incluindo procedimentos de vital importância para crianças.

“Eles dizem ’Não, eu pesquisei isso no google’”, relatou a médica.

A comunidade médica, ela diz, está competindo “todo santo dia” com “o Dr Google e o Dr YouTube”, e está perdendo.

Mardjane Nunes, especialista em Zika que recentemente deixou um alto posto no Ministério da Saúde, disse que trabalhadores da área da saúde têm reportado experiências similares por todo o Brasil. A medida que mais comunidades se recusam a usar o larvicida anti-Zika, acrescentou, a doença está experimentando um leve retorno.

“As mídias sociais estão vencendo”, disse ela.

A comunidade médica brasileira tem razão de se sentir derrotada. Pesquisadores da Universidade de Harvard descobriram recentemente que os sistemas do YouTube indicam canais de teorias conspiratórias para usuários em busca de informações sobre o Zika, ou mesmo para aqueles que buscam videos sérios sobre questões relativas à saúde.

Um porta-voz do YouTube confirmou os achados do Times, alegando que foram não intencionais, e disse que a empresa iria mudar a forma que sua ferramenta de busca trata os videos sobre o Zika.

 

O Ecossistema do Ódio

Com o crescimento da extrema direita, muitos de seus líderes aprenderam a transformar vídeos conspiratórios em armas, indicando um alvo ao seu vasto público: pessoas que julgam culpadas. Nessa prática, os conspiracionistas do YouTube apontaram seus holofotes para Debora Diniz, ativista dos direitos das mulheres cuja defesa do aborto a tornou um dos principais alvos da extrema direita.

Bernardo Küster, uma estrela do YouTube, cujos videos caseiros falaciosos lhe renderam 750.000 seguidores e o apoio de Bolsonaro, a acusou de envolvimento numa suposta conspiração para disseminar o Zika.

Os vídeos sugerem que as próprias pessoas envolvidas no auxílio às famílias infectadas pelo Zika estão por trás da doença. Apoiadas por estrangeiros ocultos, seu objetivo é abolir a proibição do aborto no Brasil, ou até mesmo torná-lo obrigatório.

A medida que os canais de extrema de direita e os conspiracionistas começaram a citar um ao outro, a máquina de recomendações do YouTube aprendeu a indicar seus videos conjuntamente. Apesar da precariedade das alegações em cada um desses videos, quando reunidos, eles criam a impressão de que há dezenas de fontes falando sobre algo terrível, que é realmente verdadeiro.

“Parece que a conexão foi feita pelos usuários, mas na verdade ela foi feita pelo sistema”, disse Diniz.

Ameaças de estupro e tortura inundaram o celular e o email de Debora Diniz. Algumas chegaram a citar sua rotina diária. Muitas delas ecoavam as alegações dos vídeos de Küster, disse a ativista.

Küster, chegou a citar efusivamente as ameaças, embora nunca as tenha apoiado explicitamente. Isso o ajudou a se manter dentro das regras do YouTube.

Quando a universidade onde Diniz trabalhava recebeu denúncia de que um atirador iria alvejar ela e seus estudantes, e a polícia alegou não ter condições de garantir sua segurança, ela deixou o Brasil.

“O sistema do YouTube de recomendar o próximo vídeo, e o próximo video”, disse ela, criou “um ecossistema do ódio”.

“Vejo nesse video aqui que ela é considerada uma inimiga do Brasil. No próximo, dizem que as feministas estão mudando os valores das famílias. E no próximo, alegam que elas recebem dinheiro de fora”, ela disse. “Esse loop é o que faz alguém num dado momento decidir que alguma providência precisa ser tomada”.

“Precisamos fazer com que as empresas encarem seu papel”, disse Diniz. “Em termos éticos, elas são responsáveis por tudo isso”.

A medida que conspirações se espalharam pelo YouTube, produtores de video desse tipo começaram a atacar grupos cujo trabalho é lidar com assuntos controversos como o aborto. Famílias que por muito tempo se apoiaram em tais grupos passaram a cogitar que videos conspiracionistas pudessem talvez ser verídicos, terminando por abandonar seus grupos de apoio.

