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Culpa

Syd BarretNão me considero um admirador inveterado do trabalho da banda Pink Floyd, uma vez que aprecio apenas uma pequena parte de seu extenso repertório, distribuído por 14 álbuns de estúdio e inumeráveis compilações “caça-níqueis”. O grupo inglês da cidade de Cambridge, fundado originalmente pelo baixista Roger Waters e pelo baterista Nick Mason, teve diversas formações no início da carreira até finalmente estabilizar-se, quando assinou contrato com a gravadora EMI. Nessa época, além de Waters e Mason, faziam parte do conjunto o tecladista Richard Wright e o guitarrista Syd Barret. Por conta da enorme habilidade em seu instrumento e uma profícua criatividade musical, Barret, amigo de infância de Waters e um ano mais novo que ele, acabou se tornando o principal compositor da banda: dentre as onze músicas presentes no excelente primeiro álbum The Piper At The Gates of Dawn (1967), Barret assina sozinho oito delas e as demais, participa da composição. Os colegas do grupo e pessoas próximas a ele, como seu aluno de guitarra David Gilmour, já haviam se acostumado com seu jeito insociável e seu temperamento oscilante, sem falar nos episódios, cada vez mais frequentes, em que fazia ou falava coisas absolutamente sem sentido. Esse comportamento excêntrico agudizou-se sobremaneira pelo consumo do chamado ácido lisérgico ou LSD; prática que não era privilégio apenas de Barret, mas da maioria esmagadora dos roqueiros psicodélicos da época. A predisposição do guitarrista ao desequilíbrio mental aliada ao seu vício tornou-se um problema quando começou a interferir nos relacionamentos profissionais do grupo com terceiros: entrevistas, compromissos e outras obrigações eram sistematicamente prejudicados pelos desatinos de Barret. A coisa degringolou quando o roqueiro deixou de colaborar no processo criativo da banda; fato que passou a comprometer também seu relacionamento com os outros membros. Foi por essa época também que Barret, apelidado Crazy Diamond, encarcerou a namorada num dos quartos de seu apartamento por três dias, alimentando-a nesse período, com biscoitos que jogava por debaixo da porta. Nos shows do grupo, ele sequer se dava ao trabalho de cantar ou tocar seu instrumento, sendo muitas vezes substituído por seu pupilo Gilmour. Certa vez, no carro que costumava pegar cada um dos músicos antes dos shows, alguém disse: “Vamos pegar o Syd?”. Alguém respondeu: “Pra mim ele não faz falta!”. Outros disseram: “Pra mim também não!”. Dentre esses outros, estava também Gilmour, que a partir daí foi efetivado na banda; evento que facilitou a expulsão de Barret – já considerado um doido varrido – em dezembro de 1967, quando não lhe foram dadas maiores satisfações. Algum tempo depois, Waters e Gilmour, arrependidos pela forma que baniram o colega, resolveram visitar Garret na casa de sua mãe, onde havia buscado refúgio. Quando os viu, a Sra. Barret disse: “Ele não quer ver vocês! Ele está muito, muito triste! O que vocês fizeram com o meu filho não se faz!”. Os dois tanto insistiram que acabaram por restabelecer o contato, mas a saúde mental do amigo já estava bastante precária. Alguém então teve a ideia de solicitar a ajuda do eminente psicanalista escocês Ronald Laing, que deu seu veredicto: “O problema dele é incurável”. Desde então e durante todo o tempo em que esteve ativo, o grupo Pink Floyd carregou esse peso, essa culpa, enquanto Syd Barret manteve-se recluso na casa materna, praticando a pintura, arte que tanto amava, a fotografia, jardinando flores e visitando museus até sua morte em 2006. Para o deleite dos apreciadores de rock, dentre os quais me incluo, a carga emocional de toda essa história foi lindamente expressa no álbum Wish You Were Here (1975), o melhor da carreira do Pink Floyd, avaliado ao final do post. Nas últimas sessões de gravação desse disco (eu ainda uso essa terminologia), Barret apareceu inesperadamente nos estúdios da EMI na Abbey Road: estava pálido, barrigudo, careca, sem sobrancelhas, desleixado. Quando o grupo finalmente o reconheceu, Waters e Gilmour, aos prantos, foram cumprimentá-lo.
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Variações

Reza a lenda que o Conde Hermann Carl von Keyserlingk(1696-1764) da cidade alemã de Dresden solicitou ao grande Johann Sebastian Bach(1685-1750) que compusesse um conjunto de peças para que seu cravista particular Johann Gottlieb Goldberg(1727-1756) – um inconteste virtuose em seu instrumento – pudesse interpretá-las. Tais composições deveriam mesclar vivacidade com suavidade a fim de aplacar as enormes angústias do Conde em suas noites de insônia. Desse singelo pedido, ainda segundo a lenda, surgiu o que se apelidou posteriormente de Variações de Goldberg, título consagrado até os dias de hoje. O professor da Universidade de Harvard Christoph Wolff(1940), em sua monumental biografia (não autorizada) de Bach considera bastante improvável a veracidade  dessa história, uma vez que as peças não contém dedicatória; algo incompatível com a praxe dos compositores do século XVIII quando lhes era requisitado algum trabalho. Além disso, essas variações foram publicadas em 1741, compondo a última parte de uma coleção de trabalhos intitulada Clavier-Übung (A Prática do Teclado), ano em que Goldberg era apenas um adolescente de quatorze anos. Das inúmeras interpretações disponíveis para essa obra-prima da música clássica ocidental, a qual considero dotada de caráter divino, ouvi um conjunto significativo delas, e devo dizer que justamente a mais aclamada, a mais disponível, me pareceu a pior. Digo “pareceu” porque não quero deixar a impressão que sou alguma espécie de crítico especializado ou expert, mas apenas um ouvinte atento, para o qual música é coisa séria, algo muito além de um simples entretenimento, de uma mera trilha sonora que embala o quotidiano da vida: especialmente em relação às Variações, talvez ocorra comigo algo parecido com a intensidade das impressões de Tolstói diante da Sonata para Violino No. 9 de Beethoven. Assim, ao dedicar tempo exclusivo a diversas interpretações das Variações de Goldberg, cheguei a algumas conclusões, de leigo; resultado do atrevimento que me é peculiar. Então, vamos a elas. Começo pela renomada performance do eminente pianista canadense Glenn Gould(1932-1982) fazendo minhas as palavras do excelente cravista Scott Ross: “Ele nunca soube o que é a música de Bach!”. O insociável e excêntrico Gould, que cantarolava enquanto tocava – um pesadelo para os engenheiros de gravação –  jamais apresentou interpretações das peças de Bach, mas versões, traduções canhestras daquelas que teve a ousadia de tocar, com as quais alcançou o estrelato. Nas Variações, não foi diferente; mas há um consolo: ele se saiu bem pior ao tocar O Cravo Bem Temperado.  A interpretação do cravista norte-americano Scott Ross(1951-1989) – magnífico intérprete das obras de Couperin – é ótima, apesar de um pequena impropriedade na Aria inicial e do andamento um pouquinho acelerado para o meu gosto; andamento adequado para Couperin, mas não tanto para as Variações. Apesar disso, percebe-se que Ross, vítima do vírus da Aids em 1989, conhece o que toca e respeita o compositor, buscando atingir o que acredita ser a correta interpretação das peças. A graciosa pianista Angela Hewitt(1958), também canadense, confere às Variações um toque feminino, delicado, quase maternal. Com uma técnica precisa, sem absolutamente ser monótona, Hewitt parece querer ninar em seus braços o insone Conde von Keyserlingk. O andamento me parece mais lento que o ideal, embora isso não tire a força da interpretação. A elogiada performance da pianista russa Tatiana Nikolayeva(1924-1993) é tecnicamente perfeita, irretocável, mas sua abordagem é fria, apática, monótona e, por isso, não empolga. Quando ouvi a performance do húngaro András Schiff(1953), acreditei ser ela a definitiva, uma vez que me agradara mais do que as outras. Embora a gravação que adquiri seja antiga e, portanto, sem o vigor sonoro das atuais, a perspectiva de Schiff, o cuidadoso intérprete, compatibilizou-se plenamente com a minha, o ouvinte impertinente. Quanto às Variações executadas pelas mãos do famoso pianista novaiorquino Murray Perahia(1947), sinto-me na obrigação de contar uma pequena história: no ano de 1990, Perahia sofreu um pequeno corte no polegar da mão direita que infeccionou. Por alguma razão, os antibióticos tradicionais não exterminaram as bactérias e medicamentos  bem mais fortes foram necessários. Como efeito colateral desse tratamento agressivo, o pianista adquiriu um problema ósseo na mão direita, causando-lhe reincidentes inflamações e um longo afastamento do piano. Após esse período, retomou a prática de seu instrumento e, por alguma razão, durante a longa recuperação, encontrou ânimo apenas para tocar Bach. Recuperado, resolveu homenagear esse compositor, ao qual nunca dera a devida atenção, com uma série de trabalhos; dentre eles, as Variações de Goldberg. Sobre esse trabalho, não quero dizer muito para evitar cair em clichês, mas apenas informar que fiz questão de adquirir o disco e colocá-lo em minha estante pretensiosa. Tão emociante e sublime quanto a performance de Perahia é a do regente e cravista inglês Richard Egarr(1963). Se me fosse dada a cruel opção de escolher entre essas duas obras, eu escolheria Egarr, não por considerá-la uma interpretação melhor, mas pelos quatorze canons adicionais presentes no álbum do cravista inglês. Em 1974, foi descoberta na França, escondida numa biblioteca particular, uma cópia impressa das Variações de Goldberg, na qual haviam partituras apensadas manualmente, escritas de próprio punho por Bach, conforme constatado pelos especialistas. Esse acréscimo, totalizando quatorze peças, foi apelidado Canons de Goldberg, e são justamente eles que sucedem as Variações na gravação de Egarr: um dos poucos trabalhos disponíveis que incluem as duas obras. As músicas, gravadas em Amsterdã, foram captadas de um cravo holandês, dentro de uma igreja batista. O som é vigoroso, límpido, definido e a performance, primorosa. Para as composições que requerem mais de um cravo (peças à quatro mãos), foi utilizado um recurso chamado “overdub”, onde são gravadas faixas sonoras adicionais às já anteriormente gravadas; recurso que a música popular utiliza desde a década de 60 e que, nesse caso particular, considero plenamente aceitável: evidência clara de que estou perdendo algumas intransigências. A seguir, apresento a capa desse álbum sem as costumeiras notas arrogantes que costumo colocar em cada uma das músicas: quando se refere à Bach, esse tipo de avaliação é absolutamente descabida.egarrVariations