No Brasil, há uma prática crescente em mídias sociais chamada linchamento. Bolsonaro foi um de seus pioneiros disseminando em 2012 videos com falsas acusações a acadêmicos de esquerda nas quais eles estariam conspirando para obrigar escolas a distribuir kits gay, com o objetivo de converter crianças à prática da homossexualidade.

O tatuado Carlos Jordy, correligionário de Bolsonaro em Niterói, não se incomodou nem um pouco ao saber que sua campanha no YouTube, acusando professores de espalhar o comunismo, afetou enormemente suas vidas.

Um dos professores, Valéria Borges, disse que ela e seus colegas foram inundados por mensagens de ódio, o que criou um profundo clima de medo.

Jordy, longe de contestar tais alegações, afirmou que foi justamente esse seu objetivo. “Eu queria que ela sentisse medo mesmo”, disse ele.

“Estamos lutando uma guerra cultural”, explicou. “Foi para isso que cheguei ao congresso”.

 

A Ditadura do Like

O marco zero da política brasileira no YouTube é a sede paulistana do Movimento Brasil Livre, formado para agitar a juventude na campanha pró impeachment da presidenta de esquerda Dilma Rousseff em 2016. Os membros do movimento são jovens de classe média, direitistas, que ficam praticamente o tempo todo online.

Renan Santos, coordenador nacional do grupo, apontou para uma placa, pregada numa porta, com os dizeres “Departamento YouTube” e revelou “Eis o coração de tudo!”.

Na sala, oito jovens trabalhando em softwares de edição. Um deles estilizava uma imagem de Benito Mussolini para um video cuja tese era de que o fascismo foi erroneamente atribuído à direita.

Até nesses grupos há pessoas que temem o impacto da plataforma sobre as democracias. Santos, por exemplo, chamou a mídia social de “arma”, e disse que partidários de Bolsonaro “querem usar essa arma para pressionar as instituições de tal forma que os verdadeiros responsáveis não fiquem visíveis”.

Co-fundador do grupo e ex-guitarrista de rock, ostentando um inconfundível rabo-de-cavalo, Pedro D’Eyrot disse “temos aqui o que costumamos chamar de ditadura do like”.

A realidade, ele disse, é modelada pela mensagem que se torna viral.

Na época dessas declarações, um documentário de duas horas no YouTube atraía a atenção de todo o país. Intitulado “1964”, ano do golpe militar no Brasil, o video argumentava que o golpe foi necessário para salvar o Brasil do comunismo.

Dominguez, o adolescente aprendiz de guitarra, disse que o video o fez crer que seus professores na verdade fabricaram os horrores do período militar.

Valéria Borges, a professora de história vilanizada no YouTube, disse que tudo isso trouxe de volta recordações dos toques de recolher militares, dos ativistas desaparecidos e da agressão policial.

“Não creio que essa agressão que sofri tenha sido a última”, disse ela.

 

Yara Lapidus

Cólera

Quanto mais leio traduções para o português de livros escritos em inglês, maior é minha vontade de empreender a difícil tarefa de ler o original, quando não de traduzi-lo. Invade-me a patética pretensão de anunciar para o mundo ignorante que aquela tradução disponível é de baixa qualidade, enquanto a minha vai evitar que os seres humanos leitores de língua portuguesa percam seu tempo com textos versionados muito distantes das reais intenções do autor. Ocorre que essa pretensão invasora é desprovida de força suficiente para sustentar a disposição de realizar o feito; algo que não ocorreria houvesse algum tipo de estímulo pecuniário, até daqueles cuja monta nos entrete com a ilusão da recompensa. Mas, como a conjuntura econômica não favorece que editoras adquiram a devida coragem para remunerar qualquer esforço de tradução deste blogueiro, resta a ele conviver com esses desejos intermitentes de verter fidedignamente para o português alguma obra literária escrita em língua inglesa. Nesses modos, passeando os olhos por minha pretensiosa coleção de livros, resolvi investigar rapidamente a obra  mais famosa do melhor escritor norte-americano que já existiu: Hermann Melville. Chamou-me a atenção a diferença nos títulos: na tradução de Irene Hirsch e Alexandre Barbosa de Souza para a CosacNaify, o livro chama-se “Moby Dick”, enquanto na edição da editora inglesa Penguim, o título é “Moby-Dick or The Whale” (com hífen e complemento). Pensei comigo: se os tradutores foram imprecisos logo no título, o que será que aprontaram no corpo do texto? Antes de ler o primeiro parágrafo do livro da CosacNaify, fiz a tradução do primeiro parágrafo da Penguim, que disponibilizo a seguir. Para fins comparativos, acrescento o primeiro parágrafo do texto da CosacNaify, e também o original em inglês, para os que desejam conferir. Das duas traduções, a minha está melhor; mais precisa ela está, com certeza, porque no primeiro parágrafo do livro não é da melancolia que Ishmael quer se livrar, como sugere a distinta dupla de tradutores, mas da cólera, como escreve originalmente o autor.