Polifonia

guillaumeO clichê “nunca é tarde para se aprender” é bonitinho, mas não me conforta em relação à música clássica.  Na juventude, eu bem poderia ter reservado parte das minhas intermináveis horas musicais, integralmente dedicadas aos Beatles, para Bach, Chopin, Vivaldi e outros proeminentes do gênero denominado clássico. Não foi à toa que naquela época longínqua, os colegas de escola alcunhavam-me “beatle-lado”. O arrependimento não têm origem na profunda admiração que ainda conservo pelo inesquecível grupo britânico de rock, mas pela exclusividade absoluta que lhe dediquei. Devo dizer, entretanto, que minha lamentação não é daquelas que angustiam, que sufocam; ela me ocorre, vez por outra, até com certa brandura e curiosamente traz consigo uma espécie de respeito próprio. À esse sereno queixume sobrevém a auto tolerância. Ela se dá, no caso de minhas opções musicais, imprimindo palavras luminosas no escuro de minha mente irrequieta:  a mais frequentes delas é “maturidade”. As impressões que surgem dessa palavra  não correspondem muito bem à conotação usual que se dá à ela, pois não me acometem sentimentos virtuosos, de alguém que evoluiu, que ascendeu. A percepção mais precisa é de expansão, de ampliação; quando se passa a sentir, enxergar, assimilar, tratar, considerar o que antes estava desfocado, obscuro, enevoado, indiscernível, incompreensível, insuportável. Aos 16 anos, talvez eu estivesse preparado apenas para a música dos Beatles, para àquelas canções que, tais quais as crianças, são simples, diretas, vibrantes, honestas. À época, em meio a toda essa euforia ruidosa, seria muito difícil, quase impossível, apreciar algo como a Messe de Nostre Dame do poeta e compositor francês Guillaume de Machaut (1300-1377), precursor – segundo afirmam alguns estudiosos mais animadinhos – do canto polifônico e, por conseguinte, da polifonia propriamente dita. O álbum, mostrado a seguir, traz a performance do grupo vocal “Diabolus in Musica” para essa missa, e ela é simplesmente divina. Ao ouvi-la, arrepiam-me certas partes do corpo que eu não sabia serem passíveis de tal reação. Mesmo assim, avaliei o álbum: atrevimento que também é resultado dessa tal maturidade.nostredame

Pecinha

Vez por outra, o nosso aprendiz medíocre é acometido por arroubos de um orgulho que, no seu caso particular, é no mínimo injustificável:  ele se atreve a não admitir que outros ouvidos escutem sua “música” quando tocada por seu software musical. Esquecendo-se da mediocridade do que produz, pensa ele consigo que a máquina não pode ser um intérprete verdadeiro, mas um mero autômato, sem a emotividade de um ser humano. Entretanto, ele não contava com a curiosidade de um querido amigo numa conversa que tiveram, na qual, entre outras coisas, surgiram os tais Estudos Modestos. Nosso aprendiz saiu incomodado desse colóquio, uma vez que o amigo precisaria esperar, injustamente, que ele enfrentasse toda a sua limitação de intérprete para então, após um longo período, publicar algo digno de ser ouvido. Ficou ele então neste conflito entre o orgulho, fruto do egoísmo, e a humildade, fundamento da sincera amizade. Como sempre acontece com o aprendiz, foi necessária uma noite de sono intranquilo para que se encontrasse uma solução de consenso, uma vez que nunca há vencedores nessas suas disputas internas. Assim, sem prejuízo do seu trabalho de interpretação, que continua, ele resolve publicar em seu blog despudorado, neste post, a versão robotizada do Estudo Modesto II. Como deve muito a esse amigo do coração e da alma, o aprendiz lhe presenteia com essa pecinha, lembrando que o que esse inesquecível companheiro mereceria mesmo é algo do porte de uma Sonata de Beethoven.


Estudo Modesto II

Piano FanhosoUtilizando a ardilosa estratégia já mencionada aqui no Extrato, nosso aprendiz medíocre, um iludido congênito, resolve novamente bancar o compositor ao distribuir notas em uma pauta. Desta vez, valendo-se de sua débil criatividade musical, adensa um pouco mais a partitura, inserindo também maiores mudanças e variações. Ao terminar e com a ajuda de seu imprescindível software musical, ele ouve a “música” e gosta do resultado; percebe, entretanto, que não teve piedade de si mesmo, pois o tal Estudo Modesto II lhe demandará esforço hercúleo para ser interpretado ao piano. Assim, ele decide publicar a “obra” nos seus Estudos Modestos de Piano em duas etapas: a partitura, agora, e a interpretação, num futuro absolutamente desconhecido.

Mikro 22

babyAqui, o nosso aprendiz, além de medíocre, mostra-se atrevido e, para os puristas, desrespeitoso. No seu piano fanhoso, transformado em órgão fanhoso, esse intérprete bisonho toca uma pequena grande peça de Bartók: o Mikrokosmos 22. O resultado agradou o aprendiz, conferindo-lhe a coragem devida para publicar aqui no Extrato. Como sempre, a gravação e a interpretação são rústicas. 