Vultos

Pode me chamar de Ishmael. Há alguns anos – não importa precisamente quantos – tendo pouco ou nenhum dinheiro na carteira, e nada em particular que me interessasse em terra, pensei em navegar um pouco e visitar a parte aquática do mundo. É a forma que encontrei para desopilar o fígado e regular a circulação. Toda vez que percebo crescer-me o sarcasmo no falar; toda vez que me invade um novembro sombrio e chuvoso na alma; toda vez que me vejo involuntariamente parado defronte a lojas funerárias, ou seguindo qualquer funeral que passe; e, especialmente, toda vez que a cólera praticamente toma conta de mim, de tal sorte que é necessário um forte princípio moral para evitar que eu invada deliberadamente a rua e comece a derrubar um por um os chapéus das pessoas, então considero que já é hora de lançar-me ao mar, o mais rápido possível. Isso é o meu substituto para revólver e balas. Com um florear filosófico, Catão atirou-se sobre sua espada; eu, serenamente, embarco num navio. Não há surpresa alguma nisso. Se ao menos os homens soubessem; quase todos eles, em algum momento, cada qual com sua intensidade, nutriu sentimentos em relação ao oceano muito próximos aos meus. (Eu)

Miragens

Trate-me por Ishmael. Há alguns anos – não importa quantos ao certo -, tendo pouco ou nenhum dinheiro no bolso, e nada em especial que me interessasse em terra firme, pensei em navegar um pouco e visitar o mundo das águas. É o meu jeito de afastar a melancolia e regular a circulação. Sempre que começo a ficar rabugento; sempre que há um novembro úmido e chuvoso em minha alma; sempre que, sem querer, me vejo parado diante de agências funerárias, ou acompanhando todos os funerais que encontro; e, em especial, quando minha tristeza é tão profunda que se faz necessário um princípio moral muito forte que me impeça de sair à rua e rigorosamente arrancar os chapéus de todas as pessoas então percebo que é hora de ir o mais rápido possível para o mar. Esse é o meu substituto para a arma e para as balas. Com garbo filosófico, Catão corre à sua espada; eu embarco discreto num navio. Não há nada de surpreendente nisso. Sem saber, quase todos os homens nutrem, cada um a seu modo, uma vez ou outra, praticamente o mesmo sentimento que tenho pelo oceano. (Irene Hirsch e Alexandre Barbosa de Souza)

Loomings

Call me Ishmael. Some years ago- never mind how long precisely- having little or no money in my purse, and nothing particular to interest me on shore, I thought I would sail about a little and see the watery part of the world. It is a way I have of driving off the spleen and regulating the circulation. Whenever I find myself growing grim about the mouth; whenever it is a damp, drizzly November in my soul; whenever I find myself involuntarily pausing before coffin warehouses, and bringing up the rear of every funeral I meet; and especially whenever my hypos get such an upper hand of me, that it requires a strong moral principle to prevent me from deliberately stepping into the street, and methodically knocking people’s hats off- then, I account it high time to get to sea as soon as I can. This is my substitute for pistol and ball. With a philosophical flourish Cato throws himself upon his sword; I quietly take to the ship. There is nothing surprising in this. If they but knew it, almost all men in their degree, some time or other, cherish very nearly the same feelings towards the ocean with me. (Hermann Melville)