O Milagre

Por conta de alguns posts na categoria Fotografia, pode-se notar que o Extrato andou visitando alguns sítios portenhos. Em tempos de Papa Francisco, tornou-se menos constrangedor revelar uma econômica viagem turística a essa  presunçosa capital sul-americana, onde os sinais trágicos do terceiro mundo são, como os daqui, evidentes. Se houvesse oportunidade, confessaria ao humilde Papa – Cardeal à época e eterno benfeitor dos pobres – que eu sempre nutri uma certa aversão aos argentinos: nada que descambasse para a discriminação raivosa, mas para algo que foi sendo paulatinamente construído a partir de rivalidades futebolísticas pouco amistosas de parte a parte. Estou certo de que a penitência que Vossa Eminência me daria seria rezar uma dezena de Pais-Nossos e fazer algum tipo de caridade, já que a “fé sem obras é morta” (Ti 2:26). Como não tive essa chance, coube à providência divina operar o milagre de transformar aquela imagem negativa, tão arraigada pelas (poucas) vitórias argentinas sobre o meu Flamengo, em algo profícuo. E assim aconteceu. Não foi a delícia incomparável do doce de leite argentino a única causa de tal transformação, mas também um bate-papo casual com um taxista hermano. Eu imaginava que o colóquio fosse caminhar para a inquestionável beleza das brasileiras e suas bundas maravilhosas, mas ele acabou discursando, num enrolado portunhol, sobre o Tango autêntico, de raiz, bastante diferente daquele tango hiperproduzido que se apresenta aos turistas. Lá pelas tantas, não sei com qual intenção, ele me disse: “Quando vou ao Rio, se me levam num bar onde está tocando qualquer tipo de música brasileira diferente de Bossa-Nova, eu não fico.” Naquele momento, lembrei-me de um disco (vulgo CD), presente de aniversário, há muito desprezado em algum canto das minhas gavetas e pouquíssimas vezes tocado. Como os argentinos, a Bossa-Nova também me era desagradável; até aquele incômodo pronunciamento categórico do taxista. Já em casa, procurei envergonhado pelo disco e, ao ouvi-lo, desejei ardentemente agradecer àquele argentino por me fazer apreciar uma criação brasileira que, devido a pensamentos preconceituosos, eu fizera questão de ignorar. A excelente obra musical à qual me refiro, apresento a seguir, com minhas insolentes avaliações.garotaIpanema

Despudor

clavesAcanhando, o aprendiz medíocre aproxima-se de seu piano fanhoso com um lápis, uma borracha e uma folha pautada por pentagramas. Ali, tecla aleatoriamente algumas notas e após um tempo significativo, começam a lhe agradar certas sequências. Apesar de ter as mãos trêmulas por aquele atrevimento, ele registra apressadamente o que julgou aproveitável. Terminada essa fase, ruma para o computador – dispositivo mais apropriado para medíocres como ele – e com a ajuda de um software musical adorna com notas adicionais o que colocara no papel. Pede então para que esse software toque para ele a obra acabada e, orgulhoso, conclui: “Eis um bom exercício para aprendizes como eu”. Imprime então a partitura e volta ao piano fanhoso para executar ele próprio suas mal traçadas notas. Percebe, estupefato, que não consegue ser minimamente fluente naquilo que ele próprio acabara de compor. Assim, profere raivoso: “Merda! Vou ter que treinar até o que eu mesmo fiz?” Nesse momento, nosso intrépido aprendiz é invadido por um enorme desânimo e pensa: “Não posso subtrair tempo do Bartók em prol disso aqui. O que faço agora?” Ele resolve então deixar para a posteridade esse e outros eventuais Estudos Modestos de Piano no seu blog despudorado, especificamente no menu “Trabalhos”, submenu “Música”.

Complemento

Um adolescente na primeira metade da década de 80 minimamente integrado à vida social não ficou imune à exótica figura denominada Michael Jackson. Esquálido e excêntrico, o finado cantor norte americano, egresso do grupo The Jackson 5, no qual dividia o palco com os irmãos, assombrou o mercado fonográfico com o lançamento de Thriller, o sexto álbum de sua carreira solo. Com produção do ex-comedor de ratos Quincy Jones, o trabalho tem o estilo Rhythm & Blues com enfoque bastante pop; mistura inebriante que seduziu três quartos da adolescência do dito mundo civilizado. Um recurso que se revelou fundamental para esse nível de contaminação das mentes juvenis foi o lançamento dos tais vídeos promocionais das músicas, recém batizados, à época, de “video-clips”. O franzino Michael, dotado de uma assexualidade serelepe, era dado a excessos e não poupou dispêndios financeiros para promover o hit Thriller, música que dava nome ao “disco” (eu ainda uso essa terminologia). O vídeo de 13 minutos e 43 segundos, recheado com cenas patéticas de terror, peculiares aos filmes C, foi dirigido pelo diretor, também de nível C, John Landis e finalizado, de maneira apoteótica, pelas gargalhadas sinistras do não menos sinistro Vincent Price, cujo nome sequer constou nos créditos finais. A empreitada que custou US$500.000 – um desbunde em 1983 – alçou o sucesso do álbum e do semi-negro Michael à estratosfera, eternizando-o no mundo pitoresco da música pop.  Alguns críticos mais animadinhos elegeram recentemente esse video-clip como o melhor, o mais influente da história; algo contra o qual gostaria de me opor. Qual o propósito de um video-clip, além do comercial? Acredito que seja o de acrescentar algo à canção que está promovendo, seja no âmbito do conteúdo, no âmbito da forma ou em ambos: a música pop pós-década de 80 parece que precisa desse acréscimo, desse complemento. Assim, quero dizer que o filme de John Landis, protagonizado pelo zumbi dançante Michael Jackson, falha nesses propósitos, pois além de ser desprovido de qualquer conteúdo, não conseguiu acrescentar absolutamente nada à forma, apenas enfraquecê-la. Como um experiente fã de pop e apreciador de vídeo-clips, não me lembro de um vídeo melhor do que o da música Here It Goes Again, do grupo norte-americano OK Go: são 2 minutos e 59 segundos, sem cortes, nos quais os integrantes da banda executam malabarismos coreografados sobre esteiras ergométricas; algo que demandou dezessete tentativas até que conseguissem. A música ganhou minha atenção e milhões de acessos no YouTube por conta do seu video-clip, do formato inesquecível que deu à ela. Tenho a impressão que para promover a música pop desses novos tempos, há que se dispor menos do ridículo, como em Thriller, e mais de espetáculos circenses.

Mikro 34

Mikro 34Concordo com quem diz que a peça 34 (In Phrygian Mode) é a mais bela do Mikrokosmos Volume 1 de Béla Bartók. Toco essa peça, repetindo, sem o menor pudor, as mesmas gravação e performance medíocres de uma outra, apresentada em post anterior.


Aprendiz

JanaEis uma pequena grande peça de Béla BartókDance in Canon Form (Mikrokosmos nº 31), gravada e tocada, de maneira rudimentar, por um aprendiz medíocre: eu


Engenheiro

Christ Church Organ

Confesso que não conheço muito bem o trabalho de todos os grandes compostiores de música clássica e, portanto, não seria prudente comparar a obra do único que conheço, Johann Sebastian Bach, com os trabalhos dos demais. Entretanto, a vantagem de se alimentar um blog como o Extrato, desprovido de qualquer cunho jornalístico, é poder negligenciar alguns aspectos desinteressantes da realidade e da prudência. Segue então a afirmativa imprudente desse leigo apreciador de música clássica: Johann Sebastian Bach é o maior de todos os músicos ocidentais, o mais completo; aquele que, como outros grandes músicos, dominava completamente a arte da composição e era um virtuoso no teclado, mas que, diferente deles, dominava também a arte da manufatura do seu instrumento. Segundo o biógrafo Christoph Wolff, em seu Johann Sebastian Bach: The Learned Musician, Bach sabia muito de Engenharia Mecânica, conhecimento adquirido na prática e que o aplicava quando contratado para projetar órgãos de igreja ou para certificá-los. O biógrafo conta que as igrejas da região da Turíngia, interior da Alemanha, onde Bach nasceu, viveu e morreu, quando terminavam a construção ou a reforma de seus órgãos, não permitiam que ninguém chegasse perto do instrumento antes da avaliação do compositor de Eisenach. Havia uma espécie de “Certificação Bach de Qualidade”, selo que atestava se o instrumento atendia aos rigorosos requisitos do músico-engenheiro. Ainda hoje, existem registros  dos laudos que Bach emitia, dos quais pode-se inferir que ele tinha o costume de abrir o órgão, avaliar minuciosamente a montagem dos mecanismos, os materiais utilizados, tanto os metais quanto as madeiras, e conferir também sua precisão sonora, afinando-o se necessário. Quando percebia algum problema, incluia ressalvas no laudo, onde descrevia instruções técnicas para quem fosse proceder à devida correção. Bach era muito bem pago por esses freelances, algo que o ajudava a complementar o orçamento doméstico, sempre insuficiente para sustentar a numerosa família. Ao ler toda essa história no livro, senti, pela primeira vez desde que entrei na faculdade, um orgulho enorme da minha formação. Parafusos, porcas, engrenagens, arruelas, pregos, hastes, os materiais e suas resistências tiveram, algum dia, nas mãos de um gênio, um destino nobre. Confesso que, em outros tempos, essa habilidade bachiana pouco conhecida teria me provocado uma enorme inveja, mas surpreendentemente ensejou um profundo respeito a mim mesmo, à minha escolha imatura, ao meu esforço ingênuo, à antiga crença pueril de que, na vida, toma-se rumos certos ou errados. Tomei o meu e, por algum motivo, não consigo mais classificá-lo nessa abordagem binária do mundo.