 

Daniel


Local: Santuário do Bom Jesus de Matosinhos (Congonhas)
Equipamento: Câmera LG-H870
Exposição: abertura f/1.8, velocidade 1/537s e ISO50
Pós processamento: CyberLink PhotoDirector 8.0

Inauguração

– Ainda resta inauguramos um cômodo. – disse ela.
– Mas não há mesa na área de serviço! – disse ele.
– Ela não é necessária.
– Está sugerindo o piso frio do chão?
– Não, desejo algo ainda mais desconfortável.
– A máquina de lavar roupa?
– Garoto esperto!
– Ligada?
– Sem dúvida.
– Você sentada nela?
– No segundo momento.
– E no primeiro?
– Eu apoiada na máquina; você por trás.
– E sua vestimenta?
– Já providenciei o uniforme.
– De subalterna?
– Totalmente subalterna.
– Então seu primeiro momento mudará para segundo.
– Eu sei. Posso adivinhar o primeiro?
– Pode.
– Você em pé; eu de joelhos.
– Garota esperta!

Yasmine Hamdan

Estudo Modesto III

O tímido é um tipo de narcisista que finge se incomodar com a ilusão de que todos os olhos do mundo estão voltados para ele. Sendo assim, não se pode dizer que este blogueiro seja um tímido porque mesmo afetado pela dita ilusão, ele não padece do dito incômodo. Para motivar e dar seguimento à fantasia de que todos o olham e o admiram, este blogueiro, de tempos em tempos, imagina-se compositor e intérprete de peças pianísticas. Ocorreu que em algum momento nos últimos meses, ele decidiu divorciar o personagem compositor do personagem intérprete, casal que antes considerava absolutamente inseparável. Percebeu, estupefato, que a débil habilidade manual do intérprete jamais conseguirá acompanhar as ideias – todas modestas e pueris – que pipocam na cabeça do compositor. Pensou: se continuarem casados, um atrapalhará o outro. Como resultado dessa importante decisão, o velho aprendiz, que no mundo real continua medíocre, produziu mais um de seus estudos canhestros, o terceiro, cuja partitura ele a publicou na página Estudos Modestos de Piano. Tocar esta pecinha, que qualquer aprendiz não medíocre consideraria de baixo grau de dificuldade, é objetivo inalcançável para o intérprete inábil. Diante dessa limitação, como já fez no seu estudo número dois, o compositor dispôs de um software musical para tocar essa nova peça. A “música” resultante, que o aprendiz entendeu como uma dança no gelo onde os graves são o cavalheiro e os agudos a dama, pode ser escutada a seguir.

Claraval


Local: Mosteiro Cisterciense de Claraval (Claraval)
Equipamento: Samsung Note 8, Câmera SM-N950F
Exposição: abertura f/1.7, velocidade 1/29s e ISO200
Pós processamento: Photoshop Express 5.9

Prefácio

Dado a livros e música, como já sabe o eventual leitor do Extrato, iniciei leitura despretensiosa do livro “The Complete Guide to High-End Audio” (2010), do engenheiro acústico Robert Harley. Eu não costumo ler prefácios de livro, em particular os mais longos. Entretanto, como o prefácio desse é pequeno e assinado por um pianista de Jazz que muito admiro, resolvi lê-lo; e por ter gostado muito, resolvi traduzi-lo; e porque gosto de exibir minhas qualidades de tradutor, ei-lo aqui publicado:

Música é o gesto sonoro de uma intenção. Ao veicular palavras, o som perde seu sentido porque a qualidade física da fala é desimportante. Mas o significado da música reside justamente em sua qualidade física, no seu som. Quando um músico toca algo de uma determinada maneira e não conseguimos ouvir sua intenção (sua razão) subjacente, ouvimos apenas gestos despropositados, e assim os registramos porque não nos foram dadas indicações suficientes sobre a tal intenção. Corremos então o risco de achar que tudo é apenas gesto e, dessa forma, perder o que é real. O meio pelo qual ouvimos música (nossos sistemas de áudio, nossas salas, etc.)  não está dissociado da nossa capacidade de experimentar música. Não se pode dizer que uma música é a mesma em diferentes sistemas porque não podemos simplesmente separar a retórica musical (suas palavras) de sua realidade física (sua transferência).  Isso torna os “sistemas de transferência sonora” (nossos aparelhos de som) bem mais importantes do que costumamos pensar. São eles capazes de nos transmitir o que os músicos naquela gravação desejavam expressar? Como músico, eu frequentemente – muito frequentemente – tive a seguinte experiência: apresentar-me num concerto, ouvir a gravação depois, e me impressionar com o que se perdeu ao relembrar coisas incríveis ocorridas durante a apresentação que simplesmente não estavam na fita. As notas estavam ali, mas notas por si só não constituem música. Onde foi parar a música, a intenção? Pude concluir então o seguinte: na gravação, o significado da retórica perdeu-se. Eu jamais seria capaz de chegar à tal conclusão confiando somente na fita e não em minhas lembranças do evento real; embora o som esteja na fita, isso não significa que uma música foi gravada. Ouvir um determinado CD num determinado sistema de áudio não significa necessariamente ouvir o que está no CD. Precisamos aprender a confiar nas respostas que nosso aparelho auditivo – nossos ouvidos – dá a sistemas de áudio. Isso demanda, é claro, que estejamos em sintonia com nós mesmos – algo difícil. Pessoas para as quais música é coisa séria precisam se aproximar do que há de intenção numa gravação sonora, e só há uma maneira de se conseguir isso em casa: aprender sobre o mundo dos equipamentos de áudio. Utilize seus ouvidos (e os de outras pessoas) para ajudar a remover tudo aquilo que dificulta experimentar música numa gravação sonora. É claro que para tal não é apenas a qualidade da reprodução sonora que conta, mas isso é o máximo que o ouvinte consegue manipular. Por exemplo, sabe-se que simplesmente inverter um plugue de dois pinos de um CD player, ou mesmo de um toca-discos, pode tornar uma gravação que você achava enfadonha em sua música favorita, só porque a polaridade não estava adequada. Como não se pode dissociar música de seu conteúdo emocional, o som de uma gravação pode definir se você vai gostar da música ou não. Além disso, pode ocorrer que você não consiga ouvir uma música que goste por conta da forma como ela foi gravada. A experiência musical é algo obviamente delicado e complexo, e nós humanos somos mais sensíveis a ela do que pensamos. Podemos então configurar nossos sistemas de áudio para tentar encontrar o melhor que eles podem oferecer para nos satisfazer. Mas, só conseguiremos nos aproximar daquilo que desejamos se soubermos o que queremos. Há componentes de áudio que se aproximam da experiência musical pelos mais diferentes níveis de custo. Cada um de nós sabe de sua limitação financeira; mas, dado o desejo de evoluir o sistema de áudio que se tem, é possível fazê-lo. Mas isso não significa que músicos precisem ser audiófilos.  Embora eu tenha trabalhos gravados desde 1965, passei a pensar seriamente sobre essas questões nos últimos dez anos. Audiófilos e amantes da música alargam fronteiras, e nós todos nos beneficiamos disso. Ademais, audiófilos mais dedicados estão determinados a manter olhos e mente abertos, a aprender incessantemente, mantendo-se calmos e pacientes durante o processo. Mas, para fazer tudo isso corretamente, pode levar tempo. Há muitas pessoas dedicadas a avaliar cuidadosamente para nós todos esses componentes sonoros. Eu recomendo fazer uso desse fato, lendo criteriosamente suas avaliações, até que as preferências sonoras de um desses especialistas casem com as suas. E após um tempo, é até possível que você passe a conhecer pessoalmente um desses caras. Mas, obviamente, quem comanda são seus ouvidos. Penso que você deveria prestar mais atenção nas necessidades deles. Afinal de contas, falar sobre tudo isso é como falar de nutrição nesta época de refrigerantes diet.

Keith Jarret

Paola Carosella