Tensão

A banda de formação mais recente que fecha, em definitivo e com grande estilo, o seleto conjunto de grupos de rock dos quais sou ardoroso fã de rock chama-se Radiohead. Não me recordo ao certo como fiquei sabendo de sua existência: seria de algum ranking das grandes obras do rock? de alguma recomendação do meu irmão? de alguma reportagem? de alguma crítica? Não sei. Creio que a origem se perdeu nesse labirinto que está se tornando a minha memória. Certas lembranças, contudo, ainda não se esconderam e estão de tal forma disponíveis que ainda é possível revivê-las: hoje, ao ouvir a primeira faixa do álbum The Bends (1995), me pego reflexivo, intrigado, como na primeira vez. Indago reiteradamente a mim mesmo que sentimento é esse que aparece junto com os acordes ao final do segundo verso: angústia? medo? desespero? ansiedade? Cada um ou todos eles misturados não conseguem definir adequadamente o rápido e intenso estado de tensão que me invade. A reação que me acomete é repetir essa passagem algumas vezes, sem esperar o término da música; algo que faço sempre que me proponho a revisitar o álbum. A partir daí, dessa espécie de masturbação, sinto-me preparado para ouvir as doze músicas completas; e elas, incansáveis, sempre se reapresentam marcantes, intrigantes.

1975

O compositor Roberto Carlos faleceu em dezembro de 1979, após lançar o seu vigésimo primeiro álbum. Desde então, restou apenas um cantor, um intérprete de suas glórias passadas, uma inserção na programação natalina da Rede Globo.  A morte foi acobertada pelos mais próximos: o cantor, a emissora e até o “amigo de tantos caminhos e tantas jornadas”. A estratégia, dali em diante, seria ludibriar o público, através da intensa promoção televisiva e da transformação do popular em popularesco, a fim de retirar-lhe a mais remota lembrança do compositor falecido. Roberto Carlos Braga, o cantor, passou então a viver do sucesso do saudoso compositor, passou a plagiar canções de compositores desconhecidos, a enaltecer a vida dos caminhoneiros, a tentar nos incutir a ideia de que as gorduchinhas, as nanicas e as coroas são sensuais e atraentes, passou a expor indiscriminadamente sua religiosidade de ocasião e a praticar outras babaquices do gênero. Muitos caíram nessa artimanha, talvez a maioria; não eu: vi e vejo, a medida que o tempo passa e a rabugice me domina, cada vez mais nítida a descontinuidade, ocorrida no início dos anos 80, na obra daquele que alguns ainda se atrevem a chamar de “Rei”. Seu reinado, para mim, findou-se após o álbum Roberto Carlos (Na Paz Do Seu Sorriso) . Como “súdito”, fico até aí; fico com as músicas que costumava ouvir domingo, bem cedinho, no rádio. Naquela época longínqua, como não tínhamos os álbuns, ou os “discos”, as canções estavam dispersas, eram entidades autônomas que não faziam parte de um trabalho. Hoje, uma outra era na indústria fonográfica e na minha capacidade financeira, tenho condições de avaliar com um pouco mais de propriedade as músicas do compositor, no contexto de seus discos. Recentemente, ocorreu-me fazer tal análise e o trabalho de 1975, Roberto Carlos (Além do Horizonte), revelou-se excelente.